Casa e decoração

Urbanistas propõem soluções para porção leste da região central de São Paulo em livro

Divulgação/Imprensa Oficial
Galpões industriais e novos lançamentos residenciais localizados em antigos lotes industriais, no bairro do Belém, em São Paulo imagem: Divulgação/Imprensa Oficial

DANIELA SALÚ

Da Redação

No livro “A Leste do Centro – Territórios do Urbanismo”, lançado no mês passado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, as urbanistas Regina Maria Prosperi Meyer e Marta Dora Grostein fazem um estudo minucioso com o objetivo de propor melhorias para a região central da capital paulista. Mapas, plantas, propostas de intervenção na região e fotos (atuais e antigas) integram a obra ricamente ilustrada.

As autoras abordam o trecho urbano a leste da área central de São Paulo – o Vetor Leste do Centro, região que abriga parcelas dos bairros do Brás, Pari, Mooca e Glicério. O livro mostra que problemas atuais, como as enchentes, remontam a décadas, e explica os fatores de expansão da cidade para o leste, como a instalação da ferrovia e de suas estações na região da várzea, no final do século 19 e início do 20; a introdução do ônibus como transporte público nos anos 20, criando novos eixos de expansão urbana e a aquisição de grandes glebas de terra rural pelo poder público para a construção de conjuntos habitacionais populares em meados da década de 1970. Em entrevista ao UOL por e-mail, as autoras falaram sobre as características desta região:

Qual é o principal diferencial da porção leste da região central de São Paulo?

Marta Grostein e Regina Meyer: A presença de um conjunto de espaços públicos de grande variedade e riqueza espacial confere ao Centro o estatuto de maior e mais significativo espaço da vida coletiva da cidade de São Paulo. Nesse sentido o Centro é o contraponto do modelo de expansão urbana representativo das ultimas décadas do século 20 e inicio deste século, conhecido como urbanização dispersa, cada vez mais comprometido com a produção de espaços privados, monofuncionais e, frequentemente segregados, que representam uma perda dos atributos da urbanidade.

A porção leste do Centro, dominada do ponto de vista urbano pelo Parque D. Pedro II e pelo sistema hidrográfico do rio Tamanduateí e sua várzea, embora se mostre muito carente de projetos urbanos abrangentes, é um espaço promissor pelo que guarda de possibilidades urbanas e pelo potencial de desenvolvimento de projetos e obras de grande porte que podem alterar não só seu papel na cidade como também, seu espaço intraurbano.

Como essa área foi ocupada historicamente e qual é seu perfil hoje?

Grostein e Meyer: A região leste do Centro, conforme tratada no livro, compreende os distritos centrais Sé e Republica – onde se destaca o Parque D. Pedro II como pólo metropolitano importante – e parte de outros distritos denominados em nosso estudo de “Bairros Centrais”, como a Mooca, o Brás, o Cambuci entre outros. É marcante a presença histórica nesses bairros de atividades comerciais associadas à ferrovia, como a Zona Cerealista, e indústrias ligadas ao acondicionamento dos produtos agrícolas que partiam para o Porto de Santos, assim como as primeiras metalúrgicas, que mais tarde - a partir da década de 1950 - se transferiram para o novo distrito industrial localizado no ABC paulista.

O perfil contemporâneo é outro. Embora a Zona Cerealista ainda se encontre instalada, muitas das indústrias não estão associadas às suas funções originais. Há uma grande vitalidade das atividades comerciais assim como a presença de um numero expressivo de edificações e terrenos desocupados associados às indústrias desativadas.

Desde a década de 1990, as mudanças no padrão produtivo que estão transformando de forma intensa todos os setores industriais da metrópole estão também produzindo um novo perfil urbano nos bairros operários focalizados. Se por um lado, a disponibilidade de grandes glebas em processo de transformação funcional desperta interesse inédito do mercado imobiliário por localizações centrais, por outro, a falta de regulação publica adequada resulta na construção de imensos conjuntos residenciais na forma de condomínios fechados que não contribuem para a reconfiguração urbana e urbanística dos bairros centrais.

Quais são os maiores desafios urbanísticos que a região enfrenta atualmente?

Grostein e Meyer: O impacto do crescimento do padrão metropolitano sobre o Centro é hoje um dos temas importantes do urbanismo paulistano. Uma das conclusões, observadas as políticas publicas e os projetos urbanos que tiveram como objeto o Centro de São Paulo, é a destruição dos espaços centrais, que tem relação direta com a escala adquirida pelo território metropolitano e, como corolário, com o modelo de mobilidade exigida pelas atividades neles localizada.

A dimensão e a configuração do território metropolitano estão diretamente relacionadas com as opções de mobilidade implantadas no período de maior expansão da mancha urbana metropolitana, que possui hoje uma frota de mais de 6 milhões de veículos apenas no município de São Paulo. Além desta questão crucial, um dos fenômenos mais recorrentes da renovação urbana de áreas centrais é a expulsão da população residente, cuja moradias nessas áreas está condicionada à diminuição do valor comercial dos imóveis e dos espaços públicos adjacentes. Esta observação nos remete aos cortiços, mas tornou-se também válida na ultima década para o que estamos denominando de “moradores de rua”. A exacerbação das questões sociais é, sem duvida uma das inúmeras faces das operações de recuperação das áreas degradadas. Portanto o exame dessas questões exige uma visão sistêmica do funcionamento da metrópole.

Recuperar os espaços públicos para proporcionar usos adequados e maior conforto à população, além de criar condições favoráveis para a instalação de novas moradias para diferentes grupos sociais nos bairros centrais é, seguramente, um grande desafio para as políticas publicas e projetos urbanos contemporâneos.

Quais são os pontos fortes da região central leste e como potencializá-los?

Grostein e Meyer: A área do Parque D. Pedro II, a denominada orla ferroviária e as grandes glebas industriais em processo de transformação funcional deveriam receber tratamento preferencial pelo poder publico municipal e estadual. A estratégia que tem se mostrado mais eficiente em outros contextos é a de estabelecer planos estratégicos de conjunto para setores específicos das metrópoles. São antes de tudo, estratégias combinadas de planejamento e de projetos setoriais que, pela presença forte do projeto urbanístico perdem seu caráter de obra isolada.

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