Projetos

Casal faz de sua casa nos EUA um experimento artístico

Tony Cenicola/ The New York Times
A sala foi decorada com estêncis e chama a atenção a poltrona recoberta por pelúcia azul brilhante imagem: Tony Cenicola/ The New York Times

Penelope Green

Do The New York Times, em Catskill (EUA)

É uma espécie de sinal do comprometimento de Jared Handelsman e Portia Munson com a arte o fato de ele haver contraído a doença de Lyme  (vetorizada por um inseto) três vezes e, ela, duas. É também uma marca do quão ligados os artistas plásticos estão a sua propriedade – cerca de 34 hectares  de mata e jardins, que incluem um estupendo labirinto de mirtilo. Na Heart’s Content Road, pode ser difícil dizer onde termina a arte e começa a casa.

A “land art” (entre outras) dele

Aquele emaranhado de galhos perto dos troncos é um trabalho de Handelsman no bosque? Não. Eles foram deixados pelo rio depois da inundação causada pelo furacão Irene. Mas se você olhar em direção ao morro perto do cemitério, pode ser que veja um grande seixo pendurado por um cabo de aço amarrado ao tronco de um carvalho.

Handelsman, cujas instalações específicas para determinados locais lembram Robert Smithson, agora se dedica a fotogramas, utilizando papel fotossensível para capturar o jogo dos faróis dos automóveis nas folhas caídas das árvores.

Ele é um homem que realmente se atira no trabalho: fica agachado sobre a vegetação rasteira perto da estrada e espera que os carros façam a curva. Então, levanta o papel para capturar a luz, como um trabalhador protestando com seu cartaz. (Tal prática o transformou em ímã de carrapatos, entre outras coisas). Todavia, seus fotogramas estão expostos em Nova York, na Galeria do Fordham University Center, no Lincoln Center, em uma coletiva chamada “Rockslide Sky”.

As coleções dela

Munson vem acumulando objetos plásticos cor-de-rosa e, depois, verdes (coisas como bonecas, bobes de cabelo e caixas de ovo), espalhando–os sobre mesas ou apertando-os em vitrines, desde que uma de suas coleções integrou a exibição “Bad Girls”, do New Museum, no começo dos anos 1990.

Recentemente, entretanto, a artista passou para o plástico azul. Encostada em uma pilha de madeira de proporções épicas (empilhadas em espiral, graças a Handelsman) está uma piscina azul que vai funcionar como contêiner para a a próxima instalação de Munson.

Apesar do calor, a família evitou a piscina durante todo o verão, desprezando-a como se fosse algo feio para os olhos – o filho dela, Zur, de 18 anos, sugeriu que a mãe a arrastasse para mais perto da estrada e a equipasse com uma geladeira antiga ou um sofá quebrado – mas Munson gostou de boiar dentro da piscina enquanto refletia sobre os elementos de sua próxima obra. “No século 21”, provoca a artista, “o plástico é só uma parte da natureza que nos cerca”.  

Aliás, ela também trabalha com plantas vivas. Este mês, seis de suas encantadoras mandalas caleidoscópicas – compostas por flores, insetos, animais mortos e o que mais ela encontrar no jardim em um único dia – tornou-se um painel elogiadíssimo em uma estação de metrô em Nova York, como parte do programa de arte da Metropolitan Transportation Authority. Feita com pétalas de hibisco e flores amassadas, a obra parece um vitral maluco.  

CASA-CELEIRO DE 1770, VEJA:

  • Randy Harris/The New York Times

    Casa de fazenda da década de 1770, em Accord,  foi reformada para ser usada como casa de campo

A casa como experiência artística

O centro de toda essa atividade artística é uma compacta casa de fazenda, datada do século 18, que está na família de Munson desde os anos 1930. E que, ao longo das duas últimas décadas, foi entusiasticamente ornamentada por Munson e Handelsman, ambos hoje com 51 anos, e detentores de uma premissa impetuosa: horror vacui [NT: medo de espaços vazios].

Cascas de árvore onduladas foram grampeadas às paredes do banheiro; a solução de Munson “para quem está muito sem grana e odiando o azulejo”, como ela mesma afirma. Na sala de estar, as paredes estão forradas com estêncis de flores criados e aplicados pela artista: são centenas de amores-perfeitos gigantes escaneados de cartões de visita e impressos psicodelicamente. No ambiente ainda há uma poltrona encapada por uma pelúcia brilhante e azul e, apesar de ter o espaço repleto de elementos e referências, há lamento na voz da artista que recorda faxina que eliminou muitos objetos do cômodo há pouco mais de um ano.

Além de povoar os interiores, as experiências se estendem pelos “muitos jardins” da propriedade, “espaços” verdes que se desdobram em novos espaços verdes, rodeados por cercas de galhos de cedro, árvores e pórticos feitos por Handelsman, cobertos com vinhas e galhos de árvores frutíferas. Há uma banheira em um, um chuveiro em outro.

Morando no trabalho

O casal de artistas mudou-se para a propriedade em Catskill há 20 anos, quando o local detinha uma cabana de caçador que não recebia sol, cheia de camas e abastecida por uma bomba de água manual. Os bisavós de Munson compraram a fazendinha durante a Depressão e deixaram o Brooklyn, em Nova York, pelo campo em uma espécie de expressão precoce do movimento “de volta à terra”. Porém, os filhos não ficaram, voltando a viver nas cidades seus subúrbios.    

