Casa e decoração

Das carruagens ao moderno: construção conjuga arquiteturas através do tempo

Enda Cavanagh/ The New York Times
Casa reformada mantém fachada em estilo neoclássico que "escondia" garagem para carruagens imagem: Enda Cavanagh/ The New York Times

Sarah Amelar

Do The New York Times, em Dublin, Irlanda

Um antigo truque arquitetônico está no centro da moderna e elegante residência de Ella Flynn, em Dublin. Em 1847, quando uma casa geminada - em estilo georgiano - foi construída perto da frente do terreno, os donos, fazendeiros privilegiados, “queriam olhar para fora e ver algo agradável”, como conta Flynn. Então uma fachada neoclássica falsa foi criada para mascarar a construção que servia como garagem de carruagens e que detinha - também - o alojamento dos criados, nos fundos do jardim. 

Em 1966, quando Flynn, hoje com 77 anos, e seu marido adquiriram a propriedade por cerca de US$ 20 mil, os cavalos, as carruagens e os criados já não estavam lá havia tempos e a casa principal fora dividida em apartamentos. No bairro dublinense de classe alta, localizado ao lado sul da cidade, humildes prédios que antes haviam sido estábulos eram uma nota de rodapé quase esquecida até os anos 1980, quando os proprietários começaram a transformá-los em casas cobiçadas. 
 
Os Flynn, entretanto, mantiveram a deles do mesmo jeito. O casal havia comprado a propriedade com a ideia de morar na casa principal. Mas depois que o marido de Ella tornou-se oftalmologista nos Estados Unidos, o casal se estabeleceu permanentemente em Pasadena, na Califórnia, onde teve cinco filhos. 
 
Ainda assim, Ella e a família retornavam para a Irlanda regularmente. “Queríamos que nossos filhos conhecessem suas raízes”, esclarece a matriarca. Então, os Flynn alugaram a propriedade, mas encontraram modos de ficar lá - junto com os locatários - quase sempre durante o verão inteiro. E quando as crianças acabaram formando suas próprias famílias, os Flynn resolveram construir um refúgio familiar no local da casa que fora garagem das carruagens e que estava se deteriorando. 
 
Das carruagens à arquitetura moderna
 
Por ser protegida pelo patrimônio histórico, a construção poderia ser demolida, em parte, porém a falsa fachada neoclássica precisaria ser mantida. Bem como, qualquer construção adicional deveria parecer moderna, em óbvio contraste com o antigo. Condições dadas, o casal embarcou no projeto. Mas, quando seu marido adoeceu e morreu em 2005, Ella suspendeu os planos. 

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PROJETO NA FINLÂNDIA

  • Goeril Saetre/The New York Times

    Casa isolada resgata o modo de vida "do passado"

 
Depois de algum tempo, Ella Flynn resolveu revisitar o planejamento da reforma com a ajuda de seu colega expatriado irlandês, - o arquiteto radicado em Los Angeles - Lorcan O’Herlihy, um modernista bem estabelecido, cujos pais ela conhecera. O’Herlihy nunca havia feito qualquer obra na Irlanda e agarrou a oportunidade, que tinha a particularidade de estar localizada há algumas casas de distância da morada de solteira de sua mãe. 
 
A reforma
 
Mantendo a fachada histórica livre, o arquiteto criou uma casa de 270 m² feita em dois volumes independentes e unidos por uma ponte fechada em vidro, daí o nome que Flynn lhe deu: “Bridge House” (Casa da Ponte) ou “Tighe an Droichead”.
 
O’Herlihy também fez experiências com concreto em forma de tábua, tingido com carvão, além de se apropriar do tipo de alvenaria da região, escolhendo - ele  afirma - “não exportar a cultura de Los Angeles para Dublin”. Ao invés disso, o arquiteto optou por criar uma entrada enigmática que transforma em espetáculo a astuciosa arquitetura original. 
 
Dos estábulos, você atravessa uma série de limiares: passa por um caminho com painéis de aço em um muro de pedra, através de um pátio de estacionamento em direção a uma fachada de concreto, que tem uma entrada que vai afunilando. Em um momento “Alice no País das Maravilhas”, a entrada converge para uma porta modesta que dá, surpreendentemente, para o lado de fora novamente.
 
É aí que você descobre que acabou de atravessar uma fachada histórica. Então você passa por outro pequeno pátio antes de finalmente entrar na casa, num grande volume de vidro que envolve a cozinha, a sala de jantar e a de estar, além de dois quartos (outros dois quartos ficam acima do “funil”). 
 
Do lado de dentro, madeira zebrada e mármore branco definem uma “cozinha que não tem cara de cozinha”, como avalia Flynn. “Ela é elegante, exatamente do jeito que eu gosto”.
 
Atualmente, a matriarca divide seu tempo entre a Califórnia e a Irlanda, onde se reúne sempre com seus herdeiros. A casa dos estábulos é absolutamente diferente da sua casa de estilo espanhol e cheia de antiguidades que fica em Pasadena, mas como ela observou: “no princípio, eu me sentia desconfortável com a arquitetura moderna. Agora eu a amo”.
 

Tradutor: Erika Brandão e Daiana Dalfito (edição)

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