Construção e reforma

Softwares de arquitetura possibilitam o "faça-você-mesmo", mas não substituem profissionais

Kevin Scanlon /The New York Times
Pamela Rodriguez, uma designer de cozinhas, usou um software para desenvolver a planta de remodelação imagem: Kevin Scanlon /The New York Times

Steven Kurutz

Do The New York Times, em

Encarregar-se de uma grande reforma ou de uma nova construção sem um arquiteto para fornecer know-how ou planos detalhados pode parecer tanto uma tolice quanto algo muito acessível. Porém, até os mais entusiasmados "DIYers" (adeptos do faça você mesmo) têm motivos para temer a explosão de uma  parede estrutural.

Nos últimos anos, uma enxurrada de softwares tornou possível para os proprietários deixar o arquiteto de lado e fazer, sozinho, o trabalho de design. E enquanto essas ferramentas têm sido usadas principalmente no desenho de interiores, também vêm se tornando cada vez mais sofisticadas, permitindo que os proprietários se atirem em projetos maiores.

Tome como exemplo o “Designed Exterior Studio”, uma nova ferramenta online da Ply Gem - uma empresa na Carolina do Norte - que, entre outras coisas, ajuda o usuário a visualizar opções de revestimentos de exteriores. Com o recurso, pode-se escolher uma casa virtual que se pareça com a real - a partir de um banco de imagens de quase duas dúzias de estilos - e então alterar suas cores, acabamentos, janelas e telhado e fazer mudanças estruturais como acrescentar pórticos ou mansardas.

“Estamos trazendo a experiência arquitetônica, as escolhas de cores e design e colocando nas mãos de quem não teria condições de pagar um arquiteto”, afirma John Stephenson, VP Senior de marketing da Ply Gem. Para os novatos que querem "dar um jeito" no exterior de uma casa, Stephenson aposta que a ferramenta da web “os ajuda a chegar lá”.

Entre as outros sistemas de computador que possibilitam aos proprietários a visualizar as mudanças, por assim dizer, estão o Chief Architect, o Floorplaner.com, o Google SketchUp e o Sweet Home 3D.

Acesso ao grande público

Jeroen Bekkers, o arquiteto holandês criador do Flooplanner - que permite aos usuários desenvolver projetos detalhados de cômodos ou de casas inteiras, com mobiliário e paisagismo - diz que gostaria de “envolver as pessoas no processo do design”. O site tem 5 milhões de usuários registrados, com cerca de um milhão de novos projetos adicionados ao seu banco de dados por mês, calcula Bekkers, e também possui um aplicativo para iPad.

Bekkers ainda acredita que a “necessidade” de sua profissão é exagerada e, para provar sua afirmação, citou o design ad hoc de uma vila grega: “é charmosa, com espaços agradáveis e nunca lançou mão de um arquiteto. São somente pessoas construindo suas próprias casas”. E acrescenta: “todos têm ideias sobre seus próprios espaços. Acho que as pessoas são muito capazes”.

Enquanto alguns usam softwares como o Flooplanner para criar um projeto e posteriormente leva-lo a um arquiteto ou empreiteiro - ou simplesmente para sonhar acordado - outros usam a ferramenta para serem seus próprios arquitetos. Sherry Petersik, 30 anos, e seu marido, John, da mesma idade, aplicaram uma combinação de Flooplanner e SketchUp para fazer uma grande reforma na cozinha em sua fazenda dos anos 1960, em Richmond, Virginia. É a segunda vez que o casal utiliza softwares de design ao invés da ajuda de um profissional para a reforma de casa. “Somos de colocar a mão na massa”, diz Petersik, que narrou o projeto no blog do casal, “Young House Love”.

O duo desejava um “projeto completamente único para um espaço completamente único”, conta Petersik, e as visualizações móveis em 3D do SketchUp “realmente nos ajudaram a visualizar a reforma da cozinha”, conclui.

Quanto à decisão de renunciar a um arquiteto, Petersik argumenta que, se você não precisa de alguém “para lhe dizer que ônix está na moda” e para “definir do que você gosta, porque você não sabe”, um programa como o SketchUp - que é utilizado por muitos arquitetos - é útil e econômico. Petersik estimou que a nova cozinha custaria cerca de US$ 7 mil, muito menos que os US$ 30 mil ou US$ 40 mil que teriam sido gastos se tivessem consultado a opinião profissional sobre o ônix. 

Economia

Philippe Jeanty estava interessado em economizar dinheiro e tempo quando resolveu projetar uma casa utilizando o SketchUp. Jeanty, um doutor de 58 anos sem nenhum treinamento em arquitetura ou engenharia, passou vários meses bolando um projeto para uma casa térrea de três quartos em Fairview, no Tennessee, com paredes grossas e com isolamento, além de muitas janelas.

