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por Chandler Burr, do "The New York Times" *

03/07/2009 - 06h30

L'Eau de Tarocco é uma brisa fresca por entre as sombras de um laranjal

Nome: l'Eau de Tarocco
Criadora: Diptyque
Gênero: Feminino
Avaliacao**:


Transcendente

Talvez a maneira mais empobrecida de se imaginar um perfume (ou de descrever um perfume) é listar suas matérias-primas. É como tentar desfrutar a "Pavane" de Ravel só de ler a partitura.

The New York Times

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O perfume feminino l'Eau de Tarocco, da Diptyque


Mas há uma exceção. Quando um perfumista parte de um conceito simples e, por meio de uma técnica transparente, cria uma frangrância cristalina, as matérias-primas iluminam o resultado. Este é o caso do sublime L'Eau de Tarocco, lançado em maio passado pela Diptyque e projetado pelo Ravel dos perfumistas, Olivier Pescheux.

Pescheux, em trabalho conjunto com a diretora criativa da Diptyque, Miriam Badault, começou com o mais elementar dos conceitos. No Marrocos, ele havia comido um prato simples e tradicional, um "carpaccio d'orange" --finas fatias de laranja salpicadas com água de rosas, canela e um toque de açafrão. Pescheux e Badault decidiram que ele construiria um carpaccio de laranja olfativo. O perfumista começou escolhendo uma variedade de laranja oriunda da Calábria, chamada "tarocco".

O extrato da maioria das laranjas (os óleos essenciais espremidos de sua casca) difere perceptivelmente do gosto de sua polpa, que geralmente é mais frutada ou mais floral. A particularidade da laranja tarocco é que seu óleo e sua polpa são muito semelhantes.

Pescheux trabalha em Paris para a indústria de perfumes Givaudan, que produz matérias-primas inalteradas e de altíssima qualidade, a que ele dá o nome de "orpur".

Ao orpur de tarocco puro da Givaudan, Pescheux adicionou orpur da casca da canela do Sri Lanka e açafrão do Laos, e uma destilação de gengibre para conferir uma certa pungência; orpur de rosa búlgara para invocar a água de rosas do carpaccio; hediona (presente no jasmim), para dar sua delicada característica floral; e magnolan, molécula que entrega tanto flores brancas quanto um toque de rosa e que Pescheux acrescentou para formar uma ponte ligando a hediona à rosa búlgara.

Ele acrescentou essência de cedro do Texas para a base, olíbano da Somália (o incenso que se pode sentir em uma igreja ortodoxa russa) para dar um ar de mistério, e duas moléculas cativas da Givaudan: cosmona, para dar um toque de talco, rico e macio, e serenolide, para que uma textura mais seca possa "carregar" o incenso.

L'Eau de Tarocco é uma fórmula pequena, só contém 23 matérias-primas. O perfume resultante é o quarto da fila das novas e cada vez mais extraordinárias águas-de-colônia da coleção da Diptyque, que estão ficando tão boas quanto as novas águas-de-colônia da coleção da Hermès de Jean-Claude Ellena.

O gênero "água-de-colônia" é sem graça: pálido, fugaz, unidimensional, antiquado, como águas coloridas com cheiro de limão ou grapefruit. Com Pescheux e Ellena, estamos presenciando um aperfeiçoamento fundamental da categoria.

Tarocco é uma obra olfativa incrivelmente perfeita, com um equilíbrio de um ar fresco pálido e condimentado que se move através das sombras de um laranjal. Sem fazer esforço, ele transcende o gênero: é menos aquarela e mais óleo, pacífico como um Buda, elegante como o linho, fresco como a grama fresca da noite.

l'Eau de Tarocco
Diptyque
www.diptyqueparis.com

* Sobre o autor

O crítico de perfumes é autor de "O Imperador do Olfato: Uma História de Perfume e Obsessão" (Companhia das Letras), de "The Perfect Scent: A Year Inside the Perfume Industry in Paris and New York" e do recém-lançado romance "You or Someone Like You", (ambos sem tradução no Brasil).

** Legenda da avaliação

Não respire
Inofensivo
Perfeitamente Inalável
De tirar o fôlego
Quase uma plástica no nariz
Transcendente

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