Design

Design camaleão esconde e funde estrutura, objetos e móveis da casa

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A cadeira dobrável da marca Folditure pode ser compactada até atingir apenas 2,5 cm de espessura imagem: Divulgação/ NYT

Jesse McKinkey

Do The New York Times, em Nova York (EUA)

A primeira coisa que você percebe ao entrar na sala de Patrick McInerney é que não há nada para ser visto. As paredes estão vazias, assim como o teto. Você tenta acender a luz, mas parece que não há interruptor. Há música tocando, mas de onde ela vem? A lâmpada, claro, está funcionando – afinal de contas está acesa – mas parece que ela está ligada no… gesso?

Parte ilusionista de interiores, parte “anoréxico estético”, McInerney é um membro praticante do culto do design do desaparecimento, o ethos “agora você vê, agora não vê mais” que visa esconder qualquer coisa que precise de um botão, um fio ou um subwoofer para funcionar. É uma paixão que McInerney, um arquiteto de 44 anos de San Diego, leva a sério, comparando seu ímpeto em simplificar com o processo da escrita de um romance.

“Cada palavra é considerada e refinada, não somente pelo seu significado, mas também pela relação com as outras palavras”, explica. Realmente, mais do que simplesmente esconder o sistema de som em um armário ou jogar um xale sobre o divã, a estética da invisibilidade busca um objetivo maior: criar espaços unificados que fluam de uma sala para outra sala, de um lugar para outro.

“Estamos interessados em ter nosso trabalho refletido e integrado à estrutura do ambiente”, afirma Rene Gonzalez, arquiteto em Miami. “Pensamos em compartimentos que possam se dissipar e desaparecer, para que a parte externa e a interna infiltrem-se uma na outra”, esclarece.

Esconde-esconde

Impulsionado pela tecnologia e por uma certa engenhosidade, este tipo de design busca objetivos como o “campo de visão zero” (ou seja, instalações que não podem ser vistas de perfil), ou a criação de superfícies sem emendas aparentes e sem sombras. Os truques são abundantes e sempre james-bondianos: os interruptores de luz estão camuflados para parecerem parte da parede e as luminárias escondem-se por trás de pequenas aberturas; gavetas sem puxadores se abrem com um toque do dedo, enquanto mesas de jantar são dobradas até ficarem com menos de 2,5 cm de largura. 

Um dos maiores defensores da decoração invisível é a marca Trufig, que oferece todo tipo de design disfarçado, como tomadas e entradas para cabos de dados que se misturam com o fundo. A Trufig se vende como “solução de design revolucionário” que se baseia em uma regra rigorosa: “seja completamente embutido”. Tudo isso, a marca promete, vai aliviar profundas e desagradáveis dores “à vista”, incluindo as causadas por dispositivos que “se projetam da parede ou do teto e criam linhas de sombra que distraem”.

MÓVEIS VANGUARDISTAS
PARA ÁREAS EXTERNAS

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“Infelizmente, o código, a segurança e a conveniência ditam que certos objetos e aparelhos estejam ali”, como diz o prospecto da empresa, que também traz a fotografia de um camaleão em frente a uma parede de mármore. “Mas eles precisam ser intrusos visuais?”

Em um nível mais prático, menos superficial, o design da invisibilidade tem como objetivo maximizar a estrutura do móvel/imóvel (particularmente em pequenos apartamentos urbanos) e minimizar o “ruído visual” criado por coisas como puxadores volumosos, ventiladores propensos a juntar poeira e o calcanhar de Aquiles de muitos decoradores: a TV de tela plana. 

“As pessoas gostam, cada vez mais, de visuais limpos”, defende Alexandra Mathews, vice-presidente de vendas internacionais e marketing da Lucifer Lightning, com sede em San Antonio. “É agradável estar em um local onde você não é forçado a ficar olhando para várias coisas”, completa.

