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Aprenda a identificar a procedência da madeira usada para construção ou reforma

ISIS NÓBILE

Colaboração para o UOL

Graças ao desmatamento, o Brasil – principal exportador de madeira tropical do mundo - ocupa o quarto lugar entre os maiores emissores de gás carbônico no planeta. Entre outras razões, o desmatamento ocorre pela busca de troncos de árvores que possam ser usados em construções e móveis. Essa madeira, após ser transportada para distribuidores, é comprada por construtoras ou fabricantes de mobiliário. E você, ao adquirir algum desses produtos, indiretamente contribui para o desenvolvimento insustentável.

“É difícil buscar a fonte da madeira usada em móveis, por marceneiros e em construções”, afirma Natália Prado, do departamento de florestas da ONG Iniciativa Verde. Mas não é impossível. Existem algumas maneiras mais seguras de saber a procedência da madeira. A primeira é checar se ela possui o selo FSC (Forest Stewardship Council, em inglês). Caso contrário, pode-se solicitar para o comerciante o Documento de Origem Florestal (DOF) ou a Guia Florestal (GF) – uma espécie de RG da madeira.

Em último caso, o interessado pode perguntar se a madeira possui a Certificação do Manejo Florestal pelo Programa Brasileiro de Certificação Florestal (Cerflor). “No entanto, o Cerflor segue normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), não considera alguns critérios ambientais”, adverte Adriana Imparato, da Fundação Getúlio Vargas, coordenadora da Rede Amigos da Amazônia - iniciativa de empresas e governos para eliminar o consumo de madeira ilegal. E, sempre, o comprador deve exigir a nota fiscal do produto – independente da madeira ser bruta ou um móvel pronto.

Certificação internacional

De acordo com Renato Morgado, engenheiro agrônomo do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), cerca de 3% a 5% da madeira proveniente da Amazônia possui FSC. O selo é uma certificação florestal com credibilidade internacional coordenado pela organização sem fins lucrativos Forest Stewardship Council, sediada na Alemanha. O Imaflora possui autorização para certificar com FSC. “A organização estabelece critérios para que a produção florestal possa receber esse selo”, conta Morgado. “A extração de madeira nativa deve respeitar as comunidades locais, os direitos trabalhistas e os critérios ambientais e econômicos”, completa.

Um exemplo de manejo sustentável é dividir a área de produção de madeira em 30 partes, explorando apenas uma por ano. Dessa área, o produtor pode retirar de três a quatro árvores por hectare – o que corresponde a dois campos de futebol - anualmente. Em 30 anos, aquela primeira área explorada já se recuperou. “Dessa maneira, o produtor consegue manter seu negócio perpétuo e financeiramente viável”, afirma o engenheiro. Ele lembra que, mesmo assim, toda exploração tem um impacto. “O FSC busca técnicas de menor impacto possível”, diz.

Onde encontrar produtos ou matéria-prima com o selo? Distribuidores de madeira, lojas e marceneiros podem adquirir e comercializar produtos com certificação em todo o Brasil. No entanto, o valor é ligeiramente, maior. “Uma madeira com certificação FSC custa entre 5% e 8% mais cara do que uma madeira ilegal”, conta Imparato.

Paulo Santos/AP
Helicóptero do Ibama encontra toras de mogno escondidas por madeireira que atua ilegalmente na floresta Amazônica (30/10/20001) imagem: Paulo Santos/AP

RG da madeira

“Toda madeira deve ter uma espécie de RG que a acompanha”, explica Márcio Astrini, coordenador da Campanha Amazônia do Greenpeace. Trata-se do Documento de Origem Florestal (DOF), cujo nome pode variar entre os estados, como Guia Florestal (GF), mas ambos possuem a mesma base legal. O documento permite saber o histórico de venda da madeira e até de qual floresta a árvore foi cortada. “É um sistema bom, porém pode sofrer ataque de ilegais”, afirma Astrini.

