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Caveira e ossos, a marca dos piratas: saiba mais sobre esse caso de "branding"

The Art Archive/Superstock
"A Captura do Pirata Blackbeard" (1718), pintura de Jean Leon Jerome Ferris, onde se vê uma bandeira com a caveira e os ossos pairando sobre a confusão da batalha imagem: The Art Archive/Superstock

Alice Rawsthorn

Londres – Quando os marinheiros do navio da Marinha Britânica HMS Poole notaram uma embarcação pirata francesa próximo das ilhas do Cabo Verde, em julho de 1700, eles o encurralaram em uma caverna apenas para que o líder dos piratas, Emanuel Wynn, conseguisse escapar. A luta foi registrada pelo capitão do Poole, John Cranby, que incluiu uma descrição dos “ossos cruzados, uma caveira e uma amplulheta” na bandeira de Wynn.

O relatório do Capitão Cranby foi um dos primeiros registros sobre uma bandeira de piratas decorada com uma caveira humana e um par de ossos cruzados na diagonal. Durante o início dos 1700, esses símbolos foram adotados (quase sempre sem a ampulheta) por piratas do mundo todo, em um espantoso e bem sucedido exercício de “branding” coletivo.

  • National Maritime Museum

    "O Rei Pirata", desenho de 1880 atribuído a N. Stretch

A chave para o sucesso estava na clareza do significado, que é um elemento essencial de qualquer projeto efetivo de “branding”  e de qualquer outra forma de comunicação. Assim como o “swoosh” do logo da Nike nos faz pensar em velocidade e a carruagem puxada a cavalos de Hermès exclama sua identificação com as classes abastadas da Europa, a visão de uma caveira e ossos cruzados na bandeira de um navio sinalizava uma coisa para os marinheiros do século 18 como os do Poole ou das embarcações mercantes que eles protegiam: terror.

Informação clara

Você pode estar se perguntando por que aventureiros foras da lei como os piratas do século 18, a maioria dos quais vivia com medo de serem capturados, optaram por identificar seus navios com motivos tão distintos. A resposta está nos mecanismos econômicos da pirataria.

“O que os piratas queriam era lucro, obtido com o menor custo possível, sem o gasto de tempo e munição que atacar outro navio acarretaria, e sem mortos e feridos”, diz Tom Wareham, curador de história marítima do Museu das Docas de Londres (Museum of London Docklands). “Se eles conseguissem aterrorizar um navio na abordagem, eles poderiam embarcar, pegar o que quisessem sem a menor confusão e se mandar com o produto da pilhagem”.

Piratas usaram bandeiras como parte de suas táticas de terror por séculos, mas em estilos diferentes. William Kidd, conhecido como “Capitão Kidd”, um pirata escocês do final do século 17, que é tema de uma mostra aberta dia 20 de maio no Museu das Docklands, costumava confundir suas presas usando uma bandeira francesa até que seu navio estivesse pronto para atacar. Só então ele subia uma bandeira vermelha, lisa, como declaração de intenções pavorosas. Henry Avery, um pirata inglês que perseguia navios no oceano Atlântico e no Índico nos idos de 1690, preferia uma bandeira pseudo-aristocrática estampada com quatro divisas douradas sobre um fundo vermelho.

Tática do terror

Pela virada do século 18, quando o Capitão Cranby avistou a caveira e ossos cruzados de Wynn, o negócio da pirataria estava florescendo e piratas ambiciosos estavam se tornando cada vez mais sofisticados na forma de operação.

Depois de décadas de guerra, a Europa tinha entrado em uma era colonial de comércio pacífico, o que proporcionava coletas ricas no mar. Também havia uma pletora de novos piratas. Muitos dos marinheiros que haviam lutado por seus países durante as guerras haviam sido destituídos nos tempos de paz, e os marujos profissionais eram tão maltratados que os motins eram frequentes. Mercadores desumanos contratavam marinheiros na Europa para irem, por exemplo, para o Caribe, e então os abandonavam por lá depois de recrutar uma tripulação mais barata para a viagem de volta. Por fim, Nova York estava emergindo como um próspero mercado negro para o espólio da pirataria.

