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Construída em balanço, casa sobre fábrica desafia a gravidade e proporciona vista privilegiada de Pittsburgh

Tony Cenicola/The New York Times
Casa sobre fábrica de vidro foi construída em balanço, assim parte de sua estrutura desafia a gravidade imagem: Tony Cenicola/The New York Times

Joyce Wadler

Do The New York Times, em Pittsburg, Estados Unidos

Pittsburgh - Quando Bob Zielinski, ex-fuzileiro naval, dono de uma fábrica de vidros, e sua esposa, Kim, mostraram para os empreiteiros os planos para a casa que eles queriam construir –uma estrutura de 16 m de comprimento, feita de vidro e aço construída em balanço (ou seja, com apoio em apenas uma das extremidades) sobre a fábrica– os empreiteiros disseram que não conseguiriam fazer. Seria preciso contratar construtores de pontes e de estradas para criar um sistema que suportasse algo como o pedido, disseram.  

Bem, foi exatamente o que os Zielinskis fizeram.

Eles levaram três anos para construir a casa de vidro Emerald Art. Batizada com o nome da fábrica, a construção hoje paira sobre a indústria e tem vista para o rio que corta a cidade de Pittsburgh, estado da Pensilvânia, costa leste dos Estados Unidos.

Eric Fisher, o arquiteto do casal, conta com orgulho que a extensão do balanço é três vezes o comprimento da casa Fallingwater, de Frank Lloyd Wright. E diz que a casa evoca a tradição do proprietário que mora sobre a loja. Os Zielinskis, porém, dão outros motivos para o design escolhido. Eles criaram dois filhos em uma casa tradicional no subúrbio e procuravam algo diferente: queriam estar perto de seu negócio e achavam, também, que ter um pouco de privacidade seria bom.

“Não quero morar bem em cima meus vizinhos, não quero ouvi-los brigando, quero paz e tranquilidade”, diz Bob Zielinski, dono da postura “eu-sei-o-que-quero-e-não-vou-sossegar-enquanto-não-conseguir”, própria de quem teve que conquistar seu espaço sozinho. “Comecei a procurar um lugar para construir minha casa e não achei nada de que gostasse. Você paga 200 mil, 300 mil dólares para ficar espremido entre um vizinho e outro”, completa.

No topo e incólume

Ao atravessar o rio de carro e cheguar direto na porta da fábrica, não é possível notar que a casa está ali. O edifício da fábrica tem dois andares e a residência foi construída com bastante recuo. Porém, meio quarteirão rua abaixo, a construção vai fazer  você pare no meio do caminho. 

A casa surge sobre a rua como uma grande alavanca. Não teria como ela caber ali, mas cabe. Agora, tente encontrar a porta e você vai se deparar com um obstáculo: não há porta, pelo menos não uma facilmente acessível. A entrada fica escondida atrás de uma alta cerca de madeira e de um portão. “Gosto da ideia de as pessoas não saberem por onde entrar”, diz Bob, abrindo o portão e o caminho para o repórter em seu Jeep.

A história da família

Zielinski, 53, cresceu em Pittsburgh e é o mais velho de seis irmãos. Ele virou fuzileiro naval aos 17 anos e depois tentou exercer várias profissões, de carpinteiro a operário, em uma fábrica de queijo. Nada o interessava, até que começou a namorar uma garota que fazia consertos em vitrais. Zielinski pediu que ela lhe ensinasse a técnica, e a partir dali, “me tornei viciado naquilo”, conta. O industrial começou sua empresa em meados dos anos 1980 e, hoje, possui 16 empregados e clientes como a Armani Exchange e a joalheria De Beers.

Por sua vez, Kim Zielinski, 54, cresceu em Michigan e conta que a escola não a interessava muito e que o que desejava mesmo era trabalhar. Exerceu várias atividades, foi de faxineira a garçonete. Kim e Bob se conheceram depois da mudança dela para Pittsburgh; se casaram em 1985 e criaram os filhos do primeiro casamento dela, Melissa, hoje com 33, e Cass, com 32.

Eles queriam passar o capítulo seguinte de suas vidas próximos ao trabalho, mas esperavam um rompimento radical com modelo das casas tradicionais onde haviam vivido. O terreno íngreme que possuíam atrás da fábrica não era muito grande, então construir uma casa em cima do prédio fabril fazia todo sentido. Para buscar inspiração, eles saíam de carro por estradas que beiravam os rios e fotografavam antigas estruturas de aço. A que eles mais gostaram foi uma construção metálica sobre pilares de concreto que se projetava sobre o rio. Mas quando eles mostraram as fotos para os arquitetos, as ideias que surgiam, conta Kim, eram péssimas.

“Brainstorm” e construção

“Um arquiteto simplesmente cortou um pedaço do telhado da nossa fábrica e colocou uma casa tradicional em cima”, Kim conta. “Outro criou uma casa que tinha uma área de vidro por onde poderíamos ver a fábrica lá embaixo. Eu disse: ‘Por que vou querer olhar para a minha fábrica? Acabei de passar o dia inteiro ali’”.

Fisher, que havia aberto seu próprio escritório -chamado Fisher Architecture- alguns anos antes, estudou a foto e então sugeriu algo diferente: construir a espinha dorsal da casa no terreno atrás da fábrica e criar uma área suspensa e livre, apoiada no telhado do prédio fabril. Em um dos seus primeiros encontros, Kim recorda, ele fez um esboço em um pedaço de papel toalha. “Eu estava muito calma, mas parecia que tinha uma festa acontecendo dentro de mim. Saí da fábrica e falei para o Bob: ‘Encontramos nosso arquiteto’.”

Bob Zielinski se recusou a lhe entregar uma verba fechada. “Eu falei: ‘construa. Quando acabar o dinheiro, a gente para e vai ganhar um pouco mais’”. Felizmente o casal não precisou fazer isso. Assumindo o papel de empreiteiro, Bob diminuiu os custos chegando a US$ 244 por m² (ou cerca de R$ 445). Os desafios da construção incluíram escavar dois buracos de 10 m de comprimento por 2 m de largura em um leito de rocha e depois preenchê-los com concreto e aço para suportar as áreas suspensas da casa de 640 m². 

Cômodo por cômodo

A entrada é uma garagem com pé direito alto e sinalização divertida, do estilo anos da usada nos 1950, e que indica um abrigo. No segundo piso ficam as salas de TV e de ginástica. O terceiro andar é um grande espaço suspenso com uma cozinha aberta e, alguns passos acima, estão as salas de estar e jantar com vistas panorâmicas. Dali, uma segunda escada leva ao quarto do casal.

Pergunte a eles quais seus ponto favoritos na casa e as respostas vão variar. Bob adora sentar-se no fundo da sala de estar à noite, de onde pode apreciar a vista enquanto a estrutura de ferro não deixa que os vizinhos enxerguem o que há lá dentro. Kim gosta de ver as sombras projetadas na parede de vidro no quarto.

“Sempre tem alguma coisa se movendo”, ela diz. “Você enxerga coisas que não havia percebido antes, em que não havia prestado atenção, até mesmo os caminhos que as nuvens fazem. Quase parece que ela [a casa] está respirando”, ela diz. “É maravilhoso.”  

Tradutor: Erika Brandão e Daiana Dalfito (edição)

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