Casa e decoração

Conjunto de casas pequenas se destaca em área de baixa renda no Texas

Ryann Ford/The New York Times
Casa do conjunto residencial SOL, em Austin, no Texas, EUA, projetadas para serem de baixo impacto no meio ambiente e eficientes do ponto de vista energético. Com entre 95 m² e 170 m², as casas fogem do padrão das residências norte-americanas imagem: Ryann Ford/The New York Times

Karrie Jacobs

Do New York Times, no Texas

Austin, TexasMinnie J. Chapa, 75, a feliz locatária de uma casa seminova de três quartos e estilo minimalista, conta que seus antigos vizinhos sempre perguntam “Você mora em uma daquelas caixas de fósforos?”

Descrever o condomínio SOL Austin, empreendimento onde Chapa reside, como “caixas de fósforos” é ao mesmo tempo preciso e injusto.

De fato, as casas são pequenas para os padrões norte-americanos (medem entre 95 m² e 170 m²), e a proposta arquitetônica é decididamente retilínea. Mas a aparência de caixote é minimizada pela inclinação da cobertura, em forma de asa de borboleta, em um ângulo calculado para receber painéis fotovoltaicos e canalizar a água da chuva para armazenagem.

SOL, que significa Solutions Oriented Living, ou, em tradução aproximada, Soluções Orientadas para a Vida, é uma tentativa ambiciosa de mudar as convenções americanas. Foi desenvolvido em parceria por Chris Krager, 43, arquiteto do escritório KRDB, e Russel M. Becker, 47, engenheiro civil e proprietário da Beck-Reit & Sons, uma empresa de construção.

Autossuficiente

A proposta é que a comunidade SOL Austin não seja apenas sustentável em termos de design e materiais, mas também “net zero”, ou seja, um conjunto residencial que produz toda a energia que consume, com casas supereficientes dotadas de painéis solares e poços geotérmicos. Além disso, este pequeno empreendimento faz sua parte ao absorver problemas econômicos e de injustiça social.

Se até agora o empreendimento teve um sucesso apenas parcial em seus objetivos, continua sendo um experimento arquitetônico interessante.

O SOL fica na região leste de Austin, capital do estado do Texas, área destinada aos negros por um planto diretor de 1928. Em 1962, a construção de uma rodovia isolou ainda mais a população ali instalada.

Ao longo da última década, entretanto, aqueles que tiveram de sair de áreas mais valorizadas migraram para a região leste da cidade. O censo de 2010 mostrou um aumento de 40% na população branca da área, enquanto o número de minorias decresceu. Nesse mesmo período, o aumento dos impostos sobre propriedade forçou muitos moradores antigos a abandonarem o bairro.

Bolha imobiliária

Krager, formado em administração pela Universidade Estadual Michigan, trabalhou em uma corretora de hipotecas antes de se tornar arquiteto e se especializou em comprar lotes de terreno para desenvolver caprichadas casas modernas, com preço atraente para jovens criativos que, normalmente, não poderiam pagar um arquiteto. Krager atuou bastante na região leste de Austin –o que fez dele parte do problema.

“Há dez anos, pagamos US$ 15.000 pelos primeiros lotes nessa área de Austin”, diz Krager, “na mesma rua, hoje, os lotes custam US$ 150.000.”

Assim, Krager e o engenheiro Becker passaram a procurar terrenos ainda mais a leste da cidade, onde encontraram a área de uma antiga fazenda, e começaram a desenvolver o projeto do empreendimento de 40 casas.

Todas as casas no SOL têm o mesmo (alto) nível de conservação de energia: todas usam 55% menos energia do que uma casa típica, de acordo com as regras do departamento de energia norte-americano. E todas foram construídas com materiais tidos como “verdes”, como tintas com baixa emissão de compostos voláteis, que poluem o ar, e armários que não emitam formaldeídos presentes em alguns compensados e laminados decorativos.

Conservação de energia

Devido à crise financeira, muitas das ideias da dupla de empreendedores não puderam ser levadas adiante. A primeira vítima foram os painéis fotovoltaicos, que custariam US$ 24.000 para abastecer uma casa de energia integralmente.

Para o padrão de mercado das casas -11 das quais foram vendidas e 13 ainda serão construídas- a opção foi a energia solar. Os proprietários instalaram os painéis ao longo do tempo, conforme a companhia de energia local e o governo federal ofereceram incentivos na forma de crédito e incentivos fiscais. Até agora, apenas quatro casas têm os painéis solares e uma delas também conta com um poço geotérmico.

Embora provavelmente nunca se torne autossustentável, muito da visão idealista do empreendimento permanece intacta. Por exemplo, quase metade das casas está reservada para locatários e compradores de baixa renda.

Mas na aparência, pelo menos, o SOL lembra outros empreendimentos típicos dos subúrbios norte-americanos. Há inclusive os culs-de-sac, conforme exigência dos bombeiros.

Outro ritmo

Mas o ritmo do lugar é diferente de muitas maneiras. Os lotes são menores, e cada casa foi posicionada de modo a maximizar o uso do que Krager chama de “espaço externo de qualidade”. Há construções em forma de U e de H que contornam pátios gramados onde os moradores colocam suas mesas de piquenique e redes.

O conjunto também é movimentado e colorido, com uma leveza que proporciona a aparência de casa de brinquedo. As casas realmente parecem pequenas caixas de fósforos, mas por dentro são espaçosas e bem iluminadas. Há uma cozinha integrada à sala, um hall com uma escrivaninha, generosos closets e armários bem disfarçados.

Mas a característica que mais distingue as casas é o formato e a localização de suas janelas. Dispostas em fita, no alto das paredes, as aberturas permitem a entrada de farta luz natural durante o dia, enquanto minimizam o ganho de calor.

Os proprietários das casas, todas vendidas na faixa abaixo dos US$ 200.000, também diferenciam a região. Eles tendem a ter entre 20 e 30 anos, e fazer parte da cultura criativa pela qual Austin é conhecida.

Tradutor: Simone Capozzi

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