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Símbolos que contam história: conheça o sistema Isotype de comunicação por imagens

University of Reading, Department of Typography
"Dicionário de figuras" do sistema Isotype, criado por Gerd Arntz e Otto Neurath imagem: University of Reading, Department of Typography

Alice Rawsthorn

Não foi um bom começo. Quando um jovem artista gráfico chamado Gerd Arntz foi convocado para um museu em Viena, em 1926, para conhecer o diretor Otto Neurath, ele foi saudado com um lacônico "quanto você custa?"

Neurath esperava contratar Arntz para trabalhar em um projeto de educação pública depois de ver uma exposição de gravuras em madeira no qual ele havia ilustrado a desigualdade social, as greves e a instabilidade econômica da sua Alemanha natal. Os dois homens tinham muito em comum. Ambos nasceram no seio de famílias ricas e tinham adquirido ideias radicais aos 20 e poucos anos: Arntz, enquanto trabalhava na fábrica de seu pai, e Neurath, durante uma viagem de estudos pelas regiões rurais e pobres do império Austro-Húngaro.

 

  • Símbolo do sistema Isotype, criado por Gerd Arntz

As pessoas que Neurath conheceu ali o fizeram perceber a urgência em encontrar novas formas de explicar importantes questões sociais, econômicas, políticas e científicas para todos, especialmente para aqueles que não sabiam ler ou escrever. A solução foi criar um sistema de símbolos pictóricos, e era isso que ele queria que Arntz fizesse. Apesar da saudação sem o menor charme de Neurath, Arntz aceitou. O resultado, Isotype, ou International System of Typographic Picture Education[Sistema Internacional de Educação Tipográfica Pictórica], acabou se tornando um dos projetos de design e informação de maior sucesso do século 20.

Ainda é possível perceber a influência do Isotype nos símbolos que você vê em placas de estradas e aeroportos, em websites, manuais de instrução, e assim por diante. Em uma época em que jovens designers estão cada vez mais preocupados com questões sociais e políticas, além de querer experimentar novas formas de comunicação visual como a visualização digital de dados, existe um crescente interesse no projeto.

O Isotype é explorado em uma exposição que acontece até o dia 13 de março no museu Victoria & Albert, em Londres, e em um novo livro sobre Arntz editado pelos designers holandeses Ed Annink e Max Bruinsma. O trabalho de Arntz também foi exibido no ano passado na Between Bridges, galeria londrina que fica dentro do estúdio do artista alemão Wolfgang Tillmans.

"Um grande número de visitantes conseguiu captar a ideia de relevância do seu trabalho até os dias de hoje", disse Tillmans. "É sempre encorajador ver trabalhos que mostram a possibilidade de fazer arte visualmente interessante e que são, ao mesmo tempo, inovadores enquanto possuem mensagem e relevância política." 

O projeto Isotype começou em 1925, um ano antes de Neurath conhecer Arntz, e tinha um nome diferente: era o "Método Vienense de Estatística Pictórica". Originalmente um cientista político, Neurath foi incumbido de inaugurar um Museu de Assuntos Sociais e Econômicos em Viena. Ele o montou como um museu de ensino para aumentar a consciência sobre a evolução dos cuidados com saúde, habitação, educação e cidadania através de exposições que percorreram toda a Áustria.

Inspirado pelos livros ilustrados, mapas e enigmas visuais que amava quando criança, Neurath e sua equipe começaram a desenvolver recursos visuais, como cartazes e quadros, que combinavam estatísticas e imagens, para comunicar as questões com clareza. Eles estavam convencidos que as implicações até mesmo dos problemas mais complexos poderiam ser comunicados de forma mais eficaz por imagens, em detrimento das palavras.

Uma série de símbolos pictóricos foi vital para o projeto, cada qual representando um aspecto da vida cotidiana, mas que poderia ser combinado com outros para contar diferentes histórias. Neurath recrutou pesquisadores e analistas talentosos para trabalhar com ele, inclusive a matemática Marie Reidemeister, com quem mais tarde acabou se casando. Mas ele achou muito mais difícil encontrar artistas e designers que criassem símbolos. Queixou-se, nas suas memórias, que eles estavam muito envolvidos nas escolas da moda da época, as do Realismo e do Expressionismo, para alcançar a necessária clareza. Ele viu, então, as figuras simples, porém eloquentes, nas xilogravuras com que Arntz mapeou os problemas sociais e políticos da década de 1920. Seu estilo era perfeito para o projeto. Arntz trabalhou para Neurath, da Alemanha, por dois anos, antes de se mudar para Viena.

O "Método de Viena" floresceu no clima progressivo da "Viena Vermelha", como a capital austríaca era então chamada. A cidade era governada por social-democratas que defendiam experiências sociais e econômicas, incluindo o fluxo de campanhas de informação pública produzidas pela equipe de Neurath. Como todos os programas de informação com design atraente, ali eram combinados rigor intelectual na pesquisa e interpretação dos dados, com imagens expressivas.

Neurath entregou o rigor ao planejar cada elemento meticulosamente. Ao invés de fazer cada símbolo maior para indicar o tamanho, ele insistia em usar múltiplos. Ele também estipulou como os símbolos devem ser desenhados (com o mínimo de linhas possível, sem perspectiva), quais cores poderiam ser usadas e como combiná-los para transmitir informações mais detalhadas. Balanças da Justiça foram dispostas sobre uma silhueta humana para representar um advogado; uma foice simbolizava o fazendeiro. Suas regras foram implementadas por Reidemeister e seus companheiros, que organizavam as informações, que eram então visualizadas nos símbolos de Arntz. "O trabalho Arntz é incrível", disse o designer gráfico canadense Geoff McFetridge."Claro e universal mas também memorável, por ser tão único e pessoal."

No final dos anos 20, cerca de 25 pessoas estavam trabalhando no "Método de Viena", produzindo livros e exposições que viraram turnês internacionais. Neurath esteve em estreito contato com a arte e a escola de design Bauhaus, na Alemanha, além de influentes designers estrangeiros como El Lissitzky, Paul Renner e Jan Tschichold. No início dos anos 1930, ele e sua equipe visitaram regularmente a União Soviética para ajudar a estabelecer um instituto de estatística pictórica por lá. 

A era da "Viena Vermelha" terminou em 1934, quando os social-democratas perderam o poder e o museu de Neurath foi fechado. Ele e Reidemeister fugiram para os Países Baixos e continuaram seu trabalho sob o nome Isotype. Arntz foi com eles, mas permaneceu na Holanda quando os dois partiram para a Inglaterra em 1940. Após a morte de Neurath, em 1945, Reidemeister assumiu o Instituto Isotype e empreendeu projetos ambiciosos, incluindo um programa de educação pública em 1950 na Nigéria.

Ela manteve o rigor do sistema de Neurath, e outro dos seus pontos fortes -a flexibilidade. Nunca tendo imaginado o Isotype como substituto para as palavras e sim como um complemento -ou o que ele chamou de uma "linguagem de apoio”-, Neurath foi feliz pelo fato de os símbolos terem sido atualizados quando necessário, ou ajustados para atender a diferentes países. Assim como você esperaria de um homem cujo lema era "as palavras dividem, as imagens unem”.

Tradutor: Erika Brandão

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