Um exemplo: uma madeireira conseguiu aprovar um plano de manejo em uma região – incluindo a espécie e a quantidade de árvores que pode cortar. Ao fazer a nota fiscal e emitir o DOF de um corte, a árvore em questão será debitada da quantidade que a madeireira pode retirar da natureza automaticamente. “Para burlar o sistema, ilegais duplicam o DOF físico, que é um documento, ou retiram madeira de outro lugar e dizem que ela é proveniente da área aprovada”, explica Astrini. “De acordo com uma pesquisa que realizamos em 2007, grande parte da madeira exportada é o que chamamos de 'ilegal documentada'”, conta. Ou seja, a madeira possui documento, mas ele é falso.

“A madeira que tem o DOF possui um indicador de que está dentro da legalidade”, diz Imparato. Astrini conta que é difícil obter o DOF de um móvel, mas pode-se solicitar ao comerciante. “As lojas deveriam saber a procedência. Se for de desmatamento ilegal, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) pode aprender o material e até responsabilizar o estabelecimento por participação”, explica. Já o marceneiro, que compra a madeira, deve receber o DOF.

Antônio Gaudério/Folha Imagem
Pilha de tábuas em fábrica da Juruá Florestal, exportadora de pisos de madeira, em Ananindeua (PA), pintadas com o selo verde do Conselho de Manejo Florestal, o FSC (18/10/2004) imagem: Antônio Gaudério/Folha Imagem

Outras opções

Renato Morgado e Adriana Imparato dão outra dica. Se você está na dúvida sobre a procedência da madeira, escolha móveis de MDF e outros materiais feitos de aglomerados de madeira. Ou opte por madeiras de pinus e eucalipto, geralmente plantadas na região Sul e Sudeste, para utilizar no acabamento da residência. “40% de toda a produção de madeira plantada no país é certificada pelo FSC”, explica Imparato.

Na construção civil, ainda existe o predomínio do uso de madeira nativa. “A maioria é da região amazônica. Essa madeira é entre 10% e 20% mais cara, mas mais resistente e dura. Por isso, não é usada para fabricar papel como o pinus e o eucalipto”, explica Astrini. A madeira nativa também é utilizada para acabamento e piso. Mas, de acordo com Morgado, está crescendo o uso de madeira de reflorestamento em tapume e outras finalidades. “Vale lembrar que a plantação de árvores é uma monocultura. Se não for feita corretamente, pode impactar o solo, a fauna, a água”, lembra Astrini. Daí a importância do selo.

Quem mora no estado de São Paulo, pode contar com uma vantagem única no Brasil. O estado colocou em prática o selo “Madeira Legal”. Os depósitos interessados podem solicitá-lo. “O selo, emitido pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado, garante que parte da madeira foi vistoriada e sua documentação verificada”, diz Imparato. Dessa maneira, o consumidor que adquire madeira desses depósitos tem a garantia de que ela é legal.

“Independente de qualquer coisa, em todas as compras que envolvem madeira deve-se exigir a nota fiscal. Ela torna o sistema da ilegalidade muito caro, pois os ilegais precisam falsificar esse documento”, explica Astrini. Além disso, quando a nota é exigida, os depósitos se veem mais obrigados ainda a dar baixa na madeira. “Se todos pedissem, ajudaria a cercar a ilegalidade. Criando uma pressão maior”, acredita.

“Nossa meta é acabar com o desmatamento. Porque é possível extrair madeira com manejo florestal adequado”, afirma Astrini. Adriana Imparato diz que a extração de madeira causa menos impacto ambiental do que a de ferro e de alumínio. “Se for extraída responsavelmente, ela continua sendo um recurso rico, renovável e resistente com menor custo ambiental”, assegura. O importante é saber que o consumo de madeira sempre reflete nas florestas. O impacto pode ser socialmente e ambientalmente negativo ou indutor de desenvolvimento econômico e de conservação. “Tudo depende das nossas escolhas”, finaliza Morgado.

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