Mas Mathews e outros seguidores desse estilo, digamos, minimalista admitem que ele não é para qualquer um. “Tem gente que gosta de hardware e de desordem”, afirma a executiva. Porém, há várias provas que esse visual com toques modernistas está na moda. Uma evidência é a popularidade tanto dos móveis da Ikea quanto dos iPads. (O primeiro por ser uma marca de perfil minimalista voltada para o mercado de massas, o outro por não ter, basicamente, botões).

B. Alex Miller, sócio da Taylor & Miller Architecture em Nova York, concorda, acrescentando que o debate entre exibir e guardar coisas é permanente. “Vá a qualquer escritório de arquitetura da face da terra, é uma briga que acontece diariamente”.

Ferramentas

Joesph Tanney, no Resolution: 4 Architecture, explica que a luz refletida é uma ferramenta muito útil para a dissimulação de móveis e objetos. Algo que ele empregou em uma parede com nove metros e gabinetes para utensílios domésticos escondidos que ele recentemente projetou para um apartamento de Nova York. Feito de MDF, e envolto por acabamento Thermofoil brilhante, o recurso cria um efeito “macio” e arejado. “A sensação ali dentro é de estar em uma nuvem”, Tanney descreve.

Muito do atual "design ilusório" foi originado décadas atrás pelos "curiosos" que desmontavam produtos manufaturados (alto-falantes e sintonizadores, ventiladores de teto e cooktops) a fim de encontrar maneiras de deixá-los mais atraentes. O processo logo seria incorporado por alguns designers que ofereciam essa possibilidade a preços exorbitantes.

"É uma coisa que arquitetos e designers vêm querendo fazer há anos, mas sempre foi extremamente luxuosa, exclusiva e personalizada", esclarece Rob Roland, vice-presidente executivo da Dana Innovations, na Califórnia, empresa-mãe da Trufig. “O que está começando a acontecer é que o design está descendo a pirâmide”.

Na casa toda, C.C. Sullivan, porta-voz da Lucifer, é capaz de delinear os pontos onde os elementos tradicionais estão desaparecendo ou se tornando menos inconvenientes, incluindo cooktops, eletrodomésticos de cozinha, acessórios de banheiro, frentes de gavetas, rodapés, armários de remédios e esquadrias de janelas.   

Design ambientalmente
responsável e atraente

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Muitos dos dispositivos, tecnológicos por natureza, são desenvolvidos para substituir ou esconder outros não-estéticos. Por exemplo, uma década atrás, TVs de tela plana pareciam ser a resposta aos racks gigantes das décadas de 1950 e 1960. Mas o crescimento das telas se tornou um novo desafio.

Como resposta, a empresa Séura, em Green Bay, no Wisconsin, vende uma linha de TVs que "desaparecem" e funcionam como grandes espelhos quando não estão em uso. A empresa oferece mais de cem molduras para os aparelhos, que vão do estilo elegante aos coloridos que iriam, aparentemente, contra a proposta de esconder a televisão.

Por sua vez, a Modern Doors Direct, em Miami, disponibiliza portas sem batente que prometem linhas limpas, um visual europeu e, ao que parece, uma melhor vida sexual. “Linhas limpas e lençóis amarrotados”, anuncia a propaganda no site, exibindo duas pessoas - muito bonitas - apaixonadas. “Portas elegantes e sem junções levam a uma vida além deste quarto”.

Precursoras: as camas embutidas

Falando em preparativos para dormir, um dos primeiros defensores do design invisível foi William L. Murphy, inventor da cama embutida no armário no início dos anos 1900. Desde então, muitos tentaram melhorias na cama de Murphy, com variados níveis de sucesso.

Pegue o sistema Bed Up Down, que permite que um colchão se materialize aparentemente dos céus, caindo em qualquer espaço disponível (na verdade ele é baixado de um compartimento no teto). O site (em italiano) da empresa é positivamente animador sobre o leito que levita. “Up Down Bed é a cama que não se preocupa com o espaço e, sim, o cria!”, defende a propaganda.

