Beleza

Atualizada em 12.03.2012 15h03

Serviços de beleza são remédio contra sentimento de "exclusão" das mulheres

Fabiano Cerchiari/UOL
A vendedora Elaine dos Santos, 38 anos, paciente da oncologia do Hospital A. C. Camargo, usa peruca com os fios de seu próprio cabelo e pinta a sobrancelha com lápis imagem: Fabiano Cerchiari/UOL

Maria Eugênia Tomazini

Do UOL, em São Paulo

A beleza vem acompanhada da má fama de ser, inevitavelmente, superficial. À preocupação de ficar mais bonita vem atrelado o julgamento seguido da condenação. Veredito: vaidade demais.

Muitas vezes, porém, querer melhorar a aparência não só é aceitável como aconselhável. Com recomendação médica e tudo.
Seja por motivo de doença, condição física, ou exclusão econômica e social, um bom batom e uma escova em dia podem ter, numa mulher, o efeito de um potente remédio. É o caso de Elaine dos Santos, 38 anos, que descobriu em abril passado um nódulo maligno na mama. “É claro que a luta pela minha vida é o mais importante, mas foi quando pensei que meu cabelo iria cair que desmoronei”, conta a vendedora. A 'solução' do problema veio de uma conversa com o chefe, que sugeriu a ela fazer uma peruca do próprio cabelo, antes que as sessões de quimioterapia os levassem embora. “Senti como se tivesse encontrado a resposta para a minha dor”, conta a vendedora, que diz ter ficado ainda mais vaidosa depois da doença. “Não saio de casa sem maquiagem e salto. Não quero ter cara de doente”, afirma. Sua única chateação é não poder 'fazer a unha direito': por conta da baixa imunidade, não pode tirar as cutículas.

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    "Quando as mulheres começam a trocar dicas de beleza, criam confiança umas nas outras para lidar com a doença", diz a psico-oncologista Christina Tarabay

Para a psico-oncologista Christina Tarabay, que desde 2004 coordena o Grupo da Mama do Hospital A.C. Camargo, em São Paulo, o cuidado com a auto-imagem tem papel de destaque no tratamento de doenças. “É necessário fazer uma ponte entre o aspecto físico e a repercussão social da doença. A mulher pensa: ‘vou ter que fazer de tudo para me sentir bonita’”. A médica conta que a questão da beleza é sempre uma das principais preocupações das pacientes do grupo. “Quando elas começam a trocar dicas de beleza, comentando sobre a naturalidade de uma peruca ou outras alternativas, criam confiança umas nas outras para lidar com a doença”, diz.

De cama, mas de cabelo arrumado

Em casos extremos, a valorização da mulher por meio da beleza e a aceitação do seu estado de saúde como algo temporário chegam a ser fundamentais para dar continuidade a um tratamento. Com 30 anos e 108 quilos por conta de uma disfunção na tireóide, a estudante Andrea Carvalho confessa que as sessões de maquiagem, manicure e cuidados nos cabelos ajudaram-na a seguir o tratamento para hipertireoidismo. “Depois de 20 dias internada numa cama, é difícil não se abater”, lamenta. Mas as confortantes palavras das voluntárias do Cantinho da Beleza do Hospital Tatuapé (Hospital Municipal Cármino Caricchio), programa da Prefeitura de voluntariado com profissionais da área da beleza, serviram de bálsamo. “Elas vinham até o quarto, perguntavam se eu queria arrumar o cabelo. No começo, achava bobagem, tinha aquele cabelão descuidado. Mas, aos poucos, encontrei minha beleza.” Cinquenta e um quilos a menos depois, a estudante fala entusiasmada. “Entrei na faculdade logo depois do tratamento e, agora, até saio à noite.”

Capacitação profissional

Se não é por meio da valorização da auto-estima, a beleza pode servir como instrumento de inclusão social. Há 20 anos, o Projeto Tesourinha capacita pessoas de baixa renda para exercer as profissões de cabeleireira, manicure e depiladora. “Não tem limite de idade ou experiência. Só precisa ter muita vontade de aprender. Queremos começar as turmas com 50 alunos e terminar com 50 alunos”, conta o filho do fundador do projeto, que assim como o pai, se chama Ivan Stringhi. Com altos e baixos, e passando por uma fase de reestruturação, já se sentaram mais de 30 mil alunos nas cadeiras do Tesourinha. Um dos casos de sucesso foi Erika Lopes, 28 anos. Quando chegou ao projeto, conta que vivia em completo desespero. “Abria o armário de casa e só tinha açúcar e pó de café”, lembra. Foi um ano passando por baixo da catraca de São Miguel Paulista até o Ibirapuera para praticar as técnicas aprendidas no Tesourinha de graça até que, ao final do curso de cabeleireira, veio a proposta: queriam que ela se tornasse instrutora do projeto. Seis anos depois, embora não trabalhe mais no Tesourinha (hoje é representante de uma marca de cosméticos), agradece o tempo que ficou lá. “Foi minha fonte de esperança.”
 

O elogio é o guia

E quando a exclusão é pautada por um limite físico? Deficiente visual desde pequena, Regina Fátima, 57 anos, coordenadora da Revisão de Braile da Fundação Dorina Nowill,  afirma não sair de casa sem as unhas feitas. “Faço desde os 14 anos e, se por algum motivo não deu tempo de ir à manicure, não me sinto completa”, diz. Ela, que chama a escova progressiva de ‘um milagre’, quebra mitos explicando que a noção de beleza de uma cega em nada se difere de uma pessoa sem deficiência. “Assim como em qualquer mulher,[a noção de beleza] é formada a partir da opinião dos outros. Se me elogiam quando visto uma roupa azul, sei que fico bem nesta cor.”

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