Jardinagem e paisagismo

Em NY, jardins e hortas ajudam a revitalizar a cidade e integrar pessoas

Robert Wright/ The New York Times
Uma trepadeira floresce junto as grades da "Tranquility Farm", no Brooklyn, em Nova York imagem: Robert Wright/ The New York Times

Michael Tortorello

Do The New York Times, em Nova York (EUA)

Nova York precisa de mais jardins, correto? O interessante na cidade é que a mobilização por novas áreas verdes parte tanto do poder público quanto da comunidade o que têm gerado espaços “do nada”, muitos deles hortas cultivadas de modo comunal. O prefeito Michael R. Bloomberg criou uma inciativa sustentável chamada PlaNYC e pede aos órgãos municipais para identificar lotes vagos que possam ser reivindicados para a agricultura urbana.

Propostas de hortas também brotaram dos escritórios da porta-voz do Conselho Municipal Christine C. Quinn (FoodWorks) e do presidente do distrito de Manhattan Scott M. Stringer (FoodNYC). Mais perto das raízes (não é um trocadilho), o grupo de advocacia de jardins do Brooklyn, 596 Acres, criou um banco de dados e um programa de sinalização para incentivar o cultivo dos terrenos vazios da cidade. Com toda essa nova propaganda, “recebemos cerca de três ou quatro pedidos por semana”, contabiliza Edie Stone que chefia as análises de pedidos ao GreenThumb, o programa de jardins comunitários do Departamento de Parques e Recreação da cidade de Nova York.

Stone, 46 anos, se mostra muito grata por todo o apoio oficial. Afinal de contas, ela passou anos de sua vida na luta contra o último prefeito, Rudolph W. Giuliani, e seu esquema do final dos anos 1990 que previa a venda dos jardins da cidade. Todavia é difícil imaginar que Bloomberg e seus colegas terão tempo para dirigir um velho Ford F-150 carregado de adubo e podar pessegueiros. 

Quem realmente fará o serviço é uma pergunta interessante e que talvez não tenha sido necessariamente levantada, em meio ao crescente entusiasmo. “Todos assumem que há uma lista infinita de pessoas esperando por um local para jardinar”, pondera Stone, para logo arrematar: “Não estou convencida”.

Há evidências, de fato, que a maioria dos novaiorquinos não possui um apetite ilimitado por cultivar sua própria couve. O número oficial de jardins em NY é fragmentado. Mas John Ameroso, pioneiro do movimento dos jardins e hortas comunitários da cidade, suspeita que o número atual – cerca de 800 – seja a metade do que era em meados dos anos 1980.

Há hortas, mas não cultivo

Em sua longa carreira como agente de expansão urbana da Universidade de Cornell, Ameroso, 67 anos, manteve um registro com notas para todos os lotes que visitou. “Lembro que havia muitos jardins que não estavam sendo aproveitados ou que eram pouco utilizados”, comenta. “No final dos anos 1980, muitos deles desapareceram ou foram abandonados. Nada se desenvolveu ali, havia apenas mato.”

A verdade, revela Stone, é que em qualquer época, talvez dez por cento dos quase 600 jardins GreenThumb registrados na cidade produza ervas daninhas. “No Leste de Nova York, posso dizer que atualmente há muitos jardins com praticamente nenhuma produção.” O GreenThumb tem um desejo e um meio de revitalizar estes espaços públicos. Quanto ao financiamento – bom, há muito adubo circulando por aí. O departamento de parques administra um orçamento de US$ 600 a US$ 800 mil por ano, a maior parte em conjunto com o Fundo Federal de Desenvolvimento Comunitário Local, designado para áreas mais carentes. A partir desta união de valores, uma horta típica recebe cerca de US$ 600 em apoio e materiais.

Contudo são os voluntários que arcam com as responsabilidades de manter os terrenos e de abrir os portões para o público por 20 horas por semana (entre 1 de abril e 31 de outubro). Uma pesquisa feita em 2009, encomendada pelo GreenThumb, mostrou que a média dos jardins comunitários trazia 29 membros em suas listas oficiais. Mas muitos espaços cultiváveis – quase dez por cento, na realidade – lutam para manter o mínimo de dez voluntários que a agência exige para renovar o cadastro.