O designer francês Rene Bouchara também tem uma versão da cama escondida, uma superfície retrátil brilhante e branca, que não ficaria fora de contexto no cenário do filme "2001: Uma Odisséia no Espaço". Do mesmo jeito, Bouchara criou um aparador quase invisível, vendido no Roche Bobois, feito quase que completamente de vidro incolor, algo que deve ser muito divertido em uma casa com crianças superativas ou animais de estimação facilmente enganáveis. 

Transparência e simplicidade podem ser táticas eficientes, mas Murphy, o arquiteto de Nova York, percebeu que complexidade funcionaria tão bem quanto. Para um salão de cabeleireiros que sua empresa recentemente projetou, a abordagem previu a cobertura de todas as superfícies com estantes de madeira (até mesmo no teto), criando o que ele chama de "complexo de espaço waffle." O resultado foi um ambiente monocromático que fez com que o salão ficasse mais aconchegante, segundo o profissional.

Das guloseimas para a dieta de volumes

Apesar da experiência com "waffles", as superfícies planas e lisas tendem a ser mais comuns ao design do desaparecimento. A Fisher & Paykel produz fogões com cobertura brilhante e plana e controles situados no mesmo plano do cooktop de cerâmica vitrificada. Sem aquele painel traseiro bagunçado, sem botões frontais engordurados. E o fogão todo tem menos de dez centímetros de altura.

Mas isso é quase volumoso se comparado à mesa e às cadeiras projetadas pela Folditure, da qual as peças futurísticas e desmontáveis continuam uma tradição de mobília dobrável, que dizem datar do antigo Egito. Mesa e cadeira, conhecidas como O Grilo e a Folha, se dobram até ficarem com menos de 2,5 cm de espessura, o que significa que você pode pendurar as cadeiras do jantar no mesmo armário onde você guarda os casacos dos convidados.

Dobradura é também a ideia por trás de um box conceitual da Duravit, uma companhia alemã que afirma ser especializada em "banheiros contemporâneos para pessoas contemporâneas." O espaço para o chuveiro OpenSpace vem com duas portas traváveis que se encostam à parede depois que você acabou de se esfregar. As portas também podem ser revestidas por uma superfície reflexiva, fornecendo um espelho de corpo inteiro.

Não consegue se ver através de todo o vapor? Bem, aí é quando entra o exaustor embutido do designer ucraniano Michael Samoriz. Ejetável, o equipamento volta ao nicho na parede após o trabalho feito. A parte externa do exaustor é projetada para se mesclar às superfícies do azulejo e a única indicação de que este dispositivo não é apenas uma peça na composição do mosaico é uma fina faixa de LEDs à sua volta.

E enquanto estamos falando sobre dobrar e retrair, por que não adicionar alguma deterioração à mistura? Giovanni Tomasini, um designer italiano com certa queda por coisas pequenas, projetou um gnomo de jardim que se dissolve. Criado com materiais de compostagem, as esculturas de Tomasini se desintegram vagarosamente fornecendo adubo a gramados e canteiros.

Arquitetos como McInerney, claro, esperam que os visitantes levem imagens mais agradáveis de seus trabalhos. E, em sua casa em San Diego, este esforço está em toda a parte - e em lugar nenhum - ao mesmo tempo: os alto-falantes surpreendentemente sutis no teto, por exemplo, estão perfeitamente integrados à textura e à cor do gesso. Da mesma forma, a luz se projeta por aberturas e orifícios e não por instalações visíveis. E as luminárias que estão à vista são ligadas às saídas que também estão integradas ao acabamento de gesso.

Tudo isso parece ser ao mesmo tempo a confirmação de uma das crenças há muito mantidas de McInerney sobre design: "A arquitetura é feita por muitas partes únicas, que devem ser unidas." "É tão simples", afirma, "por que demorou tanto tempo para ser feito?"

Tradutor: Erika Brandão e Daiana Dalfito (edição)

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