“Quando mudamos, começamos a reinventar nossas vidas”, conta Munson. “Foi muito interessante, assim como fazer arte. Viemos de famílias suburbanas de classe média, que não possuem um passado de convivência com a natureza, então descobrimos nosso estilo de vida aqui, além de nossa arte, e unimos as duas coisas”.

Na época, os dois estavam no programa de Artes Plásticas no Rutgers. Handelsman lembra de trabalhar em sua tese enquanto cuidava do fogo da cabana de um antigo vizinho que produzia açúcar e com quem aprendeu a arte de fazer xarope de bordo (maple syrup).

A adaptação ao modo de vida do campo foi rápido. Handelsman abriu a mata, transformando as árvores que cortava em lenha empilhando-as em espiral. Então, como faz até hoje, o casal cozinhava e aquecia a casa com um forno a lenha. Além disso, o artista trabalhou como pedreiro e paisagista nos jardins dos vizinhos, angariando mais experiência ao ar livre, e aprendeu a escolher pedras da floresta, transportando-as com carrinhos de mão, para aplica-las a estes ambientes externos em calçamentos e no revestimento de bancos.

VEJA O PROJETO DA CASA DE LATA:

  • Sara Essex Bradley/The New York Times

    Casa pequena e pré-fabricada nos EUA é sensação arquitetônica há mais de uma década

Munson começou a escavar a terra ao redor da casa para um jardim (ou jardins, para ser mais preciso). Plantou flores para atrair abelhas e borboletas, depois árvores frutíferas, vegetais e ervas. Porém, antes garimpou fascinada o solo, retirando dele cacos de peças cerâmicas, botões, pedaços de bonecas, placas de identificação de cães: evidências de 300 anos de vida no local que ela guardou em bandejas de vidro, como faria uma arqueóloga.  

“Eu fiz uma bela busca arqueológica,” avalia. “Tínhamos baldes e mais baldes de coisas. Imaginei todas essas mulheres, as refeições que faziam, as flores que colhiam”.  

Museu doce lar

A reforma de uma casa de fazenda com 300 anos de história, sem ajuda e com recursos limitados, é um processo lento. Porém, além da casa, o casal adquiriu um celeiro detentor de uma arquitetura holandesa rara e antiga que ia ser demolido ali perto. Desmontaram a construção e a deixaram no campo, onde ficou por alguns anos, enquanto Handelsman - que se transformou em um tipo de expert em celeiros holandeses - aprendia como montá-lo novamente.   

Uma fundação de pedras que imitava a original sobre onde o celeiro fora construído foi assentada pelo artista. E, como os pregos de madeira que uniam a estrutura precisavam ser produzidos, Handelsman os recriou, derrubando nogueiras e esculpindo, assim, novas cavilhas.

O artista levou, enfim, quase oito meses para terminar o celeiro, que agora abriga o estúdio de Munson no andar de cima e o seu, no térreo. E, ao longo desse tempo, ele construiu outras estruturas: abrigado no pé de uma montanha fica o cantinho de produção de xarope de bordo, feito com um barco de alumínio virado de cabeça para baixo. Sobre uma curva do rio há uma casa na árvore que Handelsman construiu para os dois filhos, Zur e Fredda, que hoje tem 13 anos. Quando eles deixaram de se interessar pela casa, o artista a transformou em uma imensa câmara escura.

Mas sua obra magna talvez seja a espiral de mirtilos. Inspirado por um passeio por entre labirintos que a família havia feito na Inglaterra, Handelsman começou a plantar as frutas na forma de uma espiral dupla, “uma imagem comum no período neolítico”, avalia ele. A primeira espiral, com mais de 200 arbustos e dez variedades, está agora completa. Ele estima que vai levar 15 anos para terminar a segunda estrutura e mais outros 15 para que o labirinto cresça completamente. A colheita dá mais de 95 litros de mirtilo por estação, que eles congelam e usam ao longo do ano.

Seis anos atrás, um incêndio destruiu a casa da fazenda. Handelsman lutou contra ele com uma mangueira de jardim até a chegada dos bombeiros. Mas uma boa consequência, segundo Zur, é que eles refizeram o telhado e instalaram isolamento térmico, o que significa que ele não precisa mais dormir com seu chapéu ou usar luvas enquanto lê nos meses de inverno. Miraculosamente, o banheiro com cascas de árvore sobreviveu intacto. 

“Nesta época do ano”, conta Munson, “Jared está caçando sombras e eu estou atrás das flores, que estão indo embora rapidamente, assim como a luz”. Plástico, entretanto, existe em abundância. Este foi um bom mês para recolher refugos.

Munson vem explorando vendas de garagem em busca de objetos azuis e pescando no entulho do vizinho, que está se mudando. Um barracão está entupido com sua pilhagem plástica, que ela também encontra na beira da estrada, nas pilhas de produtos gratuitos de lojas baratinhas e que, às vezes, ganha de amigos. Há banheiras de coisas separadas por cores, um amontoado de material para a instalação no contêiner-piscina. “Vai ser lindo. Mas também meio repugnante”.

Tradutor: Erika Brandão e Daiana Dalfito (edição)

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