Decoração de ambientes

"Querido kitsch": uma história sobre o amor à arte antivanguardista

Divulgação Sotheby's/ The New York Times
Biblioteca da casa de Brooke Astor, em Holy Hill. Objetos da filantropa foram leiloados pela Sotheby's imagem: Divulgação Sotheby's/ The New York Times

Christopher Mason

Do The New York Times, em Nova York (EUA)

Em seu apogeu, carregada de joias, como a imperatriz da filantropia de Nova York, Brooke Astor divertiu presidentes, primeiras-damas e um pout-porri de bam-bam-bans e homens de letras em seu elegante duplex com 14 cômodos na Park Avenue. E quando ela morreu, em 13 de agosto de 2007, em Holly Hill - sua propriedade no município de Westchester - aos 105 anos, deixou para trás duas casas cheias de posses muito estimadas, inclusive móveis laqueados da dinastia Qing, um relógio Cartier incrustado de jades e diamantes e dúzias de retratos de cachorros datados do século 19. 

Cinco anos mais tarde, após uma corrosiva batalha pelo espólio avaliado em US$ 130 milhões, a Sotheby’s leiloou 901 lotes de móveis, artes decorativas, obras de arte e joias, para ajudar causas pelas quais Astor lutou durante sua vida, como a New York Public Library, o Metropolitan Museum of Art, o Historic Hudson Valley e o Animal Medical Center.
 
O leilão vem depois de um redemoinho de questões judiciais que começaram em 2006, quando seu neto Philip C. Marshall entrou com uma ação contra o pai, Anthony D. Marshall - o único filho de Brooke - por cuidar mal das finanças e maltratar a mãe. A disputa levou à condenação de Anthony em 2009, acusado de fraude e de roubo de dezenas de milhões de dólares da dama da filantropia, que sofria de demência. (Marshall, agora com 88 anos, apelou da sentença).
 
O catálogo do leilão, profusamente ilustrado, oferece um vislumbre do distinto esplendor no qual Astor viveu - em Holly Hill e no número 778 da Park Avenue - e estabelece a cena das alegadas pilhagens de seu crepúsculo. 
 
A história, em NY
 
Astor se vestia com muito estilo e era uma amante irreprimível. Amava o design elegante com um toque extravagante e, por vários anos, trabalhou como editora na revista House & Garden. Depois, como a rica viúva de Vincent Astor, a mecenas contratou a amiga - a decoradora Sister Parish, que se destacou ao impregnar as casas dos clientes da alta sociedade com gosto impecável - para decorar o seu apartamento da Park Avenue. 
 
Kenneth Jay Lane, outra amiga, observou: “Era um apartamento realmente charmoso. Tudo era perfeito. Não era pretensioso, só era charmoso e confortável.”
 
Para a biblioteca, Astor pediu ajuda a Albert Hadley, sócio de Parish, que criou um dos mais admirados interiores do século 20: um santuário de laca vermelha guarnecido de bronze que refletia o papel principal de Astor na restauração das preciosidades da Biblioteca Pública da cidade. 
  • A filantropa Brooke Astor colecionava retratos de cachorros pintados e datados do século 19, bem como miniaturas em porcelana, como as da foto

 
O cômodo exibia livros encadernados em couro, que haviam pertencido ao seu marido, o magnata do negócio imobiliário com quem ela foi casada por mais de cinco anos antes da sua morte, em 1959. E em meio aos tecidos grossos e aos Budas dourados, o ambiente fora adornado com imagens de animais: um circo fantástico que incluía um elefante indiano esculpido em marfim e cravejado de rubis e esmeraldas, da Van Cleef & Arpels (lote 82 do leilão, entre US$ 6 mil e US$ 8 mil), e uma imagem chinesa dourada de um búfalo deitado (parte do lote 44, de US$ 2 mil a US$ 3 mil.)  
 
Como lembra o historiador John Richardson, frequentador da casa de Astor: “Brooke era, acima de tudo, amante dos animais.” Devotada aos seus dachshunds, Boysie e Girlsie, ela tinha prazer e se divertia em compartilhar seu amor por cães. Lane relembra: “Eu ganhei um presente magnífico de Brooke uma vez, uma pequena caixa chegou a meu escritório e nela havia um cachorro de jade chinês. Veio com um bilhete que dizia: ‘Kenneth, está na hora de você ter um cachorro’”.
 
Por quase um quarto de século, a partir do meio dos anos 1970, convites para jantar no apartamento de Astor estavam entre os mais cobiçados de Nova York. Ser aceito em seu círculo de amigos incorporava o brilho do desejo da ascensão social e o privilégio de encontrar com os melhores escritores, políticos e filantropos da época. Barbara Walters, uma amiga próxima, rememora que “a partir do momento em que você entrava nas festas, a sensação era de folia e esplendor. Brooke era uma ótima anfitriã, divertida e alegre”, acrescenta. 
 
