Casa e decoração

Saiba escolher a cadeira certa para o home office, aliando preço e desempenho

Fran Parente / UOL
Home office em apartamento em São Paulo, com reforma e interiores elaborados por FGMF Arquitetos, tem a poltrona Aeron, da Herman Miller, com desing de Bill Stumpf e Don Chadwick imagem: Fran Parente / UOL

GIOVANNY GEROLLA

Colaboração para o UOL

Ela chega abraçando pelas costas, e parece que tem o encaixe perfeito para todo o corpo: a coxa completamente apoiada; os pés, firmes, no chão. Os cotovelos ficam alinhados, repousados sobre braços confortáveis. Relaxar é deixá-la reclinar.

Não importa se foram das mais baratas (R$ 700), ou se o conforto custou caro (R$ 5 mil). "Hoje, a cadeira é a peça mais importante do escritório, ou do home office", afirma com propriedade o arquiteto Marcel Monacelli, que tem largo portfólio em projetos corporativos. "E tanto faz se a cadeira de trabalho está em casa ou na empresa; a necessidade de encontrar um produto que se adapte ao nosso biótipo é a mesma."

Freddy Van Camp, designer de cadeiras e professor da Escola Superior de Desenho Industrial da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), levanta alguns quesitos mínimos para a cadeira ideal: "tem de ser giratória, ter regulagem da altura do assento e do encosto – em ângulo de inclinação e altura -, encosto e assento separados, além de regulagem na altura dos braços e base com cinco patas e rodízios", enumera.

Mais que conforto, ergonomia

Quanto mais profissional for o uso do computador, e quanto maior o número de horas diárias que se passa sentado na frente dele, melhor terá de ser a cadeira. "É uma regra de ouro: o preço da cadeira que compramos acompanha o valor da máquina e dos programas instalados", compara o professor.

O ideal é que cotovelos estejam sempre apoiados, enquanto os braços fiquem na mesma altura do teclado (180° em relação ao apoio). "Punhos tensos geram esforço repetitivo e, com o tempo, lesões", diz o arquiteto. "Mas há também cadeiras cujos braços se movimentam horizontalmente, para dentro e para fora, possibilitando maior adaptação à atividade realizada."

  • Freddy Van Camp / Divulgação

    A ilustração mostra duas posturas aceitáveis para trabalhar longas horas no computador

A profundidade do assento não é menos importante: sentado, o usuário deve estar com a coxa inteira sobre o assento (estabilidade e conforto), e com os pés apoiados sobre o chão, num ângulo de 90º em relação à tíbia. Joelhos também ficam dobrados e relaxados em 90º, em relação ao assento.

"Um bom adicional é que a cadeira recline, fazendo leve movimento para trás que exerça pressão sobre as costas – necessário para relaxar durante o trabalho", avalia Monacelli. "Hoje, boas cadeiras têm encostos que se movimentam para frente, para trás, mas também permitem movimentos para a direita e para a esquerda, sobre encostos flexíveis."

Qualidade e durabilidade

A escolha da cadeira certa também passa pela análise do local onde será usada: "As estofadas em vinil são mais baratas, mas podem ser desconfortáveis em regiões muito quentes", alerta Freddy Van Camp. Quem senta demais, procura produto revestido de tecido, ou modelos mais sofisticados, com encosto em tela esticada (não-estofados). "Nesses casos, é preciso saber de onde vem o material da tela e exigir sempre certificado de garantia – por escrito! - de pelo menos cinco anos."

  • Freddy Van Camp / Divulgação

    São muitas as variáveis que devem ser observadas em um bom projeto de cadeira de escritório: o tema
    é mais complexo do que pode parecer

Cadeiras bem funcionais, de fabricação nacional, terão preços a partir de R$ 700 ou R$ 800. Já as linhas top, muitas delas importadas, apresentarão mecanismos que vão além dos itens básicos de ergonomia, como manivelas que regulam tensão lombar e tensão do assento, ou velocidade de relaxamento regulável. Segundo Marcel Monacelli, até dá para investir numa cadeira sem braços, se o tempo de permanência nela for curtíssimo, ou de alguns minutos por dia.

O ABC das cadeiras de escritório

O pesquisador do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo) Mario Achilles Leoni submete cadeiras de escritório a testes de laboratório, e garante que, a olho nu, é muito difícil saber qual cadeira tem mais ou menos durabilidade, ou atende às normas técnicas de qualidade. "O manual deve indicar sua classificação em tipo 'A', 'B' ou 'C' – para cada intensidade de trabalho, em horas de uso", explica.

Cadeiras da categoria "C" são as mais baratas, mas servem para o home office utilizado poucas horas no dia. Quando giratórias, vêm com regulagem de alturas lombar e do assento (muito usadas por secretárias ou digitadores). Já as "B" atendem aos quesitos mínimos de conforto para pessoa que trabalha sentada por período integral: regulagem de altura de assento, altura de apoio lombar e inclinação de encosto. "As cadeiras 'A' têm de ter todos os outros dispositivos possíveis, como profundidade e inclinação do assento", afirma Leoni.

"É também importante saber o tipo de rodízio na base: se o uso for sobre carpete ou tapete, o rodízio deve ser duro (tipo H), feito de náilon puro; se o piso for frio ou assoalho, o melhor é o rodízio 'W', cujas rodinhas são revestidas de silicone, e não riscam o piso", informa o especialista. "Produtos certificados dão maior segurança ao usuário na qualidade de materiais, durabilidade e ergonomia, mas isso não significa que não existam cadeiras boas de pequenos fabricantes; assim, apresentar um manual é essencial."

Só em casa

Segundo a gerente regional da Herman Miller do Brasil, Carla Barbosa, o que há sete anos era apenas artigo de luxo nas empresas, hoje tem feito parte da decoração domiciliar. "A busca por bons produtos, que sejam ergonômicos e ao mesmo tempo bonitos, porque objetos de design avançado, tem crescido muito; pessoas estão cada vez mais conscientes da importância do conforto na hora do trabalho, e trabalham cada vez mais em home offices", pondera.

A Herman Miller registra um aumento médio, ao ano, de 25% nas vendas de cadeiras top para o varejo. "Antes, somente empresas compravam nossos produtos para os escritórios; agora, temos um novo cliente, usuário residencial – muito mais exigente, que quer conhecer bem o produto, entender como funciona, saber por que é mais caro", diz. O modelo Aeron, no mercado há 16 anos, é objeto de cobiça de vários "presidentes", e custa em média R$ 3.500.

Outras marcas como Sedus, Haworth, Steelcase, ou Giroflex e Flexform são também indicadas por especialistas – e com preços, muitas vezes, bem mais acessíveis.

"O computador é uma necessidade, e pessoas passam, a cada dia, um maior número de horas sentadas; ter uma boa cadeira é medida preventiva, para não ter problemas de saúde no futuro". Para quem quer escolher o melhor modelo, Carla Barbosa indica um test drive: "é como comprar um carro: nada melhor do que saber usá-lo e testá-lo, para decidir qual é o ideal."

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