Projetos

Teatro renascentista em Florença transforma-se em casa e preserva o passado

Andrea Wyner/The New York Times
Teatro renascentistas em Florença se transforma em casa sem perder características arquitetônicas imagem: Andrea Wyner/The New York Times

Rocky Casale

Do The New York Times, em Florença, Itália

Florença, Itália – No início, para Paolo Mazza, o Palazzo Bardi deveria ser somente outro projeto. Mazza era diretor executivo da Amplifin S.p. A., uma empresa de investimentos em Milão, em 2000, quando a organização adquiriu a propriedade: um palácio do século 15 que dizem ter sido projetado pelo grande arquiteto renascentista Filippo Brunelleschi. 

O plano era convertê-lo em apartamentos para vender, e durante os vários anos seguintes Mazza supervisionou os arquitetos encarregados da delicada tarefa de dividir o prédio. Uma parte dele teve a honra de ser o teatro que fora ponto de encontro do Florentine Camerata, o grupo de músicos e teóricos do do século 16 creditado como um dos inventores da ópera como conhecemos.

“Quando vi os planos dos arquitetos de dividir o teatro - que na sua forma original era tão aberto e acusticamente puro quanto um teatro deve ser -,” Mazza conta, “tive que intervir”.

Em 2008, ele interrompeu os trabalhos no La Camerata, como o teatro de 320 m²  é agora conhecido, e o comprou por 2,5 milhões de euros. Mazza e sua esposa Gabriella dedicariam quatro anos de trabalho – e outros US$1, 5 milhão – para transformá-lo em um lar.   

Importância histórica + burocracia

Para que o projeto fosse realizado, Gabriella Mazza - antiga proprietária de um retiro comunitário de luxo - precisou lidar com muita burocracia por causa da importância histórica do teatro. “Constantemente precisávamos encaixar as tarefas exaustivas de ‘chafurdar’ em um lamaçal legal de requerimentos para restauração enquanto tentávamos deixar nossa marca de design de interiores na propriedade”, relembra.

  • Andrea Wyner/The New York Times

    Pátio do Palazzo Bardi, em Florença, Itália

Consultando artistas e historiadores da Accademia di Belle Arti, de Florença, o casal apresentou quase duas dúzias de propostas arquitetônicas e de execução para o Município e para o Ministério Italiano de Herança Cultural, antes que a obra pudesse realmente começar. 

A reforma

O local possuía um pé direito alto e era completamente aberto, algo condizente com o espaço de um teatro, e os Mazza queriam mantê-lo assim. Então decidiram transformar o único aposento privativo - um estúdio perto da entrada - em um quarto e um banheiro.

Para preservar a integridade da área aberta, eles inseriram uma estrutura livre gigantesca, que criou dois quartos de hóspedes com banheiro no andar de baixo (para os filhos, Francesco, 32 e Giulia, 25, que vivem em Milão) e uma cozinha moderna e as salas de estar e jantar no andar de cima.

Uma escadaria de mármore com corrimão de ferro ornamentado leva ao segundo andar, onde um parapeito de vidro e aço alonga o comprimento do mezanino, que dá vista para o espaço aberto de baixo. 

O restauro

Porém, antes da modernização do ambiente, havia uma imensa quantidade de restaurações a serem feitas. Os afrescos do que viria a ser o quarto principal precisavam ser recuperados, enquanto o teto  e as janelas venezianas com quase 4 metros de altura, ambos de madeira, estavam cobertos por camadas centenárias de tinta.

A empresa contratada pelos Mazza  para despir o espaço até seu estado original foi a Dini Restauri, cujos trabalhadores passaram sete meses a remover as grossas camadas de tinta com chumbo das paredes, através de cinzéis e martelos.

O trabalho foi finalizado com uma camada de óxido de cálcio, que acentuou o efeito cinzelado e a tinta da madeira foi removida para revelar estênceis de flores feitos a pastel nos tetos. 

Além do teatro

Quando os Mazza compraram o apartamento, também adquiriram um espaço no nível da rua que, originalmente, fora uma “buchetta” do século 15 - o equivalente renascentista de um “drive-thru” de “fast food” - que vendia gêneros alimentícios.

A intenção era transformar aquilo em uma garagem para dois carros. Mas, como muitos de seus planos, este também foi vetado. As autoridades julgaram que o espaço era historicamente muito importante para ser usado como estacionamento. Então o casal fez o que aprendeu durante a restauração: improvisou. Agora, Paolo e Gabriella são donos de um restaurante naquele espaço, o La Buchetta.

Tradutor: Erika Brandão e Daiana Dalfito (edição)

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