Vida em casa

Prevenção é melhor método de combate a pernilongo

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Pernilongos e mosquitos se reproduzem com maior facilidade nos meses de calor intenso imagem: Getty Images

Simone Sayegh

Do UOL, em São Paulo

Zumbido irritante no ouvido à noite, picadas que não param de coçar e até pequenos arranhões com sangue. É difícil encontrar quem não tenha sido vítima dos pernilongos no verão. De acordo com o biólogo Ademir Martins, pesquisador do Laboratório de Fisiologia e Controle de Artrópodes Vetores do Instituto Oswaldo Cruz, os chamados insetos antropofílicos - que se alimentam de tecido humano - são aqueles que vivem e se reproduzem em meio à água limpa ou suja, especialmente nos meses mais quentes (temperaturas entre 23º a 27º C) e chuvosos do ano.

Os mais comuns são os dos gêneros Culex, como o Culex quinquefasciatus, e Aedes, como o Aedes Albopictus (vetor da dengue e febre amarela em outros países), o fluviatilis e o aegypti, esse último importante vetor da dengue no Brasil. O Culex é o pernilongo que costuma infernizar o sono da população – e, também, das autoridades de saúde pública.

  • O pernilongo adora água parada e suja; o rio Pinheiros, em São Paulo, é seu habitat ideal

Segundo Eduardo Joseph Sayegh, bioquímico especialista em pragas urbanas, na região sudeste e central não existem relatos de transmissão de doenças pelos pernilongos comuns, ao contrário do mosquito da dengue, mas pela alta incidência de indivíduos, a espécie ganhou o status de praga.
 
Diferentemente dos insetos do gênero Aedes, os Culex costumam colocar seus ovos em águas sujas com baixo ou nulo teor de oxigênio e alta concentração de matéria orgânica. Por conta disso, rios poluídos como o Pinheiros e o Tietê, em São Paulo, são criadouros amplos e com condições perfeitas.
 
O combate desses mosquitos, claro, depende de uma ação conjunta entre população e governo. Mas, enquanto o poder público não atua, o que cada cidadão pode fazer, em especial dentro de casa, para se proteger? A resposta é simples, mas muito mais complexa e eficaz do que o fácil apertar de uma válvula de inseticida: trata-se de prevenção.
 
De acordo com o biólogo sanitarista Paulo Roberto Urbinatti - pesquisador do laboratório de entomologia da Faculdade de Saúde Pública da USP -, a primeira medida é instalar barreiras físicas como telas protetoras nas portas e janelas, assim como mosquiteiros em camas e berços. Para evitar a criação do pernilongo comum, porém, limpe e tampe caixas de gordura, canalize esgotos a céu aberto e elimine os depósitos de água suja e parada.
 
Já criadouros do mosquito da dengue são evitados com o descarte de recipientes que acumulam água, o depósito de areia nos pratos de plantas, a limpeza e secagem das calhas e de toda estrutura da casa que possa empoçar água limpa. Ao colocar areia nos vasos, cheque se o prato não está molhado e, se possível, lave-o e seque-o. O ideal é limpar os recipientes com palha de aço ou escova, no mínimo, uma vez por semana. “Os ovos chegam a ficar grudados nas paredes dos vasos de plantas por até um ano. Portanto, o importante é eliminar a água para que o ovo não seja recoberto e libere a larva ”, explica Martins. “Não descarte a água contida nesses recipientes em água corrente, jogue o líquido na terra e cubra com mais terra ou cimento”, completa.
 
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    Os tradicionais mosquiteiros são bons métodos de barreira noturna para pernilongos e mosquitos

Segundo informações do Instituto Oswaldo Cruz, as formas de prevenção caseiras, como usar vitamina do complexo B, borra de café, água sanitária, levedo de cerveja, vela de andiroba e inseticida têm suas limitações e até contraindicações. O levedo e o complexo B não devem ser ingeridos como repelentes, pois, nas dosagens capazes de afugentar os mosquitos, podem ser prejudiciais à saúde.
 
Com relação à borra de café, não existe comprovação científica que garanta a sua eficácia, principalmente por conta das dosagens recomendadas – duas colheres de sopa de borra em cada pratinho de planta da casa. Já a água sanitária não se faz eficaz na inibição da eclosão das larvas nas dosagens indicadas (uma colher de chá para um litro d'água) e não há estudos que indiquem a viabilidade do uso em maior concentração.
 
