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Refugiado sírio faz barba, cabelo e bigode em ocupação no centro de SP

Junior Lago/UOL
Rami Othaman, 30, está no Brasil desde março; Cabeleireiro há pelo menos 23 anos, ele faz corte masculino e barba típica árabe em ocupação na Liberdade imagem: Junior Lago/UOL

Natália Eiras

Do UOL, em São Paulo

Mesmo a mais de 11 mil quilômetros de sua terra natal, Rami Othaman, 30, não deixa de lado as tesouras, navalhas e máquina. No Brasil desde março, o refugiado palestino nascido na Síria faz barba, cabelo e bigode na Ocupação Leila Khaled, criada pelo Movimento Terra Livre com o apoio do Mopat (Movimento Palestino para Tod@s) no bairro da Liberdade, no centro da cidade de São Paulo. “Abrir um salão aqui é um sonho meu”, fala em entrevista ao UOL.

Morador do antigo campo de palestinos Yarmouk, na região da capital síria Damasco, o cabeleireiro começou a trabalhar em um salão aos 7 anos de idade, durante as férias escolares. “Um primo meu tinha um salão e eu varria o chão para ele”, narra. Fez seu primeiro corte aos 14 anos sem receber qualquer tipo de instrução formal. “Eu fiquei vendo o meu primo trabalhar, então fui pegando a prática”.

Rami abriu seu primeiro salão próprio aos 20 anos, mas teve que deixá-lo de lado por um tempo ao ser convocado para o serviço militar por dois anos no Exército de Libertação Palestina. “Cheguei a ir para a universidade de Teologia Islâmica, mas não conclui”, diz. “Voltei para o salão e, em 2011, começou a guerra na Síria. Trabalhei ainda um ano e meio no meio do conflito, mas depois ele começou a chegar em Yarmouk”.

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"Abrir um salão aqui é um sonho meu", fala o cabeleireiro em entrevista ao UOL imagem: Junior Lago/UOL

O sírio deixou seu país natal quando um cerco foi criado em volta do campo de refugiados. “Esvaziaram o lugar após vários ataques de mísseis. De 2012 até hoje, o campo está completamente vazio”, fala, ressentido. Ele foi para o Líbano, onde viveu por três anos. “Abri mais um salão, mas a guerra começou a chegar lá também”, conta. A decisão para vir para o Brasil surgiu após o irmão dele dizer que a situação aqui era melhor.

Rami tem CPF e carteira de trabalho graças à Resolução 20, medida criada em parceria do Comitê Nacional de Refugiados (Conare) e do Alto Comissariado para Refugiados (Acnur), que concede visto especial para as pessoas afetadas pelo conflito na Síria, sejam elas sírias, palestinas ou curdas.

Com a documentação em dia, Rami conseguiu um emprego como cabeleireiro em um salão no Sacomã, na zona sul de São Paulo. Ele aprendeu um pouco de cortes femininos, mas precisou largar o trabalho para ajudar o irmão, que estava fazendo comida típica árabe por encomenda. “Por isso decidi começar a cortar o cabelo aqui mesmo, na ocupação”.

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Hassan Issa, 30, é especializado em cortes femininos e está procurando emprego em salão no Brasil imagem: Junior Lago/UOL
Em um salão improvisado em uma das salas do prédio ocupado, Othaman faz corte masculino, barba e depilação típica árabe --neste último, ele usa uma linha forte para arrancar os pêlos indesejados da área do rosto e das orelhas. “O corte sai por R$ 20 e a barba, R$ 10”.

Além de Rami, o outro morador da ocupação Hassan Issa, que está no país desde junho, também é cabeleireiro, mas especializado em visuais femininos. “Trabalhei com isso por 10 anos. Eu fazia o Dia da Noiva na Síria”, explica o rapaz de 30 anos. Ele, atualmente, está empregado em um restaurante, mas quer voltar a atuar em um salão. “Estou espalhando o meu currículo por aí”.

Hassan e Rami não falam português, apenas o árabe e um pouco de inglês, mas aprenderam as palavras necessárias para conseguir fazer seus trabalhos. “Curto do lado, alto em cima? Máquina 3 ou 2?”, brinca Othaman em português com bastante sotaque.

O cabeleireiro, por sinal, reclama da mania dos brasileiros de sempre querer o mesmo tipo de corte, com a parte de cima mais cheia e os lados batidos. “Sonho com o dia que alguém vai me dizer para eu fazer o que eu quiser”, ri. Rami também observa que os profissionais daqui não sabem usar navalha. “Eles não conseguem fazer muito bem o degradê da máquina para o corte de tesoura”, nota.

Apesar de militantes também cortarem o cabelo com o palestino, os clientes de Othaman são, em sua maioria, árabes que moram com ele na ocupação formada por cerca de 150 pessoas. O cabeleireiro acredita que faz diferença para a pessoa este tipo de trabalho ser feito por um profissional na mesma situação que ela. “Tanto que vou fazer cortes gratuitos para refugiados em uma outra ocupação”, sorri.

Os interessados que quiserem fazer corte com Rami ou ajudar Hassan Issa a arranjar um trabalho em um salão, entrem em contato pela página no Facebook da Ocupação Leila Khaled

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Rami usa uma "linha forte" para fazer depilação típica árabe na ocupação no centro de SP imagem: Junior Lago/UOL

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