Construção e reforma

Projeto de moradias para favela em SP é destaque na Bienal de Veneza

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Batizado como "Porto Seguro", o projeto brasileiro foi criado pelo arquiteto suíço Christian Kerez para o bairro Jardim Colombo, que integra o complexo de Paraisópolis, mas sua concretização segue a passos lentos desde 2009 imagem: Divulgação

Um projeto de habitação popular desenvolvido para a favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, é uma das atrações do pavilhão central da Bienal de Arquitetura de Veneza, na Itália, mesmo sem ainda ter saído do papel.

Em sua 15ª edição, a mostra tem como tema "Reporting from the front" (Reportando do front, em inglês) e reúne 88 propostas e trabalhos realizados nas periferias e bairros pobres de cidades de 37 países.

Seu curador, o chileno Alejandro Ravena, buscou soluções contemporâneas e visionárias, com o objetivo de ligar as zonas carentes com os centros históricos das grandes metrópoles, abatendo muros de discriminação urbana e barreiras de preconceito social.

Batizado como "Porto Seguro", o projeto brasileiro foi criado pelo arquiteto suíço Christian Kerez para o bairro Jardim Colombo, que integra o complexo de Paraisópolis, mas sua concretização segue a passos lentos desde 2009.

Naquele ano, o conjunto habitacional foi tema de um workshop promovido pela prefeitura da São Paulo. Ali, começou uma odisseia que perdura até hoje - e os cerca de 3,5 mil moradores não sabem quando ela chegará ao fim.

"Surpresa indescritível"
Mesmo assim, o Porto Seguro conquista reconhecimento internacional e parece ter o apoio da população.

"No começo, ninguém entendia o que aquele gringo queria", conta o líder comunitário Ivanildo de Oliveira Júnior à BBC Brasil por telefone enquanto caminha pelas ruas da favela.

"Mas o projeto foi sendo feito com a comunidade. Participamos de todas as discussões. O Chris é um cara muito legal. Ele fez um modelo inédito no Brasil e não vai desistir."

A ideia do autor do projeto era verticalizar as unidades habitacionais da favela numa primeira fase ou densificá-las, dependento do terreno, usando um modelo de construção que refletisse as construções já existentes.

"Entrar naquele mundo de labirintos e espaços lindos me lembrou as cidades italianas instaladas no topo das montanhas, os vilarejos no norte da África, na Grécia e até no Japão", diz Kerez, que destaca como a escassez de recursos no local é compensada pela criatividade.

"O que eu vi diante de mim se tornou um marco, uma surpresa indescritível. Aprendi muito."

Arquitetura social
Em seu projeto para a favela paulistana, o arquiteto quis desafiar alguns paradigmas das construções populares.

"Normalmente, são feitos grandes movimentos de terra que custam muito dinheiro, incluem desapropriações e levam as populações para longe, em locais sem infraestrutura", explica à BBC Brasil o arquiteto português Hugo Mesquita, que participou da elaboração do projeto.

O Porto Seguro foi criado para que as famílias se instalem na própria comunidade, sem mandar ninguém para longe. Seus módulos habitacionais foram desenhados para ficarem em harmonia com as construções existentes na comunidade.

A ordem era respeitar o ambiente social e arquitetônico existentes e empregar a forma de construção usada localmente.

"Esta era uma questão importante para o Christian. Nada de tecnologias especiais nem de abrir grandes espaços para a chegada do material a ser usado. Deve-se usar a mão de obra e empreiteiros locais", diz Mesquita, que viveu por quatro meses num barraco em Paraisópolis e trabalhou por cinco anos no projeto.

"Conheci muita gente que não sabe ler e nem escrever, mas que pode calcular a quantidade de ferro e cimento necessários, porque trabalha em canteiros distantes e aprendeu com a experiência. Os custos eram bem reduzidos também por causa disso. Foi neste momento que começamos a ter o apoio da população."

Mais do que uma transformação, o processo daria continuação às constantes mudanças, apenas com uma qualidade e segurança superiores.

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Arquiteto suíço diz ter ficado impressionado com labirintos do Jardim Colombo imagem: Divulgação

O mosaico de cubos acompanha a topografia do terreno, com diversos volumes. Com fachadas em concreto e tijolos aparentes, o prédio projetado pouco se distingue dos barracos vizinhos. As novas unidades habitacionais são diferentes entre si e atendem a duas ou três famílias.

