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A casa de pedras, o celeiro e o pomar: conheça a história de uma transformação

Randy Harris/The New York Times
Casa de fazenda da década de 1770, em Accord, cidade próxima a Nova York, reformada por Fabio Chizzola e Laura Ferrara para ser usada como casa de campo imagem: Randy Harris/The New York Times

RICHARD S. CHANG

New York Times

Accord, NY – Fabio Chizzola, fotógrafo de moda, tinha quatro anos quando sua família começou a deixar a residência em Roma para passar os verões nas montanhas da Itália. Quando ele tinha 12 anos, seu pai começou a cultivar uma pequena área, menos de meio acre, onde ele plantou tomates, vagens, cebolas e batatas para a família.

Mas o jovem Chizzola não se interessou. “Eu ia andar de bicicleta, jogar futebol, correr atrás das meninas”, conta.
Foi só muito mais tarde (estranhamente, depois de ter se mudado para Nova York) que Chizzola começou a desenvolver um entusiasmo pela ideia de ser fazendeiro.

Em 2002, ele e a mulher, Laura Ferrara, estilista de moda e beleza, estavam procurando um lugar para passar os finais de semana nas montanhas Catskill (a noroeste da cidade de Nova York). Quase por acaso, eles descobriram o que se tornou a nova paixão da família: uma plantação de maçãs de 32 acres.

Foi a antiga casa de fazenda construída com pedras nos anos de 1770, típica de imigrantes holandeses, que atraiu o casal. O pé-direito era baixo, com as vigas de madeira trabalhadas à mão à vista, e as janelas da cozinha estavam voltadas para um grand jardim cercado por um muro baixo de pedras. “A casa era mesmo muito aconchegante, com jeito de chalé”, diz Laura Ferrara, 44, também nascida na Itália. E, como Chizzola descreve, “seu cheiro lembrava a Itália”.

Assim o casal assumiu a aura da casa e a comprou por US$ 385.000, em 2002. Logo em seguida, fizeram algumas pequenas reformas que demandaram um investimento total de US$ 5.000 o qual, segundo Ferrara, “pareceria um dinheirão na época”.

O casal tinha intenção de alugar a terra para fazendeiros locais. Mas o proprietário anterior negligenciou o pomar por anos, e a vegetação cresceu fora de controle. As árvores estavam grandes demais para produzir bons frutos e seus galhos demasiadamente longos estavam arqueados na direção do solo.

Vegetação fora de controle

Com a orientação de um fazendeiro vizinho, Chizzola, embora relutante, assumiu o tarefa de podar as árvores e limpar o jardim ele mesmo. O trabalho se mostrou estafante. Ele e Ferrara terminaram muitos finais de semana do mesmo jeito: voltando para Nova York no domingo à noite, com o pequeno Matteo dormindo no banco de trás do carro, enquanto eles discutiam a possibilidade de vender a propriedade. Mas o trabalho de pomar e limpeza continuou, e gradualmente o pomar começou a ficar melhor.

“Então nós podamos um pouco mais,” diz Chizzola. Em  2007, 75% do pomar estava podado, e 400 das 700 árvores mortas haviam sido removidas. Em 2008, eles conseguiram a primeira colheita de maçãs – “uma colheita de respeito”, lembra Chizzola.

Uns poucos anos antes, em um dos galpões da propriedade, eles encontraram um envelope com o endereço da casa e o nome Westwind Orchard (Pomar Westwind, em tradução literal). Então eles decidiram ressuscitar o nome e criaram placas de sinalização de madeira antiga, afixando-as nas árvores. No outono, abriram o pomar para compradores no sistema de U-pick, ou seja, o próprio cliente colhe as frutas que deseja.

A produção orgânica do pomar foi certificada logo no final da estação. Foram vendidas abóboras, sucos, geleias, mel e a maior parte das maçãs. (“Eu preciso de algumas maçãs nas árvores”, diz Chizzola. “Vamos ter uma reportagem fotográfica aqui em algumas semanas.”)
Chizzola explica que ele e Ferrara planejam uma reforma maior para a casa, “quando concordarmos sobre o que fazer”.

E o celeiro virou um loft

Em 2009 eles renovaram um dos celeiros, que foi convertido em um tipo de loft com portas de correr enormes nos dois lados da construção. O custo da obra foi de US$ 125.000. Chizzola delicadamente caracteriza o processo como “muitas pequenas brigas”.

O revestimento (“siding”) original do celeiro foi substituído por “mushroom wood” (uma mistura de cipreste e tsuga -árvore do tipo conífera- usada na produção de cogumelos; durante o processo de crescimento, os cogumelos liberam uma enzima que confere à madeira uma tonalidade de mel escuro).

Por dentro, o celeiro tem um aroma fresco e amadeirado, como uma sauna. Segundo Chizzola, como a casa de pedras é tão compacta, ele e Ferrara queriam que este fosse um espaço aberto onde a família pudesse relaxar.

Há um pequeno loft, um banheiro e uma cozinha com um balcão de concreto moldado in loco, além de uma mesa excepcionalmente longa, feita com uma placa de madeira e base encontrada por um amigo na Suíça.

Deixando o celeiro, Chizzola se dirige a um grande galpão a alguns metros. Ao abrir uma das portas, ele conta da primeira que abriu o galpão. Havia buracos nas paredes e o telhados estava podre, o que permitia que chovesse em uns livros antigos que estava guardados no local.

De um fotógrafo para outro

Mas não foi só isso o que ele encontrou. Havia também uma grande quantidade de equipamento fotográfico dos anos de 1920 e 1930 intacto: um tripé, 20 ou 30 filmes e tanques de revelação de vários tamanhos. Algumas coisas estavam embrulhadas em jornal –edições antigas do “The Philadelphia Inquirer”, outras em papel kraft, inclusive várias caixas de negativos e papel de contato. “Tive arrepios”, diz Chizzola.

Muitas das fotos eram de modelos nus em poses artísticas clássicas. Estava claro que quem quer que seja que as fotografou era mais do que um amador.

Chizzola investigou os proprietários anteriores da casa e descobriu que o equipamento provavelmente pertencia a Chester Kohn, que morava na Philadelphia e tocava a fazenda no tempo livre desde a década de 1930. Kohn, conforme Chizzola soube, foi dono da fazenda até os anos de 1970, quando morreu.

Chizzola mantém o antigo equipamento no porão da casa de pedra. Muitas das fotos estão expostas em seu estúdio em Manhattan. Depois de pesquisar a vida e o trabalho de Kohn como fotógrafo, Chizzola pensa em combinar a produção de ambos em uma mostra ou um livro. “Algo como passado e presente”, ele diz, “duas histórias: Kohn no começo do século 20 e eu hoje.”

“Estou ligado à terra”, Chizzola acrescenta. “E mais ainda porque eu sei que a pessoa que cultivou nesta terra antem de mim era fotógrafo também.”

Tradutor: Simone Capozzi

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