Beleza

Perfumes com rosas são clássicos e possuem inúmeras variações

Dênis Pagani

Do UOL, em São Paulo

Cada rosa natural tem o seu perfume. O das amarelas é mais cítrico e fresco, as pequenas tem aroma úmido, transparente como chá, o das rosas escuras é denso e penetrante. E cada perfume de rosa tem sua cara. Emparelhando a flor com outras notas é possível produzir efeitos tão distintos quanto se queira, verdes e refrescantes para o verão, macia como uma pétala da flor, virginais ou extremamente sedutoras. E em todas as faixas de preço.
 
O uso da flor é muito antigo, o processo de destilação usado para obter o óleo essencial é conhecido desde o século quatro antes de Cristo. Dele resulta uma mistura: parte óleo essencial, parte água de rosas. As flores são colhidas muito cedo pela manhã porque o Sol faz com que os óleos aromáticos evaporem no ar. A destilação é um processo de baixo rendimento em que as flores são tratadas com vapor de água. Para se ter uma ideia, um 1,6 milhão de flores correspondem a quatro toneladas de rosas, que rendem apenas um quilo de óleo avaliado em cerca de 7 mil euros (aproximadamente R$ 22 mil).
 
O vapor da destilação remove apenas parte dos componentes aromáticos, o que faz com que o essencial ganhe uma faceta mais espessa, adocicada como mel, diferente da fragrância da rosa. Um outro recurso é tratar as flores com solvente, um processo mais agressivo que remove não só a parte aromática mas também pigmentos e ceras que protegem as flores. Nesse sistema se obtém uma massa sólida chamada concreto. Para uso em perfumaria esse bloco é lavado com solvente, a mistura é filtrada, o resultado é chamado absoluto de rosa. Olfativamente é mais parecido com a rosa fresca, luminoso, com aspectos verdes. Por ter ainda mais etapas que a destilação, o absoluto de rosa é mais caro que óleo essencial.

As matérias-primas sintéticas bem usadas, em associação com a arte do perfumista, são uma forma de contornar os problemas de custo. Mesmo que o orçamento do projeto permita usar estas matérias-primas preciosas, ingredientes sintéticos são bem-vindos para ressaltar alguns aspectos ao gosto do perfumista, e também por serem mais estáveis, ou seja, por se alterarem menos quando o perfume é aplicado na pele.

O tema clássico da rosa aparece por todas as partes. Como não lembrar do sabonete Phebo Odor de Rosas, criado na década de 1930, com sua cor escura e a textura diferente, com pouca espuma, da glicerina? E o Leite de Rosas no frasco da mesma cor? São indispensáveis em qualquer farmácia e já fazem parte do imaginário dos produtos nacionais. Falando de fragrâncias, a perfumista referência no assunto é Sophia Grojsman. Com várias criações ao redor da rosa (apenas três vendidas no Brasil,) suas criações são uma aula no assunto.

O mais antigo e o emblemático é Paris, de Yves Saint Laurent, lançado em 1983. Embora tenha tanta violeta quanto rosa, poucos perfumes conseguem traduzir adjetivos empregados para falar da flor: suavidade, delicadeza, sensualidade, romance. O perfume parte para o caminho da maciez da pétala e extrapola essa sensação ao máximo possível, envolvendo quem usa numa chuva de floras. Através de matérias primas como íris e almíscar, se consegue um efeito como talco, que protege do mundo externo. Não é a toa que pode dar uma impressão “cosmética” de pó facial ou batom: tradicionalmente o pó era perfumado com íris, daí a associação. (Para ter idéia do que parece, você pode cheirar Dior Homme, que é carregado de íris e sem tantos adereços.) Se você tem uma avó que usa pó facial, não vá tão depressa vincular o perfume a uma idéia de senhora, como se isso fosse um defeito. Paris é um clássico e uma referência.

Quanto à semelhança do perfume com cheiro de batom, o motivo é outro. A combinação de rosa e violeta é usada para mascarar o odor desagradável da massa do batom, tornando ele mais gostoso de usar. Existe perfume que faz desse possível problema o seu maior atrativo. É Lipstick Rose, ou Rosa de Batom, de Fréderic Malle, marca que ainda não está disponível no Brasil. Paris é um perfume de longo rastro e longa duração, grandioso, transbordante, bem ao gosto dos anos 80.

Em 2009 Yves Saint Laurent lançou uma nova versão, Parisienne, também criada por Grojsman e mais adequada ao gosto contemporâneo: frutas vermelhas e acordes adocicados a beira do comestível. Na aplicação do perfume a rosa é fresca e luminosa, ao longo do uso ele cresce em densidade, aparecem tons de frutas vermelhas e um aspecto açucarado, junto com um delicado efeito talcado, que permanece rente à pele. O perfume não chega a ficar doce ou tão espesso que se possa enjoar, e por isso mantém a classe sem perder jovialidade.

Mas antes disso, nos anos 90, aparece Trésor, da Lancôme. Aqui o foco é no suculento da rosa, o lado frutado da flor é amplificado por efeitos que lembram pêssegos e damascos banhados em calda. O amadeirado do sândalo entra com um fundo escuro. Assim como a própria calda, o perfume não é opaco apesar da doçura, e consegue refletir um pouco de luz, mesmo assim não é para os fracos de coração, Trésor é potente. Mais uma criação de Sophia Grojsman.

Narciso Rodriguez For Her, na versão Eau de Parfum (o do frasco rosa) oferece uma interpretação mais abstrata e adulta. O perfume foca no almíscar com um acento delicado de rosa, ela está lá contribuindo com uma ponta de cor numa composição quase cinza. Nada de açúcar, nada de fruta, pouca variação durante o uso. O almíscar é suficientemente seco para dar um efeito mais moderno que o talcado de Paris. Perfume muito chic e elegante, com belo rastro, e um final ligeiramente leitoso. Encre Noire pour Elle (Lalique), apesar de chamar tinta preta, é uma rosa nos mesmo passos de For Her, mais uma fantasia da maciez e suavidade das pétalas. Outro de sensação parecida é Lovely, de Sarah Jessica Parker. Não é uma rosa, mas uma lavanda discreta com textura semelhante e ótimo preço.

Para quem prefere sua rosa mais seca e austera, vai encontrar na prateleira masculina uma solução. Com uma dose grande de pimenta do reino, que tem uma faceta rugosa como madeira entalhada, Déclaration d’Un Soir, Cartier faz uma rosa escura, noturna e sóbria: é para quem prefere deixar a sobremesa para as refeições. Na galeria você encontra outras sugestões de perfumes.

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