Casa e decoração

Repórter de New York Times visitas obras de Frank Lloyd Wright no interior dos EUA

Narayan Mahon/The New York Times
Jardim de Taliesin, antiga residência e estúdio do arquiteto Frank Lloyd Wright, também chamada de Taliesin, na região rurar de Spring Green, no Wisconsin, Estados Unidos imagem: Narayan Mahon/The New York Times

DEBORAH SOLOMON

Do New York Times

Quando contei para meus amigos que estava planejando férias no Wisconsin, recebi olhares de interrogação ou comentários engraçadinhos sobre as especialidades nada “sexys” do estado. Mencionavam as vacas, os campos de milho e queijo coalho. Porém, Wisconsin é também a terra de Frank Lloyd Wright, o lugar onde ele nasceu e foi criado e para onde sempre retornou. Viajar para lá é se maravilhar com o contraste entre a paisagem calma e a delirante inventividade de seu trabalho.

Diferentemente de livros e pinturas, os objetos criados por um arquiteto não são tão fáceis de serem encontrados. A maioria dos mais de 400 prédios de Wright são residências privativas espalhadas pelo país e fechadas à visitação pública. Mas o Wisconsin tem pelo menos três obras do arquiteto onde se é benvindo: Taliesin, que foi sua moradia e estúdio, localizada na área rural de Spring Green; Monona Terrace, um centro de convenções na agitada Madison; e o edifício da Johnson Was, em Racine. Quando nos decidimos a visitar essas obras, eu e minha família nos demos conta de que o único edifício de Wright no qual já havíamos estado era o Museu Guggenheim de Nova York, uma obra-prima, um devaneio arrogante cujas paredes curvas parecem desenhadas para empalidecer as pinturas.

Wright, que morreu em 1959 aos 91 anos de idade, apenas seis meses antes de o Guggenheim abrir, era uma figura elegante e soberba. Ele vestia uma capa negra e podia parecer indiferente quando os clientes reclamavam de goteiras nos telhados que ele desenhou.

Adultério

Suas próprias origens eram modestas. Descendente de imigrantes galeses, Wright nasceu em Richland Center. Depois de desistir da escola, mudou-se para Chicago e por fim estabeleceu-se em Oak Park, no Illinois, onde formou uma família de seis filhos e era assediado por vizinhos abastados que sonhavam em viver em uma de suas “Prairie houses” ou “casas de pradarias”, isto é, construções baixas, pensadas para se mesclarem à paisagem.

Tudo mudou em 1911, quando Wright se apaixonou por uma vizinha casada, Martha Borthwick Cheney, ou Mamah. Eles deixaram Chigaco e foram para um “esconderijo” construído pelo arquiteto nas remotas colinas do Wisconsin de sua infância. Esta é a casa conhecida como Taliesin, em Spring Green, a cerca de 65 km de Madison.

Movimentos de vanguarda em geral começam em grandes cidades. Ajuda ter uma densa população de jovens artistas competindo pela grandeza. Talvez seja por isso que pareça tão surpreendente se deparar com o modernismo de Wright na quietude do campo. Aqui, em meio a campos verde-esmeralda, está o Cubismo (evocado nos planos projetados de suas casas). Aqui há o Surrealismo (note seu hábito de tornar cantos comuns em um capricho, uma curva). Aqui há prédios cujas formas devem, um dia, ter parecido “aliens”, discos voadores pousados no terreno.

Taliesin começou sua existência como um bangalô de madeira e pedra implantado em uma colina gramada. Com o decorrer dos anos, tornou-se um complexo muitas vezes comparado a uma cidade italiana. Taliesin é, ao mesmo tempo, uma casa, um laboratório, um manifesto do estilo “Prairie” em arquitetura. A ideia-chave é a horizontalidade. Em uma época em que os americanos estavam enfeitiçados por arranha-céus cada vez mais altos, cujas silhuetas pareciam se afastar do chão para evitar a aspersa, Wright queria que seus edifícios parecessem brotar da terra.

