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Nos EUA, vizinhos se unem para salvar casas do abandono e da demolição

Sally Ryan/The New York Times
Uma das casas antigas e abandonadas da vizinhança de Chapin Park na cidade de South Bend, Indiana imagem: Sally Ryan/The New York Times

Susan Saulny

Do The New York Times, em Indiana

South Bend, Indiana - Quando a majestosa Queen Anne, na Avenida Portage, perdeu seus últimos ocupantes há alguns anos, levada à hipoteca e ao abandono, esta pérola com um século de existência traçou o mesmo destino que centenas de outras casas vazias daqui: o colapso ou a demolição. Em ambos os casos, o que fora uma obra-prima da marcenaria estava fadada a se tornar simplesmente outra área esquecida no cinturão decadente.  

Desta vez, entretanto, um grupo de pessoas resolveu que não podia suportar assistir a mais esta lenta dança da morte arquitetônica. São os vizinhos que se uniram contra todas as probabilidades para salvar a casa na esperança de conservar sua comunidade. 

Um sargento aposentado do Exército, dois professores, um revisor de jornal, um pintor e um decorador de interiores, entre vários outros, se reuniram para uma compra coletiva da casa com 280m², em um leilão, por US$ 9.500 (pouco mais de R$ 18 mil). Então puseram as mãos à obra.  

“É uma operação que exige nosso próprio esforço, dividindo o suor”, disse David Hurley, um vizinho cujas mãos estavam cobertas com terra por ter mexido no jardim. “O importante é que a casa fique bonita, essa é a questão.”

Reconstrução total, mas sem transmissão na TV

Em outra época ou lugar, a cena recente poderia ter sido parte de um episódio de “Flip This House” [programa da TV americana de reformas de casas]. Mas aqui não é Miami. Ou San Francisco. Aqui é South Bend, pós-colapso industrial, pós-recessão. A cidade sofreu a recente quebra no mercado imobiliário sem que ninguém tivesse aproveitado um “boom”. A renda familiar média é de US$ 34.700 e seu nível de pobreza está acima da média nacional, em 24%, segundo o censo de 2010.

Houve uma época, entretanto, quando Henry Studebaker construiu sua fábrica de carros e carroças aqui ou quando a Singer Sewing Co. era baseada na cidade,  que casas fabulosas nasciam das grandes riquezas. Mansões no estilo Tudor. Casas coloniais holandesas. Solares italianos. Bangalôs artesanais.  

Hoje em dia, os vizinhos sabem que terão sorte se conseguirem vender a casa da Avenida Portage, mesmo sem obter grandes lucros.

“O objetivo é não ter outra casa incrível demolida ou entregue nas mãos de um especulador de favelas”, disse Joan Downs-Krostenko, um professor de história na Univeridade de Indiana e presidente do grupo de vizinhos, o Chapin Park Inc.. “A qualidade de vida, o valor das propriedades e segurança são diretamente afetadas pelas condições da casa do vizinho. Então estamos aqui para cuidar da casa do nosso vizinho”, completa.

Com o suor escorrendo pela testa, Beth Kern - que estaria normalmente lecionando contabilidade fiscal na Universidade - estava esparramada no chão de pinho, usando suas férias para pintar a parede embaixo da janela do foyer.

“É um trabalho de amor – e um investimento”, ela diz.

  • Sally Ryan/The New York Times

    Detalhe de uma porta original de uma das casas antigas que vêm sendo restauradas nos EUA

Arquiteturas “sem dono”, preços mínimos

Moradores de vizinhanças que deram um jeito na região noroeste e no lado oeste da cidade – com verdadeiros tesouros sem dono da arquitetura nacional – descrevem como nada menos que “um movimento”, o que está acontecendo para ajudar a resolver o problema da propriedade abandonada. Quase todo mundo conhece alguém que comprou uma casa deteriorada na sua rua, tendo o dever cívico como parte do cálculo financeiro.   

“Lidamos com este problema há muito tempo”, conta o prefeito Pete Buttigieg. “Mas, certamente,” ele acrescenta, “acredito que houve um aumento na presteza das pessoas, que querem fazer parte da solução.” 

