Casa e decoração

Nos EUA, sociedade se divide entre a demolição e a preservação de prédios modernos "feios"

Fred R. Conrad/The New York Times
Em estilo brutalista, o prédio corre o risco de ser demolido no condado de Goshen, estado de Nova York imagem: Fred R. Conrad/The New York Times

Robert Pogrebin

Do The News York Times, em Goshen, Nova York

Goshen, Nova York - À medida em que as construções chegam à meia idade, muitas das rígidas estruturas que já representaram a vanguarda arquitetônica começam a dar sinais de cansaço, iniciando debates ao redor dos EUA entre preservacionistas - que as enxergam como marcos históricos - e as muitas pessoas que só as veem como obras feias.

O conflito surgiu recentemente nesta singular vila (Goshen), 95 quilômetros ao norte da cidade de Nova York – com sua histórica pista de corridas de cavalos, uma rua principal pitoresca com um “revival” grego e casas em estilo vitoriano –, onde o prédio do governo do condado, projetado pelo celebrado arquiteto modernista Paul Rudolph, sempre esteve um tanto deslocado.

“Só não acho que ele combina com a personalidade do condado e da vila de Goshen”, disse Leigh Benton, um legislador do município de Orange que cresceu na região. “Sempre achei que ele era um prédio grande e feio.”

Finalizado em 1967, o prédio vem desde então sendo incomodado por vazamentos no teto, um sistema de ventilação precário e, mais recentemente, pelo mofo. Por fim, a construção foi fechada no ano passado, depois de ter sido avariada por tempestades, inclusive a tropicalIrene.

Edward A. Diana, executivo da comarca de Orange, quer demolir o prédio, uma ideia que agrada muitos moradores, mas deixa em alerta os preservacionistas, não só locais como do país todo, que afirmam que o prédio deve ser preservado. A legislatura do condado deve decidir pela demolição ou pela reforma dele, que começaria este mês.

Argumento estético-histórico

Os que querem salvá-lo dizem que ele é um exemplo fundamental de um estilo arquitetônico chamado Brutalismo, que rejeita esforços para embelezar as construções em favor da exibição do poder cru das formas simples e dos materiais de construção exibidos de modo franco, como a fachada texturizada do centro governamental.

“A preservação não pode acontecer simplesmente com as coisas bonitas”, diz Mark Wigley, reitor da Faculdade de Arquitetura, Planejamento e Preservação de Columbia. “Trata-se de salvar aqueles objetos que são parte importante de nossa história e cujos valores sempre serão objetos de debate”, completa.

Concreto em risco

Um debate semelhante está acontecendo em Chicago, onde preservacionistas vêm lutando para salvar o Prentice Women’s Hospital, uma estrutura de concreto em forma de trevo, de 1974, projetada por Bertrand Goldberg que o National Trust for Historic Preservation [algo como o departamento nacional de proteção do patrimônio histórico] acrescentou à sua lista de prédios em risco. Em New Haven, Connecticut, o “Veterans Memorial Coliseum”, de 1972, foi demolido em 2007 apesar da campanha pela sua salvação.  

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Na cidade de Nova York, o prédio em forma de pirulito construído por Edward Durell Stone escapou da demolição,  mas sofreu uma reforma em 2008 que acabou com sua fachada original.

Preservar construções charmosas dos séculos 18 e 19 pode ser um esforço; convencer as pessoas a manter estruturas mais recentes e definitivamente “feias”, construídas entre os anos 1950 e 70, pode ser uma batalha de magnitude ainda maior, especialmente se elas possuírem vazamentos.  

“O fenômeno de um prédio com 30 ou 40 anos de idade estar severamente fora de moda, fazendo com que pessoas queiram alterá-lo ou demoli-lo, é muito real”, afirma Frank Sanchis, diretor dos programas americanos no World Monument Fund, sobre o centro de governo do condado de Orange. O fundo colocou o prédio de Goshen na lista de observação em 2012.

Brutos, mas nem tanto?

As opiniões são ainda mais fortes quando falamos sobe Brutalismo, um estilo associado de perto ao arquiteto suíço Le Corbusier e que costuma produzir monolitos como a sede do FBI em Washington e a prefeitura de Boston.

