Casa e decoração

Mesmo fora da meta de preços, computador popular leva educação a jovens carentes

Fuseproject/Divulgação
A ONG de Nicholas Negroponte tentará vender o tablet XO-3 no mundo por menos de US$ 100 imagem: Fuseproject/Divulgação

Alice Rawsthorn

Londres – Há alguns anos, se você entrasse em algum blog de design, folheasse uma revista sobre o assunto ou se deparasse com uma lista dos vencedores de prêmios na área, um nome sempre surgia: “One Laptop per Child” - OLPC, [Um Laptop por Criança].

Já faz cerca de seis anos que o tecnólogo americano Nicholas Negroponte anunciou um plano extraordinariamente audacioso: criar um laptop atraente e barato que, prometeu, ajudaria a educar milhões de crianças pobres no mundo. Depois de dominar o debate sobre este design pelos três ou quatro anos seguintes, a OLPC - organização sem fins lucrativos que o tecnólogo fundou - tem estado consideravelmente calada. O que aconteceu?

Para resumir uma longuíssima e complicada história, desde que o frenesi inicial decantou, a OLPC tem se concentrado na logística do envio de um total de 2,3 milhões laptops para 45 países. A instituição também vem trabalhando em formas de melhorar a performance e a manutenção dessas máquinas, além de desenvolver um novo tablet, o XO-3, que deve ser apresentado em breve. 

Impressionado? Quem não ficaria? Só que Negroponte esperava que a OLPC conseguisse muito mais. Em janeiro de 2006, ele previu que distribuiria pelo menos 7 milhões de laptops nos anos seguintes, ao custo de não mais que US$ 100, a unidade. Até o momento, a OLPC entregou menos de um terço desse montante e, apesar de todos os esforços, o preço do modelo atual varia entre US$ 209 e US$ 229.

Existem explicações plausíveis para esse déficit nos negócios. Alguns dos governos que inicialmente se comprometeram a comprar os laptops da OLPC perderam o poder ou voltaram atrás em suas promessas. E o preço dos computadores foi inflacionado pela fraqueza do dólar e do elevado custo dos componentes. A OLPC está presa em um ciclo vicioso, no qual precisa aumentar significativamente os contratos para reduzir o preço e produzir com mais economia, mas é improvável que consiga fazer isso para uma máquina custando mais de US$ 200. 

Mas a OLPC foi envolvida por uma nuvem de dúvidas desde o início. Economistas acusam-na de subestimar a complexidade de se operar em países em desenvolvimento. Educadores, por sua vez, questionaram se não seria preferível investir em livros ou em salários melhores para os professores em vez de comprar laptops para os estudantes. Ambientalistas alertaram que milhões de computados quebrados poderiam acabar entulhando aterros de lixo pelas próximas décadas. E a indústria da tecnologia reclamou que, por não ter fins lucrativos, a OLPC iria distorcer a competição no mercado.   

Desafios

A OLPC pode ter falhado ao tentar alcançar seus objetivos, mas seria equivocado descartar o esforço e considerar tal atitude um fracasso.

Negroponte disse que ele estava sendo “reconhecidamente hiperbólico” ao prever números de vendas tão elevados, na esperança de atrair a atenção dos governos para os quais ele pretendia vender os laptops. Infelizmente, suas declarações também sobrecarregaram a OLPC com expectativas altas e irreais, condenando-a, assim, ao fracasso dentro de seus próprios termos ou quase isso.

Distribuir 2,3 milhões de computadores não é uma tarefa fácil. E a maioria deles agora pertence a crianças que não teriam acesso a essa tecnologia de outro modo. E há indicações que eles estão ajudando os estudantes que os usam. Por exemplo, os governos do Uruguai e do Peru compraram 600 mil e 900 mil computadores da OLPC, respectivamente, e organizaram seus currículos escolares entorno deles.

As máquinas da OLPC também provaram ser eficientes quando usadas em menor escala. “Nós as distribuímos em algumas escolas, com ótimos resultados”, disse Cameron Sinclair, co-fundadora do Architecture for Humanity, uma rede global de voluntários especializada em desenvolvimento e em projetos para atenuar os problemas provenientes de desastres, embora tenha acrescentado que outras escolas preferiram usar os PCs tradicionais.    

Até agora, não há provas que a OLPC tenha atrapalhado outros projetos de design humanitário. Pelo contrário, toda a área prosperou desde que a organização surgiu e todos podem ter se beneficiado da curiosidade inicial e da cobertura da mídia sobre o projeto de Nicholas Negroponte. Do mesmo modo, os elogios ao desenho do gracioso laptop da OLPC ajudaram a indústria de computadores a desenvolver um mercado novo e lucrativo para tablets e outros computadores menores.

Dito isso, é fato que a organização encontrou dificuldades para consolidar seu projeto e seus designers tiveram que modificar o laptop original desde que ele entrou em uso diário nas escolas. O plástico brilhante do "case" foi substituído por um material mais resistente e emborrachado. O teclado foi reforçado com uma chapa de aço e suas luzes foram removidas para reduzir o consumo de energia. A OLPC teve que acrescentar pequenos calços às máquinas usadas em países como a Nigéria, onde as carteiras escolares costumam ser inclinadas. A instituição também treinou técnicos locais para consertar os laptops.

Novo tablet

As lições aprendidas influenciaram o desenvolvimento do novo tablet XO-3. “O projeto foi simplificado e agora é mais fácil manusear o aparelho”, disse Yves Béhar, fundador do Fuseproject, o grupo de design baseado na cidade de San Francisco (EUA) responsável pelo hardware usado pela OLPC. “Ainda precisamos fazer com que a tela não perca tanta luminosidade ao ser exposta à luz solar, mas a funcionalidade do aparelho melhorou bastante”. A ideia é que o XO-3 custe menos de US$ 100, ou pelo menos é o que espera a organização.

Mas mesmo que a OLPC consiga atingir tal preço, é pouco provável que o XO-3 seja o tablet mais barato do mercado. Estudantes no Indian Institute of Technology da cidade de Jodhpur, na Índia, recentemente receberam a primeira remessa de tablets da marca Aakash, com menos atrativos que as máquinas da OLPC, mas consideravelmente mais em conta. 

Cada Aakash foi vendido para o governo da Índia por 2.276 rupias (algo como US$ 44) pela empresa indiana DataWind. Uma versão comercial, o UbiSlate, será colocada no mercado no mês que vem por três mil rupias. A DataWind planeja desenvolver projetos similares no Brasil, Egito, Panamá, Tailândia e Turquia, e, espera-se, deixar seus computadores ainda mais baratos.

Tradutor: Erika Brandão

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