Mosaico de cubos
O objetivo de Kerez era preservar o estilo de vida dos moradores. "Quisemos seguir na construção a trilha sociológica da favela", diz o arquiteto suíço.

"As pessoas ali não querem ir embora, têm orgulho e uma forte identidade com aquele ambiente. Então, propus uma expansão da favela."

O Porto Seguro mantém os diferentes tipos de residências criadas para os diversos arranjos familiares. "Não existe apenas a família modelo de pai, mãe e dois filhos", explica Mesquita.

Todas as unidades possuem entradas separadas, um fator preponderante naquele contexto urbano, pois facilita os encontros e evita o isolamento, e têm varandas ou terraços, uma versão da velha laje.

"Criamos um modelo muito semelhante às casas individuais, únicas. E distribuímos os espaços em dois ou três andares, porém, mantendo a entrada independente para cada uma, exatamente como ocorre no local, hoje. Não é simples, mas é viável", conta Kerez.

Os espaços comuns internos reproduzem os existentes - e são pequenos de propósito.

"Notamos que grandes espaços em projetos habitacionais deste tipo acabam se transformando em depósito de lixo e garagem de carros. Não queríamos repetir este erro. Além disso, estes projetos costumam excluir as oficinas, as biroscas, as lojinhas", diz Mesquita.

Obsessão
A mostra conta todas as etapas do projeto e a sua metamorfose durante o calvário vivido em meio aos labirintos da burocracia e da política.

"Meu trabalho ali se tornou obsessivo porque eu gosto muito daquelas pessoas, muito mesmo", diz o arquiteto suíço, que elaborou três versões da proposta.

A exposição começa com a exibição de quatro livros do século passado: um italiano, dois alemãs e outro americano. Os autores analisam as soluções espontâneas e os conjuntos habitacionais populares construídos na Europa entre as duas Grandes Guerras e em alguns países da América Latina - que não funcionam mais.

Ao lado, um álbum de fotografias aéreas e de satélite de grande dimensão revela a evolução e o crescimento do complexo de Paraisópolis ao longo das últimas quatro décadas, com uma grande expansão no fim da ditadura militar.

O paralelismo Europa-Brasil serve para criar um contraponto ao visitante, dando a ele algumas referências culturais. Já as maquetes dão a ideia exata do projeto.

Obstáculos
Ali também está com a tese de doutorado defendida por Mesquita na universidade ETH, em Zurique, em que apresenta uma nova metodologia para estas moradias pensadas para a favela paulistana.

O trabalho reúne centenas de entrevistas com os moradores, dos mais antigos aos mais novos e que respondem à pergunta sobre a casa chamando-a de barraco.

"Nunca tomei tanto cafezinho na minha vida. Entrei em todas as casas do meu setor de estudo. Acho que por isso é que de noite eu conseguia escrever a tese", lembra o arquiteto português sobre a hospitalidade dos habitantes e as quase 500 páginas de desenhos, plantas, fotografias e textos.

"Até hoje, não sabemos por qual motivo o projeto não foi adiante. Ele se tornou uma obsessão para o Kerez. Quase realizamos uma parte dele num outro terreno da prefeitura, que acabou sendo invadido por integrantes do PCC."

Mesquita avalia que um dos obstáculos é a "instabilidade política" do Brasil. "Na Suíça, os políticos entram e saem, mas a burocracia continua linear, estável e não muda com as novas administrações."

Uma percepção espelhada na opinião do líder comunitário Ivanildo. "Quando muda o governo, para tudo."

Um projeto para diferentes contextos
A Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo até agora não deu um destino definitivo ao projeto inscrito no Programa de Urbanização de Favela. Mas Ivanildo não perde a esperança.

"Recentemente, a Prefeitura desapropriou um terreno aqui para a construção de um conjunto habitacional. A previsão de obras é para 2019. Seria um sonho para o Chris e para nós."

Enquanto isso, um empreiteiro do Guarujá está negociando a construção de 4 mil casas, seguindo o projeto do Jardim Colombo. E, depois de exposto em Veneza, ele vai ser concretizado nos arredores de Praga, na República Tcheca.

"Este projeto é mais como um sistema que pode ser aplicado em diferentes lugares e contextos", afirma Kerez. "Para mim, o mais importante deste projeto, muito rico de ideias e visões, é como ele nos ensina tantas coisas novas."

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