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Os gatos são mesmo egoístas?

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Eva Sanchis Da BBC Mundo

Você volta para casa e diz um alô carinhoso ao seu gato, mas ele não move uma pata, simplesmente te olha da janela. Dali a pouco, você está escrevendo um e-mail importante. O gato decide passear pelo teclado do seu computador - você perde tudo o que escreveu. Gatos: tão adoráveis. E tão irritantes.

O fato é que, apesar de estarem entre os mascotes mais populares, os gatos têm, historicamente, reputação de distantes e egoístas, especialmente se comparados ao "melhor amigo do homem": o cachorro. Essa má reputação se justifica? Não de todo, dizem os especialistas. Eles afirmam que os gatos domésticos guardam muitas das características de seus ancestrais, os gatos selvagens, criaturas muito solitárias. O problema, afirmam, é que desde que passaram a conviver com humanos, há 9 mil anos, os gatos nunca foram completamente domesticados.

Semi domesticados?

Para chegar a essa conclusão, o pesquisador Wesley Warren, da Universidade Washington em St. Louis, nos Estados Unidos, realizou, ao longo de dois anos, o maior estudo genético sobre gatos domésticos já feito. Depois, ele comparou o DNA dos felinos domesticados ao dos gatos selvagens. E concluiu que os genes dos selvagens não diferem tanto dos domésticos quanto os genes de lobos em relação aos do cachorro (o lobo é, geneticamente, um antepassado do cachorro).

Acredita-se que os cachorros tenham começado a conviver com humanos há cerca de 17 mil anos. Aos poucos, foram ensinados a caçar, cuidar de rebanhos e das casas de seus donos. O processo de domesticação dos cachorros também envolveu ensinar cães a ser sociáveis, leais e obedientes. Isso nunca foi ensinado aos gatos, cuja presença era apenas tolerada pelas primeiras sociedades agrícolas, explica o professor Dennis C. Turner, diretor do Instituto de Etologia Aplicada e Psicologia Animal, em Horgen, na Suíça, e autor do livro "The Domestic Cat: the biology of its behaviour" (em tradução livre, O gato doméstico: a biologia de seu comportamento).

Segundo o especialista, ao perceberem que os gatos eram úteis como caçadores de camundongos e ratos que infestavam fazendas e celeiros nos primeiros assentamentos agrícolas da humanidade, há milhares de anos, os moradores passaram a oferecer comida extra aos felinos - por exemplo, pequenas cumbucas de leite. E não muito mais do que isso. Outros estudiosos, no entanto, discordam do termo "semi domesticado". Melinda Zender, pesquisadora do Departamento de Antropologia do Museu de História Nacional de Washington, nos Estados Unidos, disse que os gatos "estão completamente domesticados". "O que causa confusão é que se trata de uma associação doméstica na qual ambas as partes obtêm benefícios. Mas os gatos selvagens sempre foram solitários e até esquivos. Têm um baixo nível de sociabilidade que persiste nos gatos de hoje", explica Zender à BBC.

Seleção recente

Outra razão que explica o aparente "egoísmo" dos gatos, segundo Turner, é que no caso dos cachorros e cavalos, os humanos facilitaram a reprodução de determinadas raças por apresentarem maior "afinidade" com humanos. A seleção de raças de cachorros, cavalos e de gado vem sendo feita há 500 anos. No caso dos gatos, a prática é mais recente, tem no máximo 200 anos.

Turner afirmou categoricamente que os gatos não são egoístas - simplesmente mantiveram sua independência, principalmente pela falta de seleção de raças (pelos humanos). Eles "escolheram" viver conosco, afirma o professor.

Como os gatos selvagens

Talvez a pequena variação genética em relação aos gatos selvagens possa explicar por que os gatos retiveram certas características que lhes permite sobreviver mais facilmente do que outros mascotes, sem ajuda humana. Por exemplo, gatos têm o espectro auditivo mais amplo de todos os carnívoros e podem ver à noite, o que lhes permite detectar mais facilmente sua presa. E, por não dependerem da comida que recebem dos humanos, podem sobreviver mais facilmente sem eles.

O pesquisador tem algumas dicas para amantes de gatos: não se emocione se alguma vez um gato lhe trouxer um rato morto "de presente". "Isso provavelmente está relacionado ao fato de que gatas trazem comida a seus gatinhos. E gatos machos têm a digestão lenta", afirma. E há uma forma de fazer com que seus gatos se interessem mais por você: "O melhor conselho é esperar que o gato te procure e, quando ele fizer isso, desfrutar ao máximo da companhia do animal. Ele ficará mais tempo com você se for ele a tomar a iniciativa."

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