Em entrevista, Theodore Dalrymple, associado do Manhattan Institute que havia escrito sobre a arquitetura de Le Corbusier, descreveu as construções brutalistas como “absolutamente horrendas, como se fossem um bombril na retina.”

“Um desses prédios pode destruir toda a vista da cidade que foi construída ao longo de centenas de anos”, ele afirma.

Barry Bergdoll, o curador chefe de arquitetura e design do Museu de Arte Moderna, disse: “O brutalismo devia trazer de volta tudo que remete ao ofício – o concreto não foi aplainado, pode-se sentir a mão do trabalhador ali. Mas ele foi percebido quase que de modo oposto. É uma das grandes falhas nas relações públicas de todos os tempos. A maioria das pessoas vê a arquitetura brutalista literalmente: agressiva, pesada, agourenta e repulsiva”.

Rudolph, que faleceu em 1997, foi um arquiteto modernista notável que também projetou o prédio de Arte e Arquitetura de Yale, entre outros. Historiadores da área dizem que o centro de governo de Goshen, que possui cubos ressaltados e uma fachada de concreto enrugado que lembra veludo cotelê, representa o melhor momento de Rudolph.   

“Eu identificaria este prédio facilmente como um de seus top 10”, diz Sean Khorsandi, diretor da Fundação Paul Rudolph. 

  • Fred R. Conrad/The New York Times

    Prédio nos EUA corre o risco de demolição por ser "feio". Obra tem projeto de Paul Rudolph

Benton, o legislador do condado, chamou-o de “um monumento mundial à ineficiência”. Cada grupo tem sua estimativa de quanto vai custar para renovar o centro – o departamento de preservação estima US$ 35 milhões, a prefeitura diz US$ 64 milhões. Por US$20 milhões adicionais, dizem os oficiais da prefeitura, eles poderiam construir um novo centro (provavelmente tradicional) e fariam melhorias em vários outros prédios do governo, pois os escritórios que estavam no centro foram espalhados pela região. 

“Sou uma pessoa bastante moderna quando falamos em arquitetura e pintura”, disse Diana, o executivo da prefeitura. “Se o prédio funcionasse como se deve e fosse eficiente e eficaz, eu o deixaria como está”, acrescenta.

Economias à parte, muitos dizem que o prédio de Rudolph simplesmente nunca pertenceu a Goshen, nem nunca pertencerá. “Ele está muito deslocado”, disse Barbara Hatfield, residente há anos no local. “Goshen é o centro do condado. Há muita história neste lugar.”

Mas outros argumentam que o prédio também faz parte da história da área. “Ele reflete um retrato da época, do final dos anos 1960 e começo dos 70, quando nossa história era turbulenta”, disse Patricia Turner, estagiária de arquitetura que quer salvar o edifício. “Ele não é tão relevante quanto algo que aconteceu em 1968?”, argumenta.

John Hildreth, vice-presidente do National Trust, disse que o gosto na arquitetura muda ao longo dos tempos e, por isso,  pode mudar novamente.

“Houve uma época em que as pessoas não estavam preocupadas com a salvação de casas vitorianas, bangalôs, prédios Art Déco... não eram os estilos favoritos de então”, ele disse. “É preciso focar no significado do edifício e não em seu estilo, porque estilos vêm e vão. Estamos em um momento onde avaliamos o passado recente e discutimos a respeito daquilo.”

Historiadores também afirmam que a apreciação da arquitetura requer estudo. “É como alguém dizer que não gosta de Pollock porque ele espirrava a tinta”, disse Nina Rappaport, presidenta da Docomomo-New York/ Tri-State, uma organização que promove a preservação da arquitetura modernista. “Isso significa que não devíamos deixá-lo no museu? Não, significa que ensinamos as pessoas sobre essas coisas.”

Mas Dalrymple afirma que a noção de que o público precisa ser educado a apreciar o Brutalismo é como dizer que as pessoas precisam “ser intimidadas por conta de seu gosto”.

Não é preciso ser um perito para decidir se um prédio é feio ou não, ele disse, e acrescentou: “É um julgamento estético”.

Tradutor: Erika Brandão e Daiana Dalfito (edição)

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