Não muito longe do projeto Portage, Kathy e John Oxian davam uma olhada nas três casas vazias que compraram em um recente leilão – uma por meros US$ 750 – para evitar a perspectiva de demolição do quarteirão em que vivem na Avenida Sancome.  Por sua vez, Connie e Tom Tooley limpavam um terreno que compraram da cidade por US$ 25. A esperança deles é criar um pequeno parque ao lado do centro.   

Stephen Luecke, ex-prefeito, comprou uma propriedade hipotecada na sua rua, duas casas abaixo de sua própria residência - com 100 anos na Avenida Leland - a arrumou e a alugou.

“Um dos desafios aqui é que as propriedades são tão abundantes e em conta que fica difícil comprar uma casa, reformá-la e conseguir de volta o que foi investido”, Luecke disse. “Mas temos um grupo de pessoas que ama essas moradias antigas.”

Downs-Krostenko acha que o fenômeno vai além: “não vivemos em um campo de golfe com garagens para três carros. A janela da sua cozinha dá para a janela do seu vizinho, há 3 m de distância. A antiga topografia ajuda a cultivar uma proximidade que está completamente em falta nas construções modernas.”

  • Sally Ryan/The New York Times

    Doug Meyer pinta o foyer de uma das casas restauradas pelo grupo de vizinhos de South Bend

O professor também comprou duas outras casas em ruínas – uma ao lado de onde ela mora: “Passei muito tempo olhando pela minha janela e pensando ‘um dia vou deixar essa casa mais bonita’”, conta.

Casas condenadas?

Os vizinhos sabem que estão enfrentando uma batalha dificílima: não há como salvar todas as casas. Mas, pelo menos por enquanto, esperam usar todo dinheiro que sobrar da potencial venda da casa da Avenida Portage para financiar os reparos de outra construção deteriorada. Assim, o projeto vai se pagando.

(E qual o valor com que eles sonham receber pela casa 612 da Av. Portage? US$ 85 mil.)

Em anos recentes, cidades ao redor dos EUA vêm aumentando os esforços para manter - ou demolir - propriedades em ruínas e à beira de uma crise de execução de hipotecas. Programas federais criados para ajudar a estabilizar bairros são cada vez mais comuns – realmente, vários estão acontecendo só em South Bend. Mas o que torna interessante os métodos na cidade é perceber até onde pessoas comuns, com recursos medianos, estão usando as próprias mãos e economias para fazer parte da solução desse problema complexo.  

Os Oxian, donos de uma empresa de limpeza de móveis e tapetes, mantêm a grama sempre aparada e a eletricidade ligada em suas três propriedades. Eles colocam plantas nas janelas para não passar a impressão de que as construções estão vazias. Também, acendem algumas poucas luzes à noite.

“Não tem sido um projeto barato”, conta Kathy Oxian, 47 anos. “Mas quanto mais você tiver investido em sua vizinhança, mais vai querer salvar o que sobrou dela. Se não fizer nenhum esforço, pode desistir e se mudar e eu não estou pronta para isso.” Ela acrescenta: “a solução não é demolir todas as casas.”

Em um passeio a pé pela Avenida Sancome, Kathy entrou em uma das casas que o casal comprou, um prédio robusto com cornijas e pé direito de 3 m de altura. A cidade queria demoli-la em 2010 por violações do código de conduta do município e escassez de ocupantes. Oxian, a vizinha guardiã e sempre atenta, enxergou de outra forma. “Nós nos reunimos com a prefeitura e dissemos que queríamos salvá-la. Que ela tinha uma boa estrutura, e pedimos para que, por favor, nos deixassem tentar.”

“Você vê coisas desse tipo”, Kathy diz, apontando para um pedaço de gesso faltante e um buraco na parede. “Isto é o que chamamos de perfumaria. A casa é sólida. Por que alguém vai querer derrubá-la?”

Com uma oferta de apenas US$ 750 e a promessa de melhorias, os Oxian salvaram a casa, que agora estão lentamente reformando com a ajuda de amigos e da família. Eles esperam poder alugá-la.

John Oxian, que já foi professor e hoje é ativista no movimento preservacionista local, afirma: “se você chega em um bairro e vê um terreno vazio aqui, outro ali, pensa ‘tem alguma coisa errada com este lugar. Não deve ser uma boa região.’ Não queremos passar esta mensagem. E acrescenta: “Aqui ainda é um lugar agradável.”

Tradutor: Erika Brandão e Daiana Dalfito (edição)

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