Beleza

Jornalista abre salão acessível para cachos: "Assumi-los é ato político"

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Sabrinah Giampá no Garagem dos Cachos, salão que ela abriu em sua casa, no zona Sul de São Paulo (SP) imagem: Divulgação

Natália Eiras

Do UOL, em São Paulo

"Como a maioria das cacheadas e crespas, fui criada para acreditar que nasci com uma anomalia genética", diz Sabrinah Giampá em entrevista ao UOL. O conceito, ainda que absurdo, não soa estranho aos ouvidos de quem nasceu com fios anelados. E foi justamente por isso que a jornalista de 36 anos resolveu mudar os rumos de sua vida profissional com a criação do salão Garagem dos Cachos, montado na sua própria casa, na zona Sul de São Paulo (SP).

A busca por incentivar esse resgate do orgulho dos cachos teve início primeiro a partir de uma experiência própria. Dependente de alisamentos por 30 anos, Sabrinah decidiu assumir os fios por não se reconhecer mais no espelho. "Para mim o meu cabelo era uma fera que eu mantinha trancafiada e, naquele momento, tinha que aprender a lidar com aquilo", argumenta.

E manter o cabelo sem a agressiva química dos alisamentos significou muito mais do que apenas se ver livre da chapinha e do secador. "O cacheado e o crespo são repudiados por serem mais próximos da cultura negra, o que ainda é visto como algo 'ruim' no Brasil por ainda existir um racismo velado. Por isso, assumir o próprio cabelo é um ato político", explica a jornalista.

Quando percebeu que estava sendo muito parada na rua para dar conselhos sobre seus cachos, a jornalista resolveu transformar o seu blog pessoal em um espaço para escrever sobre a experiência de ter cabelos cacheados. "Mas não queria um blog de beleza, porque já existem muitos", diz. "Queria algo mais político, para ajudar outras mulheres."

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Sabrinah: "O cabelo cacheado e crespo remete muito à cultura negra, o que ainda é visto como algo ruim. Por isso, assumi-lo é um ato político" imagem: Divulgação/Daniel Zago
"Cachos & Fatos" nasceu em 2013 e, com ele, a vontade de aprender ainda mais. “Percebi que só pesquisa não estava mais me ajudando", narra. Foi na sala de aula que Sabrinah entendeu o porquê de muito profissional não saber lidar com fios cacheados e crespos: nos cursos onde estudou, não havia bonecas com estes tipos de madeixas e os professores não sabiam orientar devidamente.

"Naquele momento, perdoei todos os cabeleireiros que eu tinha crucificado em minha vida (risos).” O jeito foi fazer uma especialização com profissionais norte-americanos. "Mas mesmo neste curso não havia bonecas crespas”, observa. “Aprendi a cuidar de black power na prática, experimentando".

No espaço de beleza, que funciona há cerca de dois anos, ela atende, sob agendamento prévio, mulheres que estão em fase de transição e em busca da recuperação de seus fios naturais. A profissional publica os antes e o depois das clientes em seu blog, além de uma breve história sobre como elas decidiram voltar ao cabelo sem química. "Quando a mulher faz esta decisão, é muito julgada pela sociedade e pela família", comenta.

O preço é mais conta porque suas clientes costumam pertencer à classe C e também pela estrutura do lugar, que não tem o mesmo padrão de um salão profissional. "É Garagem dos Cachos porque é uma garagem mesmo", ri.

Apesar da simplicidade do espaço, Sabrinah, que está com a agenda lotada até março, acredita que seu trabalho representa também uma ação social. "Geralmente recebo meninas que têm os fios alisados desde os 3 anos de idade, não sabem nem como é o cabelo natural", fala. "É muito legal participar disso, porque a gente vê meninas com lágrimas nos olhos quando ela se reconhece no espelho. Você está resgatando a beleza da pessoa".

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