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Salão de beleza ajuda mulheres atacadas por ácido no Paquistão

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Musarat Misbat (à dir) ajuda mulheres que sofreram ataques com ácido em Lahore, no Paquistão imagem: BBC

Shaimaa Khalil Da BBC News, em Lahore (Paquistão)

Esteticistas trabalham duro em um salão de beleza em uma área nobre de Lahore, no Paquistão. O som de conversas e risos das mulheres se mistura aos ruídos de secadores de cabelo. À primeira vista, ninguém associaria o local a vítimas de ataque de ácido. Mas, por mais de uma década, o salão de Musarat Misbah tem sido um refúgio para mulheres atacadas.

Tudo começou quando uma mulher foi ao salão de Musarat com o rosto coberto. "Quando ela tirou o véu, tive que sentar. Minhas pernas ficaram bambas", conta Musarat. "Diante de mim estava uma mulher sem rosto. Ela tinha perdido olhos e nariz e o pescoço e o rosto ficaram grudados. Ela não conseguia mexê-los." A mulher esperava que Musarat, uma veterana do mercado de beleza, a ajudasse a melhorar sua aparência.

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A esteticista Bushra Shafi foi atacada com ácido pelo marido, pelo cunhado e pelo sogro imagem: BBC

150 cirurgias
Musarat chamou médicos e pediu que ajudassem a mulher - e assim começou seu trabalho de caridade com vítimas de ataque por ácido.

Nos últimos 10 anos, ela ajudou centenas de pessoas. Com as doações, paga o tratamento médico das vítimas e, em seguida, treina-as para algum tipo de trabalho. Hoje, algumas estão empregadas no próprio salão.

Bushra Shafi é um das esteticistas mais experientes - e também uma sobrevivente de ataque por ácido. Ela foi atacada pela família do marido como punição por não pagar dote suficiente.

"Meu marido, meu cunhado e meu sogro derramaram ácido em mim, enquanto minha sogra me prendeu pelo pescoço. Eles não me levaram para o hospital por 10 dias. Meu rosto inchou tanto que virou só um grande pedaço de carne", disse Bushra.

Ela procurou Musarat para obter ajuda. Seus olhos foram queimados fechados e ela tinha perdido o nariz e partes de suas orelhas haviam derretido. A mulher passou anos se submetendo a operações e agora, depois de 150 cirurgias, teve a chance de começar uma nova vida.

"Sou grata", diz ela. "Recuperei minha visão, minha audição, tenho um nariz com o qual posso respirar e uma língua para falar de novo." As cicatrizes no rosto não escondem seu sorriso enquanto ela fala.

A instituição de caridade de Musarat é uma das poucas no Paquistão que assumiram essa causa. Ela diz que o governo precisa fazer muito mais para ajudar essas mulheres. "Por ser uma questão relativa ao sexo feminino, vai logo para a parte de baixo da lista de prioridades do governo. Além disso, eles dizem que isso mancha a imagem do nosso país. É por isso que é abafado e varrido para debaixo do tapete", diz.

Até 2011, ataques com ácido não eram sequer crime no país. Mas mesmo após a lei ser alterada - a pena vai de 14 anos de detenção à prisão perpétua - poucos são condenados.

Dias antes do casamento
Houve pelo menos 160 ataques com ácido registrados só neste ano, mas instituições de caridade dizem que o número real é provavelmente muito maior, pois muitas vítimas não denunciam porque têm medo de ser atacadas novamente. E mesmo quando raros casos são registrados e chegam aos tribunais, os autores raramente são condenadas.

"Por causa do estigma social há muita pressão sobre as vítimas e suas famílias", diz Saad Rasool, um advogado trabalhando em uma nova lei para criminalizar ataques com ácido. "Muitas famílias fazem acordos fora do tribunal e ninguém é condenado", acrescenta.

Huma Shahid foi atacada em janeiro. Professora, ela voltava da universidade quando dois homens jogaram ácido nela, já do lado de fora de sua casa, e fugiram em uma moto.

"Foi 10 dias antes do meu casamento", disse. "Eu estava prestes a casar com um homem que me adorava, mas, de repente, minha vida mudou." Huma passou meses no hospital e diz que ainda precisa de cirurgias. Seu rosto ainda está coberto com uma máscara de proteção, que ela esconde com um lenço.

Ela comenta que o homem que a atacou com ácido ainda está foragido e que desde o ataque não consegue olhar seu rosto no espelho. "É tão doloroso. Fiquei chocada com a brutalidade do crime. As pessoas dizem que sou uma mulher forte. Mas não sou tão forte a ponto de me ver assim", disse.

Huma acrescenta que nunca esperou que isso pudesse acontecer com ela, pois acreditava que ataques com ácido fossem um problema de pessoas das áreas mais pobres, menos educadas. "Eu acho que não é sobre ser educado ou não. É uma mentalidade. As pessoas acreditam que esses ataques contra mulheres são justificados. Elas são consideradas um sexo mais fraco", disse ela.

Huma levou seu caso à Justiça. Ela diz que, apesar de tudo, quer continuar com sua vida e seu trabalho - mas nem sempre é fácil. "É muito frustrante perceber que a pessoa que fez isso comigo ainda não foi pega. Às vezes me sinto impotente." Apesar de ainda ter uma série de operações pela frente, Huma diz que espera um dia ser capaz de se olhar no espelho novamente.

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