Decoração de ambientes

Em NY, profissionais driblam defeitos de apê em mostra de decoração de luxo

Trevor Tondro/ The New York Times
O decorador Bryant Keller recobriu o "foyer" com papel desenhado por Flora Scalamandre, nos anos 1940 imagem: Trevor Tondro/ The New York Times

Guy Trebay

Do The New Youk Times, em Nova York

Nova York –Vestindo confortáveis shorts cáqui, uma camisa clássica branca e um par de sapatos Alden (feitos para o deserto), Todd Alexander Romano andava pela cobertura em West Side com olhar afetado.

Texano compacto e energético, Romano é "o cara" que enxerga não só que o copo está meio cheio, mas como o objeto ficaria muito mais bonito se o colocasse ali, na mesa laqueada, perto da reprodução da "fauteuil" (poltrona) Luís 15 da Maison Jansen.

 “A primeira coisa que pensei foi em pintá-la de cinza e enchê-lo de milho”, disse um carrancudo Romano sobre uma sala de jantar cujas proporções intimidadoras  cerca de 4 m por 5 m, e 6,5 m de pé-direito– sugeriam mais um silo do que uma elegante cobertura de milhões de dólares com vista panorâmica para o rio Hudson e para o que quer que chamem aquele lugar na outra margem.

Mostra de decoração

Em meados de abril, Romano havia sido convidado para participar da 40ª edição anual do “Kips Bay Decorator Show House”, como um dos 30 singulares membros daquela profissão subestimada que se oferecem- a cada ano - para fazer cômodos mágicos nas casas que foram doadas em benefício do Clube dos Garotos e das Garotas de Kips Bay (Kips Bay é uma região de Manhattan, em Nova York).

Durante a maior parte de sua história, a Kips Bay Decorator Show House aconteceu em uma clássica casa de arenito vermelho de Manhattan. Mas este ano não havia nenhuma casa disponível. Então a incorporadora do Aldyn, um empreendimento de 40 andares acima dos antigos trilhos da Penn Central, ofereceu para a caridade o uso de dois apartamentos dúplex adjacentes que não haviam sido vendidos, cada um com mais de 550 m² (estimados em US$ 15.9 e US$ 16.9 milhões, respectivamente) e ambos pouco promissores em termos arquitetônicos.

Existem as vistas, é claro. Mas uma pessoa não pode viver na vista. Você precisa de um sofá.

Ao ver o espaço reservado a seu trabalho na Show House pela primeira vez, a decoradora Susan Zises Green diz ter se sentido como Mary Poppins, “parece que você vai sair voando pelas janelas”, diz. Romano nutriu ideias parecidas, embora o voo que contemplara tivesse ido para a direção oposta, numa "saída rápida pela direita".

Mas Romano não desistiu. Como decorador, não se pode mais (se é que já se pôde um dia) torcer o nariz para apartamentos estranhos, em forma de caixa, produzidos pelas incorporadoras. São espaços com recuos, sofitos salientes e saídas de ar-condicionado localizadas, sem nenhum motivo aparente, no meio da parede da sala de jantar. 

“Eu quase levantei minhas mãos para o céu”, conta Romano, erguendo os braços. “Fiquei parado no meio do espaço e pensei, ‘não entendo’. Então tive uma inspiração, que é o que acontece nove de dez vezes. Entro em um cômodo e o espaço, a geografia ou a arquitetura me dão um caminho e uma história a seguir”.

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    Sala de jantar extravagante assinada pelo decorador Todd Alexander Romano

A criação do espaço

A narrativa que se apresentou para Romano envolvia uma galeria. O decorador considerou a deselegante sala de jantar como um espaço apropriado para obstinados moradores de Manhattan que, como disse Marlene Dietrich em algum lugar do passado, parecem ter fome de tudo, exceto de comida.

Assim, Romano alteraria as proporções e o humor da sala com pé-direito alto pintando as paredes em um tom noturno, uma cor que chama de "aubergine".

“Aubergine” significa berinjela em francês, e um dos traços mais charmosos e perenes dos habitantes do mundo da decoração é que, raramente, eles vão usar uma tediosa palavra em inglês, quando uma expressão estrangeira que exala sofisticação está logo ali à mão.