Usando o SketchUp, ele foi capaz de ir refinando o projeto até se sentir satisfeito. “Se tivéssemos que discutir os planos com um arquiteto, pedindo para 'mudar isso, mudar aquilo', teria sido um incontável número de reuniões”, relembra Jeanty.

Do modo como fez, ele simplesmente contratou um desenhista (para fazer os cálculos) e um empreiteiro para tocar o projeto. E sua falta de conhecimento na área do design, Jeanty garante, não foi um problema: “a única coisa da qual a gente realmente se arrepende é de ter colocado mármore em muitos lugares. A manutenção é um sofrimento”.

Limitações e riscos

Em uma época onde é possível fazer quase tudo online, inclusive trabalhos legais, é tentador pensar que com alguns poucos cliques de um mouse qualquer um pode se tornar um Frank Lloyd Wright. Mas a maioria dos programas de design, e de seus usuários, possuem limitações.

“Mesmo que você possa fazer um belo desenho com o software”, defende Pamela Rodriguez, uma veterana designer de cozinhas, “você precisa perguntar ‘isso é possível de ser construído?’ e ‘isso deveria ser construído?’”

Rodriguez, de 55 anos, aprendeu isso da pior maneira, quando usou o Chief Architect para esboçar projetos para uma reforma de cozinha na sua casa em Santa Maria, na Califórnia. Mesmo com anos de experiência profissional, a designer entrou em apuros quando levou as plantas para o departamento de planejamento da cidade. Seu projeto, ela descobriu, exigia a remoção de uma parede que ajudava a segurar o impacto da carga de terremotos e mantinha o teto no lugar.

“Essas coisas nunca ficaram evidentes nos meus lindos projetos”, afirma Rodrigues, acrescentando que para fazer um design factível, outra parede teve que ser construída, a um custo de US$ 5 mil.

Apesar da má experiência com o Chief Architect – ou, talvez, por causa dela – Rodriguez conta que tanto ela, quanto muitos outros designers profissionais temem clientes que cheguem com projetos feitos por eles mesmos. “Fazem um desenho e pensam ‘isso vai funcionar’, mas têm uma lava-louças cuja porta abre dentro do forno”, ironiza.

John Isch, o diretor do RWA Architects, em Cincinnati, rememora que conheceu alguns clientes que criaram projetos utilizando softwares de design. “O problema é quando eles resolvem aquilo e não conseguem imaginar algo diferente”, diz. “Fazer com que enxerguem outras opções pode ser difícil”, assegura.

As pessoas costumam achar que arquitetos são aqueles que simplesmente fornecem os desenhos, sem saber com quantos outros problemas lidam, tais como criar um projeto que seja harmônico com o terreno e com o clima; seguir o código de construções locais e coordenar fornecedores e operários. “É muito coisa para um leigo lidar”, defende Isch.

Ajuda, mas não substitui

Mesmo Petersik, a super faz-tudo, garante que ela e seu marido pensariam duas vezes antes de abraçar um plano maior como projetar uma casa utilizando o Flooplanner ou o SketchUp. “Eu percebi o quanto o programa fez com que nos sentíssemos capacitados, mas também entendo o quanto ele poderia nos trazer falsa confiança”, pondera. “Parece um grande jogo de azar.”

Owen Kennerly, um arquiteto de San Francisco, defende não acreditar que programas de design possam tomar o lugar de um arquiteto, mas os acha “úteis na hora de transmitir os desejos do cliente”. “O programa também traz aos leigos o reconhecimento dos desafios de planejar um espaço, ajudando a aumentar a compreensão sobre o que é design”, afirma.

O programa da Ply Gem, Designed Exterior, que foi criado com a ajuda do BSB Design, um escritório de arquitetura em Des Moine, no Iowa, oferece um modelo híbrido. Ele permite que as pessoas escolham a partir de uma série de opções (janelas, acabamentos, harmonia de cores) selecionadas por arquitetos – em outras palavras, arquitetura com experiência. (Toll Brothers, o empreiteiro customizado, tem uma ferramenta smilar chamada Design Your Own Home.) 

Como diz Daryl Patterson, sócia do BSB Design: “não podemos ensinar as pessoas a serem arquitetas online. Mas podemos dar segurança de dizer ‘imagine o que alguém com imaginação, criatividade e segurança pode fazer com a minha casa’.”

Quando falamos em empregar projetos criados pelo computador para construir projetos reais, Petersik e seu marido estabeleceram aquela que pode ser a regra de ouro: “a gente se pergunta: qual o pior que poderia nos acontecer? Se é alguma coisa estrutural ou elétrica, então buscamos ajuda profissional”. A economia e o faça-você-mesmo podem não valer o risco.

Tradutor: Erika Brandão e Daiana Dalfito (edição)

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