Jardinagem e paisagismo

Fáceis de manter, bromélias são lindas e não atraem dengue

Nara Vasconcellos/Jardim Botânico do Rio de Janeiro
A bromélia Nidularium tem folhas largas e inflorescência que parece um pequeno ninho de pássaros imagem: Nara Vasconcellos/Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Silvana Rosso

Do UOL, em São Paulo

Exuberantes, resistentes, de fácil cultivo e com a vantagem de não atraírem os mosquitos da dengue, as bromélias são flores com a cara do verão e servem como ornamento para jardins e varandas ou mesmo para espaços internos da casa ou ambientes públicos, tamanho seu poder de adaptação e resistência. Com mais de 3,2 mil espécies, sendo cerca de 43% nativas do Brasil e distribuídas em territórios como Floresta Amazônica, Mata Atlântica, caatinga, campos de altitude e restingas, a família Bromeliacea caracteriza-se pelo agrupamento de folhas em forma de roseta.

 
O que torna a bromélia tão resistente e de fácil adaptação a ambientes desfavoráveis é o seu sistema de absorção de água e nutrientes, que ocorre através das folhas recobertas por escamas e, em algumas espécies, nas rosetas (formação definida pelo arranjo das folhas) que armazenam água. "Esse sistema é de suma importância para sua sobrevivência e a de diversos outros microrganismos que ali procriam", diz a bióloga Nara Vasconcellos, curadora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Todavia, apesar de as bromélias serem tolerantes à falta d’água, a irrigação é fundamental para o desenvolvimento dessas plantas.
 

Bromélias e dengue

Há uma diferença entre poça d'água e a água reservada pela bromélia. Segundo a arquiteta paisagista Eliane Fortino, a água da poça fica parada e rapidamente é colonizada por organismos como as larvas dos mosquitos, entre eles, o Aedes aegypti, transmissor da dengue.

Já as bromélias que possuem reservatórios começam a guardar água antes de seu primeiro ano de vida. Essa água é protegida pelo ambiente das folhas e se transforma rapidamente em um pequeno e rico ecossistema. A água é continuamente absorvida pela planta, suprindo-a com nutrientes. A pouca evaporação ocorre através da superfície da folha.

"Na água armazenada na roseta das bromélias ocorre uma sucessão intensa de formas de vida. O resultado é uma calda repleta de organismos que competem entre si, numa interdependência ecológica, dificultando a sobrevivência de tais larvas", diz a paisagista.

Segundo informa a bióloga Nara Vasconcellos, dentro da planta, o mosquito da dengue não tende a se reproduzir. A pesquisadora também não recomenda que borrifos com a solução de água e água sanitária - eficaz no controle da evolução das larvas - sejam feitos sobre a planta. 

De acordo com uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC), da Fiocruz, em 2007 "apenas 0,07% e 0,18% de um total de 2.816 formas imaturas de mosquitos coletadas nas bromélias [do Jardim Botânico do Rio de Janeiro] durante o período de um ano correspondiam ao Aedes aegypti e Aedes albopictus, sugerindo que as bromélias não constituem um problema epidemiológico como foco de propagação ou persistência desses vetores". 

A referida pesquisa realizada para o mestrado em Biologia pelo pesquisador Márcio Goulart Mocellin em cinco bairros do Rio de Janeiro, com diferentes características socioeconômicas, mostrou presença maior do Aeds nas áreas residencias que no Jardim Botânico. Em uma segunda etapa do estudo, o pesquisador tirou os principais criadouros, como pratinhos, caixas d' água e galões, deixando apenas a bromélia e o número de larvas nas plantas não aumentou.

 

Tipos de bromélias
 
A maioria de Bromeliacea sobrevive apoiada em outras plantas, com o intuito de obter mais luz e mais ventilação. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, esses vegetais não são parasitas, e, sim, plantas epífitas, "encontradas em árvores, galhos secos e até em fios elétricos", explica Vasconcellos. "As epífitas não necessitam de substrato e podem ser fixadas diretamente em troncos ou em placas de fibra de coco etc.", orienta.
 
Desprovidas de "tanques", as bromélias terrestres são cultivadas diretamente na terra, de preferência de fácil drenagem, seja em vasos ou no solo. "Uso normalmente brita número zero misturada a húmus de minhoca e um pouco de areia lavada", ensina a pesquisadora. 
 