Os detalhes kitsch e extasiantes

Romano soube na hora -ou quase– que iria cobrir as paredes com grandes pinturas modernistas de Rachel Hovnanian e Marc Van Cauwenbergh, pendurar um espelho italiano multifacetado verde-veneno dos anos 1960, e que ia colocar no meio do tapete de sisal (neutralizante) uma mesa octogonal de Alessandro Albrizzi, com seis ou oito lugares, um número ideal para jantar porque, garante Romano, “menos é chato e com mais você não consegue uma conversa coletiva”.

Ele colocou, ao redor da mesa, cadeiras Império Francês porque, conforme declara em terceira pessoa, como se não fosse uma frase calculada, “sempre haverá uma cadeira francesa em uma sala de Todd Alexander Romano”.

O decorador ainda tomou emprestado de Guy Regal, do Newel Antiques, um imenso lustre veneziano dos anos 1940, de 42 braços, e o usou para ancorar o espaço.

Acrescentou também um par de luminárias de porcelana Bunny, de Christopher Spitzmiller, sobre um console inglês do século 19 pintado de branco. Para um toque extravagante, ou possivelmente de loucura, Romano pendurou uma girafa monumental de metal, do escultor mexicano Sergio Bustamante, em uma das paredes.

O ambiente ainda ganhou porções de geodos de ametista e um enorme vaso de terracota em forma de abacaxi e, ao fim do trabalho, a família imaginária que Romano evocou talvez se sinta, ao jantar, como se estivesse aparecendo todas as noites em um remake de “O Homem Que Veio de Longe” (originalmente "Boom!", de 1968) , não simplesmente comendo o frango direto da embalagem de um “fast-food”. 

O público de uma mostra

A maioria dos visitantes da Kips Bay Decorator Show House está disposta a experimentar um pouco do "showbiz" da decoração, apreciar os pequenos choques visuais que lhe são oferecidos por, digamos, Bryant Keller, que cobriu um foyer com um papel de parede vermelho criado por Flora Scalamandre, nos anos 1940, e cuja padronagem contém zebras saltitantes. 

Que o papel de parede era uma marca registrada visual do falecido restaurante Gino’s é sabido entre os profissionais do ramo, uma vez que era no Gino’s (senão para o Isle of Capri), no Upper East Side, que os decoradores do passado geralmente se refugiavam depois de um dia extenuante. Ali eles pousavam seus mocassins belgas sobre as mesas e se animavam com bebidas fortes.

  • Trevor Tondro/ The New York Times

    Colorido e divertido, o quarto das criança,s, do escritório Laura Bohn Design Associates

Também é apaixonante como a habilidade de um decorador é inata e não pode ser facilmente explicada.

Anos atrás, conta o empresário Mario Buatta, o decorador Albert Hadley (que morreu recentemente, aos 91 anos, e para quem a exibição deste ano é uma homenagem) visitou seu apartamento. "Havia uma poltrona na sala e, depois que estávamos lá havia algum tempo, Albert disse, ‘você se incomoda se eu fizer uma coisa’? Ele se levantou e colocou a cadeira 5 cm para o lado e aquilo mudou completamente a sensação da sala”.

A decoração como profissão

Antes de sair, anos atrás, desbravando seus próprios territórios, Bunny Williams, a presidente da exibição deste ano, passou mais de uma década aprendendo o ofício como associada no Parish-Hadley, a empresa de decoração de Henry Parish II, universalmente conhecida como "Sister".

“Quando comecei, trabalhávamos em empresas”, lembra Williams. “Nós treinamos, fomos assistentes. Nunca passou pelas nossas cabeças começar decorando”. “Agora, na era da autopromoção e da medonha realidade do 'Faça Você Mesmo', “todo mundo quer ser um decorador famoso ao completar 30 anos”, diz Williams. “Isso depreciou tremendamente nossa profissão”, lamenta.

A voracidade e a ganância dessa era de rápido crescimento também teve uma pesada influência na profissão. “Nenhum ataque foi pior do que o da indústria do design de interiores”, afirma a decoradora, tanto pela recessão quanto pela amplamente divulgada suspeita de prática do ofício por toda a indústria. “Agora estamos em tempos mais realistas”, conclui.

Realidade, entretanto, como Williams reconhece, dificilmente será o que os visitantes pagam para ver em uma casa que exibe o trabalho de decoradores. O público vem em busca da “fantasia, da diversão, do talento do artista”. Vem para se projetar, de modo ao mesmo tempo aprazível e vouyerístico, na sala de jantar "aubergine" de Romano.

Tradutor: Erika Brandão e Daiana Dalfito (edição)

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