A queima da vela de andiroba tem uma certa eficácia em afugentar mosquitos se, segundo os especialistas, usada em ambientes com máximo 12 metros quadrados. “Produtos caseiros são paliativos, não duram o tempo todo e muitas vezes sequer há informações sobre a procedência ou garantia da ausência de contaminação por bactérias. Portanto, a melhor proteção é mesmo não deixar a água acumular”, pondera Martins. 
 
Já os repelentes tópicos podem ser usados seguindo as recomendações da embalagem ou dos médicos, mas eles não evitam a presença dos mosquitos no ambiente. É preciso cuidado também com os inseticidas. “Não adianta aplicar o  inseticida contra o pernilongo adulto, o combate efetivo é acabar com os criadouros”, explica Eduardo Sayegh. Com relação ao uso indiscriminado dessas substâncias, Martins alerta para o surgimento de classes de mosquitos imunes aos produtos. “A OMS (Organização Mundial de Saúde) só regula duas classes de sprays para insetos, ou seja, além de poluir o ambiente estamos selecionando mosquitos cada vez mais resistentes”, afirma o biólogo. 
 
O que cobrar do governo?
 
Para combater o pernilongo são necessárias ações de saneamento básico em esgotos e canais a céu aberto, repositórios perfeitos de ovos e larvas.  Segundo Eduardo Sayegh, essas políticas deveriam envolver controle e poda de plantas aquáticas nas margens dos rios contaminados, onde a corrente de água tem sua velocidade diminuída. “O Culex adora água parada e suja, o rio Pinheiros, em São Paulo, é seu lugar ideal”, aponta. Ainda segundo o bioquímico, nessas águas poderiam ser aplicados de maneira controlada larvicidas e adulticidas (para atingir insetos adultos). 
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    Inseticidas devem ser usados com cuidado, porque os mosquitos criam resistência a eles

 
Em relação ao mosquito transmissor da dengue, os municípios devem empreender um constante monitoramento de possíveis focos em residências, prédios públicos, hospitais, desmanches e qualquer lugar onde água limpa possa ser empoçada. Além disso, é importante transformar, por meio de campanhas publicitárias, cada cidadão em um agente de combate ao mosquito que se desenvolve em pequenos recipientes, próximos à linha da água limpa e parada.  “A dengue é uma questão de saúde pública e como tal deve ser tratada”, enfatiza o bioquímico. Para fazer denúncias de focos e criadouros à prefeitura de São Paulo, ligue: 156. No Rio de Janeiro, o telefone é 1746. No geral, o órgão responsável por receber as chamadas é a Secretaria de Saúde, informe-se.
 
Hábitos e reprodução
 
Cada espécie de mosquito comporta-se de maneira diferente, mas, em geral, vírus, bactérias e protozoários que causam doenças são transmitidos pela saliva do inseto, expelida no momento em que a fêmea pica. Na verdade, macho e fêmea se alimentam mesmo da seiva das plantas e de soluções açucaradas. Mas a fêmea precisa do sangue como meio de maturar seus ovos. “Uma única fêmea de Aedes aegypti fecundada é capaz de originar cerca de 1,5 mil mosquitos durante sua vida, pois em cada postura há o depósito de cerca de 150 a 200 ovos em diferentes recipientes”, esclarece Urbinatti.
 
Quanto ao ciclo biológico, segundo o biólogo, os mosquitos apresentam uma evolução completa composta por ovo, larva (em quatro estágios), pupa e adulto ou alado. As formas imaturas (ovo, larvas e pupa) se desenvolvem no ambiente aquático e a adulta no ambiente terrestre. Ao acasalar, a fêmea recebe o esperma do macho e é capaz de guardá-lo por toda a vida, na chamada espermateca. “Ela se alimenta do sangue e, à medida que produz um ovo, ele é inseminado por um espermatozoide”, completa o biólogo.
 
Algumas espécies de mosquitos depositam seus ovos diretamente na superfície da água (como o Culex quinquefasciatus),enquanto outras o fazem na parede do recipiente, próximo ao nível do líquido (Aedes aegypti). A fase aquática dura cerca de dez dias, e depois de adulto, um mosquito vive cerca de 20 a 30 dias.
 
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