Depois de jantar usando os pratos e a prataria monogramada de Astor, os convidados se dirigiam à sala de desenhos para o café, onde podiam sentar-se em cadeiras Luís 15 revestidas com chintz floral (lote 122, jogo com quatro, estimado entre US$ 12 mil e US$ 18 mil), entre desenhos de Tiepolo e Boucher, além de um Canaletto que pertencera ao Duque de Talleyrand (lote 143, de US$ 300 mil a US$ 500 mil).  
 
A memória, em Holly Hill
 
O refúgio de final de semana de Astor, Holly Hill, era mais informal, servia para almoços íntimos com amigos que saíam da cidade em seus carros, lembra Walters. “A vida dela em Nova York era muito agitada”, conta, “almoçava fora todos os dias e saía quase todas as noites. Holly Hill era um local para descansar”.
 
A escadaria da casa era decorada por pinturas de cachorros - a maioria do século 19 - que também tomavam o hall no andar superior. William Secord, um revendedor de Nova York especializado em pinturas de cães, dá o crédito a Astor por ajudar na criação de uma tendência entre socialites em colecionar esses retratos, um passatempo da era Vitoriana que havia saído de moda. 
 

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  • Trent Bell/ The New York Times
 
Um ensaio que a filantropa escreveu, em 1982, para a Architectural Digest – intitulado “Brooke Astor sobre os Prazeres de Colecionar” - incluía várias fotos da escada. E para deleite de Secord, Astor concordara em escrever um prefácio para o livro editado em 1992: “Dog Painting 1840-1940 - A Social History of the Dog in Art”. “Ela era, com certeza, uma estrela em meu céu”, avalia o vendedor. “Sua aprovação fez uma diferença incrível na coleção”, conclui.
 
Astor era também uma extraordinária acumuladora de bules: há 46 no leilão da Sotheby’s. Além daqueles com formas mais convencionais, há um par de frangotes da dinastia Qing (lote 470, entre US$ 8 mil e US$ 12 mil); outro - datado do século 19 – com formato de repolho e bico e asa em forma de cobra (incluso no lote 502, US$ 9 mil a US$ 15 mil); bem como um bule Staffordshire em forma de esquilo, feito de faiança esmaltada (lote 247, US$ 4 mil a US$ 6 mil).
 
E eles não eram simplesmente decorativos, revela Christopher Ely, seu antigo mordomo. “A Sra. Astor tomava chá todas as tardes”, conta o ex-empregado do Palácio de Buckingham. “Eu costumava lhe servir English Breakfast e Earl Grey”, lembra.
 
Amigos de Astor que a visitaram durante seus últimos anos de vida chegaram a - às vezes - declinar presentes de uma senhora confusa, que tinha problemas para lembrar nomes. John N. Hart Jr., produtor de cinema e teatro, lembra que em uma visita a Holly Hill ele parou para admirar uma aquarela de Cecil Beaton, “Portrait of Brooke Astor”, que ficava em seu quarto (lote 707, de US$ 2 mil a US$ 4 mil). “Ela perguntou se eu a queria”, diz Hart. “Mas naquele momento, de jeito nenhum.” 
 
Depreciação do patrimônio
 
Anthony Marshall, porém, parecia não compartilhar do mesmo escrúpulo quanto aos bens de sua mãe. Depois de ter demitido Ely, em 2005, o preocupado mordomo continuou mantendo contato com a enfermeira e os funcionários de Astor para se manter a par de seu estado. Soube, então, que os Marshalls vinham retirando antiguidades, prataria e outras peças de valor de Holly Hill sem o consentimento da filantropa.  
 
O mordomo apresentou suas preocupações ao neto de Astor, que moveu uma ação exigindo que seu pai deixasse de ser o guardião legal e fosse substituído pela melhor amiga da idosa, Annette de la Renta, além de ter a JPMorgan Chase & Co. como co-guardiães.  Quando o tribunal os nomeou, de la Renta recontratou Ely como o mordomo de Holly Hill. Ao voltar, em julho de 2006, o empregado ficou atônito ao perceber o quanto havia sumido. “Tony basicamente saqueou a casa depois que eu fui demitido”, conta, “fiquei perplexo em ver o quanto havia saído de lá”.
 
Em outubro de 2006, por determinação civil, Marshall e sua esposa, Charlene, foram condenados a devolver mais de US$ 11 milhões em bens, entre dinheiro, joias e arte, para o patrimônio de Astor. E em 28 de março de 2012, sob os termos de uma negociação anunciada pelo Procurador Geral Eric T. Schneiderman, Marshall renunciou aos seus direitos ao mobiliário, objetos de uso doméstico e livros que ele havia herdado de sua mãe.  
 
Uma seleção destes itens, junto com obras de arte e joias que Astor havia destinado para a caridade, estiveram disponíveis no leilão da Sotheby’s.

Tradutor: Erika Brandão e Daiana Dalfito (edição)

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