Com tanto em jogo, era mais importante do que nunca para os piratas executar suas incursões com eficiência. As equipes mais bem sucedidas, como as dos piratas britânicos Edward (Blackbeard –Barbanegra) Teach e Bartholomew (Black Bart) Roberts eram geridas de acordo com regras rígidas, conhecidas como “Código dos Piratas”. Adotar o mesmo estilo de bandeira de fácil identificação fazia sentido do ponto de vista estratégico. Não está claro como a caveira com ossos cruzados veio a ser escolhida, nem porque foi batizada de “Jolly Roger” (Roger Alegre, numa tradução livre), mas as notícias deviam se espalhar rapidamente em um negócio peripatético como a pirataria e esses símbolos eram escolhas inteligentes.

Jolly Roger

Por muitos séculos, a caveira e os ossos cruzados já representavam a morte em muitas culturas, por isso seriam instantaneamente reconhecidas mesmo no mundo turbulento, sem leis e em grande parte analfabeto do mar.

O Jolly Roger também era versátil o suficiente para ser adaptado quando necessário, como as “identidades híbridas de marca” de hoje, como o logo da Google, constantemente alterado. Uma bandeira preta significava que os piratas iriam poupar a vida dos que se rendessem; uma vermelha, sinalizava que não haveria clemência.

Alguns piratas personalizavam a caveira e ossos, em geral para sugerir que eram especialmente assustadores. A ampulheta de Wynn era uma declaração de que o tempo estava se esgotando para suas vítimas. Outros piratas adicionavam motivos macabros, como esqueletos, adagas ou lanças. Uma da bandeiras de Black Bart mostrava duas caveiras, cada uma representando um inimigo contra quem ele tramava uma vingança.

No século 20, símbolo de rebeldia

Embora os piratas explorassem sua horrível marca de forma aterrorizante, a percepção do público foi se alterando conforme eles se tornaram populares. O público devorava relatos sobre ataques, fugas, julgamentos e execuções de piratas. Daniel Dafoe publicou uma história absolutamente romântica da carreira de Avery em “O Rei dos Piratas”, de 1719. Outros autores, artistas e dramaturgos também retrataram os piratas como destemidos aventureiros, e não como valentões sem coração e assassinos.

Lá pela metade do século 18, o símbolo da caveira com os ossos foi considerados respeitáveis o suficiente para serem eleitos emblema de um regimento britânico. Um século mais tarde, inspirou o nome da sociedade de elite Skull and Bones (Caveira e Ossos) da Universidade de Yale, e foi adotado como símbolo oficial de substâncias venenosas nos Estados Unidos.

A pirataria foi ainda mais romantizada nos filmes. Charles Laughton lembrou os expectadores do lado escuro da pirataria em “Capitão Kidd”, de 1945, mas foi uma rara exceção. Uma sucessão de galãs interpretou piratas como carismáticos bucaneiros, de Douglas Fairbanks, no filme “O Pirata Negro” (1926), e Errol Flynn, em “Capitão Blood” (1935), a Johnny Depp na série “Piratas do Caribe”.

A caveira com os ossos cruzados se tornaram um emblema de desafio, em vez de terror, por obra de uma série de gêneros musicais, incluindo punk, heavy metal, death metal e rap. Hoje em dia, essa imagem que um dia foi aterradora aparece em roupas de bebê, cobertor para cães e gatos e inúmeros objetos kitsch. Assim, a marca da identidade dos piratas foi reinventada como símbolo de rebeldia com bem pouco sinal de ameaça.

Design.

Pirataria no mar.

Propaganda e marketing.

Arte.

Tradutor: Simone Capozzi

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