Outro tipo são as rupícolas, que vivem em frestas de rochas ou ficam fixas nas pedras, mas também podem ser plantadas em vasos. Para essa variedade, a bióloga recomenda o uso de brita e húmus para o substrato.
 
Para ter uma planta vistosa e saudável, a orientação da arquiteta e paisagista Eliane Fortino é a de conhecer o habitat natural da bromélia. "Ao idealizar um jardim com essas variedades, lembre-se de pesquisar sobre o ambiente a que elas melhor se adaptam e copiá-lo em certo grau. Outra dica é sempre agrupar as bromélias com plantas que exigem os mesmos cuidados que elas", diz.
 
A paisagista explica que a composição do jardim com essas epífitas tende a variar conforme o local, o meio, a insolação e o estilo paisagístico. Uma sugestão é associá-las a Cycas (cica), Asplenium (asplênio; ninho-de-passarinho), Philodendros (filodendro), Agaves e até mesmo a seixos de vários tamanhos nos canteiros.
 
Bromélias e o ecossistema
 
Em estudo realizado pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), a partir de 2005, foram registradas cerca de 300 espécies de animais (especialmente insetos) associadas às bromélias da Mata Atlântica, o que mostra sua importância na manutenção da fauna do bioma do qual essa família faz parte. Na pesquisa, uma das frentes preocupa-se em identificar os tipos de insetos que frequentam a água contida nos tanques das bromélias, especialmente quando se trata de mosquitos.  
 
No entanto, as bromélias lideram a lista de espécies ameaçadas da Mata Atlântica, devido à coleta indiscriminada. Por isso, antes de pensar em um jardim com bromélias, certifique-se sobre a sua procedência. Para ajudar a evitar a extinção, compre apenas exemplares cultivados em viveiros. 
 
Segundo o entomologista do Instituto Osvaldo Cruz, Rafael Freitas, o Aeds tem hábitos oportunistas, ou seja coloca ovos em qualquer reservatório com pouca matéria orgânica. Conforme mostra uma pesquisa realizada pela em parceria com a Fiocruz (veja box), em ambientes urbanos as larvas podem ser encontradas nas bromélias, mas em quantidades ínfimas, o que faz das plantas ambientes inócuos.
 
No entanto, o entomologista recomenda evitar o grande acúmulo de água nos tanques das bromélias e não recomenda encharcar o vegetal com água e, sim, borrifá-lo.
 

Como plantar

- Não deixe as raízes encharcadas. O excesso de água prejudica o bom desenvolvimento da planta
- Não enterre demais as bromélias. Mantenha a base das folhas sempre acima do solo
- Não use um vaso muito grande, pois há perigo de umidade excessiva nas raízes
- Fixe bem a planta e, se necessário, estaqueie-a até que as raízes estejam bem desenvolvidas de modo a proteger  a evolução do vegetal
- Bastante claridade com luz difusa é a condição ideal para a maioria das bromélias: as de folhas rígidas, estreitas e com espinhos precisam de mais luminosidade; as de folhas mais largas e macias, de cor escura, preferem a sombra. Porém, atente-se: a incidência de luz é necessária
- Faça uma camada de cacos de telha ou pedriscos no vaso, que deve ser furado nas laterais ou no fundo, para garantir a boa drenagem

Como cuidar

- Não troque a água das bromélias cultivada em vasos 
- Apenas acrescente água quando necessário, diretamente no tanque ou roseta da bromélia e em pequena quantidade, nunca na base da planta. No verão, as regas devem acontecer de três a quatro vezes por semana e no inverno de uma a duas vezes 
- Pulverize as plantas com água, quando a temperatura for superior a 30°C ou quando a umidade do ar estiver muito baixa 
- Apenas folhas secas devem ser retiradas, pois as bromélias não demandam podas 
- A adubação pode ser foliar com NPK 10-10-10. Pulverize o produto somente nas folhas e siga as instruções do rótulo 
- De modo geral, bromélias são muito resistentes a pragas, mas caso apareçam é sinal de que ela não está se adaptando ao meio. Observe a insolação e mude o vaso de lugar se necessário
Fonte: Eliane Fortino, arquiteta paisagista
 

 

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