Beleza

Diário de uma crespa: repórter conta como abandonou a progressiva

Lucas Lima/UOL
"Aos quase 30 anos de idade descobri que meu cabelo é lindo exatamente da forma que é", diz Denise Almeida, que passou mais de um ano fazendo transição capilar imagem: Lucas Lima/UOL

Denise de Almeida

Do UOL, em São Paulo

Aos quase 30 anos de idade descobri que meu cabelo é lindo exatamente da forma que é: com todos os cachos, volume e a vida própria que um crespo tem. Mas passei mais de duas décadas brigando com os fios porque aprendi, com base em uma visão equivocada da sociedade, que o único tipo de cabelo verdadeiramente belo é o liso. Já que comecei pelo final da história, aqui vai um spoiler: esse é um relato de preconceito, repressão e autoconhecimento.

“Bombril”, “cabelo-ruim”, “mafuá”, “miojo”, “Valderrama” (se você não conhece o jogador de futebol, dê um Google). A minha infância nos anos 80 e 90 foi recheada de "piadinhas" com meu cabelo crespo. Os comentários, que podem parecer inofensivos para quem os diz, me fizeram usar basicamente um único penteado dos 7 aos 16 anos: um rabo de cavalo daqueles bem apertados e com alta quantidade de creme, na tentativa de domá-lo --afinal, eu o via como um animal selvagem, rebelde e horrível.

Lá pelos 16 anos descobri o “mundo maravilhoso” do secador e chapinha. Ficava feliz por conseguir manter os fios lisos por alguns dias e poder exibi-los nas festinhas. Na minha cabeça, naqueles momentos específicos eu passava a ser tão bonita quanto as outras meninas.

Aos 18, comecei a fazer relaxamento, que pareceu ser uma solução mágica já que ficou mais fácil fazer escova e o volume foi embora. O problema é que, com ele, acabei dando adeus também a muitos fios. A queda de cabelo me obrigou a dar um tempo de dois anos na química.

Acervo Pessoal/Lucas Lima/UOL
Antes e depois de Denise: na foto à esquerda, em janeiro de 2015, e à direita em junho de 2016 imagem: Acervo Pessoal/Lucas Lima/UOL

Se na época o tratamento à base de guanidina se mostrou um erro gigantesco, acabei cometendo um deslize ainda maior me entregando ao formol. Caso o papo aqui fosse sobre narcóticos, a correspondência seria a fase em que o viciado entra em contato com o crack. Formol: o pior na escala imaginária da “busca pelo liso absoluto”.

Apelei para progressivas esporádicas e, como eu não dominava o uso do secador, não ficava aquele liso extremo, embora já me contentasse pelo simples fato de não ter que lidar com o volume. Por três anos mantive essa rotina de progressivas ocasionais, até o momento em que meu cabelo passou novamente a não aguentar mais a química. Resolvi usá-lo natural, fazendo, no máximo, uma chapinha na franja.

Só que, no fim de 2011, a progressiva veio de vez para a minha vida, a contragosto da família toda e do namorado. Com o discurso de “o cabelo é meu e faço o que eu quiser” e aquela rebeldia jovem, ignorei até as matérias que mostravam que a substância era perigosíssima. Eu queria aquilo e aguentaria todos os efeitos colaterais.

Finalmente alcancei o liso extremo que sonhava. E não ligava por ter, a cada três meses, o couro cabeludo literalmente queimado e por precisar respirar com uma toalha no rosto durante as aplicações que duravam no mínimo três horas. E que depois, todos os dias da minha vida, eu dependesse do secador e da chapinha.

Quando tudo mudou
Em 2014, lembro de dizer a uma colega de trabalho que só largaria a progressiva quando fosse ter filho. Só que antes do bebê, veio uma inquietação: comecei a acompanhar alguns perfis no Instagram que mostravam lindas cabeleiras cacheadas e uns black powers incríveis. Guardei algumas das fotos como referência em uma pasta no computador que eu mal acessava. Ainda assim, a sementinha já estava plantada e passei a não curtir tanto aquela ausência de volume do cabelo “lambido” que eu, há tempos, me esforçava para manter.

Lucas Lima/UOL
A jornalista do UOL de 29 anos conta como foi assumir os próprios cachos imagem: Lucas Lima/UOL

Em novembro de 2014 estava na hora de retocar a progressiva. Acabei adiando o processo e por três meses fiquei só fazendo escova na raiz dos fios. Às vezes, aproveitava um dia de folga para testar como ele ficaria natural. Em março de 2015 finalmente tive coragem de ir para o trabalho sem escova (mas ainda morrendo de medo do que poderiam falar).

O mais legal de todo esse processo foi o apoio que eu recebi. Quem passa por transição capilar --essa fase em que se abandona a química e espera o cabelo crescer, para voltar ao natural-- sabe o quanto é difícil. O cabelo não está liso nem cacheado e a autoestima vai ao chão. Mas muita gente me incentivou e me ajudou a encarar tudo como uma fase passageira.

Aprendi muita coisa, inclusive que cada crespo é de um jeito e que não necessariamente o produto que funciona para alguém terá o mesmo resultado em você. É preciso, então, testar. Testei muita coisa: cremes caros, cremes baratos, gel, tratamento com azeite. Na hora de amassar os cachinhos, testei com a mão, com camiseta, com toalha, com papel toalha. Testei secar ao vento e com secador. Testei novos cortes, aderi às camadas.

Um momento que me marcou foi procurar por um salão de beleza especializado em cabelos crespos. Lá dentro, 99% das pessoas eram cacheadas. Finalmente eu fazia parte da maioria. Finalmente ninguém ali tentaria me “empurrar” uma escova. Enfim, me senti incluída. E foi como ser abraçada.

Há mais de um ano voltei aos cachos e, volta e meia, fico impressionada (e também apaixonada) como eles voltaram rápido. Muita gente vem me perguntar sobre meu cabelo e eu adoro ver que incentivei alguém da ala do alisamento a voltar para o lado cacheado da força.

Isso não significa que um ou outro seja melhor: o importante é saber se você alisa porque você realmente gosta ou porque a sociedade te empurrou para isso. E olha, se seu caso for pelo segundo motivo, saia já dessa roubada. Não há nada melhor do que se aceitar e ser feliz sem seguir estereótipos. Sua autoestima agradecerá.

 

Uma foto por mês, desde que tirei o cabelo "do armário" #transiçãocapilar #cachos

Um vídeo publicado por Denise de Almeida (@dealmeidamotta) em

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