Taliesin foi palco de assassinato

Taliesin também é uma casa assombrada pela tragédia. O affair de Wright com Mamah Cheney passou de um escândalo local para um nacional, incitando uma artilharia de condenação moral, de balconistas fofoqueiros em Spring Green a manchetes nos principais jornais. Em um dia de agosto de 1914, quando Wright estava fora, Mamah e seus dois filhos foram assassinados por um empregado, que os atacou com um machado.

A única maneira de visitar a casa é por visitas guiadas. Os Taliesin Tours, além de caros (uma visita de duas horas custa US$47,00), exige que se fique constantemente junto com o grupo, que embarca em um ônibus no “Centro de Visitantes”. Tudo fica um pouco sem graça quando, depois de deixar o quarto quase monástico de Wright, somos colocados de volta no ônibus, sem tempo de apreciar a colina verde que se expande para todas as direções. O passo acelerado vai contra o sábio dizer de Wright: “estude a natureza, ame a natureza, fique próximo da natureza. Ela nunca vai decepcioná-lo”.

Dias depois estava aproveitando o sol n área externa do centro de convenções em Madison. Wright frequentou o ensino médio e a faculdade aqui e, por fim, desenhou uma obra-prima para a cidade. O Monona Terrace Community and Convention Centre, apesar do nome desajeitado, é um lindo edifício, um semicírculo branco implantado às margens do lago Monona. O terraço na cobertura se projeta sobre a água e atua como uma enorme praça pública, completa com um café.

Suspensa entre a vista do capitólio de Wisconsin e a superfície azul do lago, o edifício oferece uma escolha entre o poder do estado e o escapismo da natureza.

Dificuldade de aprendizado

Enquanto observava a curva do guarda-corpo do terraço, que parece ser um exercício para a estonteante circularidade do Guggenheim, pensei suspeita de dificuldade de aprendizado que paira sobre Wright. De acordo com Ada Louise Huxtable e outros biógrafos do arquitetos, Wright teria sido um estudante entre fraco e mediano, que provavelmente nunca se graduou no ensino médio. Ele conseguiu de alguma forma entrar na Universidade do Wisconsin, onde não chegou a ficar por três meses.

Talvez a insistência na horizontalidade de seu trabalho esteja relacionada ao desejo de superar a indignidade de seus esforços acadêmicos: seus edifícios são “lidos” da esquerda para a direita, e não de cima para baixo. Se os estudos o subjugaram com persistente frustração, ele fez de suas limitações a força de sua arte, imprimindo a paisagem americana com formas que,  às vezes, parecem ecoar a fluidez de sentenças sobre o papel.

Uma visita ao Monona Terrace custa US$3,00 e pode ser feita diariamente, às 13hs. A história do edifício é uma fascinante narrativa de vai-e-vem em planejamento urbano. Wright propôs o projeto em 1938. Mas os habitantes de Madison estavam amargamente divididos quanto a investimento o dinheiro do contribuinte no trabalho de um adúltero infame, o que fez com que o prédio só ficasse pronto em 1997. Por esse motivo, alguns acadêmicos o consideram “inspirado em Wright”, e não um exemplar 100% wrightiano.

Surpresa art déco

A última parada no nosso tour foi Racine, uma cidade industrial que já viu dias melhores. Os guias tendem a fazê-lo desistir da visita, talvez porque a cidade sofra de um alto índice de desemprego. Há inúmeras vitrines vazias. Contudo, Racine guarda uma incrível atração. O edifício administrativo da Johnson Wax foi erguido em1939 e continua sendo usado como sede da empresa que produz pisos desde o século 19. Às sextas-feiras são organizados três tours, e nada nas fachadas do prédio de tijolos vermelhos pode prepara-lo para a excentricidade da “grande sala de trabalho”, uma área de pouco mais de 2 mil m² sem janelas, com pé-direito duplo e decorada com dúzias de escrivaninhas Art Déco. Wright desenhou o mobiliário também, e as mesas de trabalho são estilosas, com tampo de madeira e estrutura de metal com pintura vermelha.

O conjunto da Johnson Wax inclui uma biblioteca aberta ao público, uma sala onde biografias de Wright, tomos acadêmicos e fotos históricas em preto e branco dividem espaço com displays de produtos de limpeza.

Tradutor: Simone Capozzi

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