A “fazenda”

Um censo honesto revelaria que muitas hortas (talvez a maioria delas) dependem de somente uma ou duas almas incansáveis, disse Ena K. McPherson, uma organizadora de jardins no Brooklyn. Ela sabe disso porque é uma delas. McPherson tem a chave de três hortas comunitárias em Bedford-Stuyvesant e trabalha no comitê de operações para o Fundo Brooklyn Queens Land, organização sem fins lucrativos, que mantém as escrituras de 32 lotes de jardim. 

“Na situação ideal, teríamos jardins com todos da comunidade participando”, comenta McPherson. Em uma tarde de verão, McPherson estava visitando a Fazenda Tranquility, na esquina das avenidas Willoughby e Throop. A “fazenda” no nome reflete o otimismo característico de McPherson: o terreno de 500 m² tem um banco, um galpão, um galinheiro vazio, um compartimento de compostagem, um receptor de águas de chuva e uma ou duas árvores frutíferas.  

A parte da tranquilidade é verdadeira. “Há um ano, era só um terreno baldio”, conta. A casa de McPherson, datada de 1899, fica logo na esquina e ela gosta de dizer que todos os vizinhos apoiam o cultivo do jardim. Eles só não sabem ainda. McPherson cumprimentou com a cabeça um homem de meia idade vestido com uma camisa branca, passando lentamente pela cerca com sua bicicleta. “Este é um de nossos apoiadores”, diz a “jardineira”. “Ele anda de bicicleta por aqui o tempo todo. Ele para e acena. Mas não consigo fazer com que ele entre e trabalhe”, conclui.

Um apoiador mais vigoroso tem sido o grupo ativista Green Guerillas e seu diretor executivo, Steve Frillmann. Com um orçamento de US$ 430 mil e um quadro de três funcionários em tempo integral, além de dúzias de outros trabalhadores temporários, estes organizadores de algum modo conseguem trabalhar em 300 jardins por ano. 

Durante dez anos o grupo manteve um escritório regional na vizinhança, e Frillmann passava pela “fazenda” de McPherson na hora do almoço. “Se você deixar os portões abertos, as coisas vão acontecer”, ele afirma. “As pessoas vão entrar e perguntar se podem pegar um pouco de manjericão. E vão querer deixar ali seu adubo”.

Jardins, hortas e a recuperação das pessoas

McPherson e Frillmann passaram por três casas na direção norte e chegaram em outro local da Grande Área de Ena McPherson. Esta era a Associação do Jardim do Quarteirão das avenidas Vernon/Throop, que estava adormecido depois da morte de sua fundadora, uma “Miss Minnie”, que McPherson lembra como “uma força a ser levada em consideração”. No local, há um gazebo e um banco erguidos por um grupo de adolescentes “de risco”, através de um programa escolar chamado Urban Workshop.

“Eles não queriam estar aqui”, continua McPherson. “Tivemos que dar comida para que ficassem. Eles vagabundeavam e chegavam aqui com seus tênis caros que envolvíamos com sacolas plásticas”. E agora eles acenam toda vez que passam em frente ao trabalho. Pelo menos três dos jardins da comunidade de Bedford-Stuyvesant parecem estar em boas mãos.

Os jardins originais acompanharam os terrenos vagos da cidade que, em 1978, somavam 32 mil. Ameroso, apesar de formado em Agronomia, os apontou como instrumentos de renovação da comunidade. “Como reassumir o seu quarteirão?” ele questiona, “coloque ali um jardim comunitário e pare de jogar lixo”.

Stone, que se descreve - rindo (e sinceramente) - como socialista, defende: “Todos os marginalizados da sociedade – e não estou usando este termo para julgar ninguém, são as crianças, os idosos, pessoas com deficiências, os 47 porcento – estas pessoas são a força motriz da área verde”.

Agricultura urbana

Atualmente, Ameroso adota o que ele chama de “modelo de agricultura urbana”: uma horta pode ser gerida por um mercado dedicado ou um hortifruti da comunidade local. “A agricultura urbana está florescendo”, defende. “As pessoas estão muito empolgadas com isso. Estão ativos oito dias por semana.” Mas “jardins comunitários como aqueles, aonde as pessoas vêm cuidar de suas próprias plantas, estes não estão vingando”.

É quase um clichê apontar que este novo modelo verde e pontual de cultivo parece ter atraído cultivadores com um tom de pele diferente. “Na época”, Ameroso fala sobre o começo de sua carreira, “quando trabalhávamos no Bronx ou em Bedford-Stuyvesant, eram comunidades quase que só de negros. Agora, quando falamos sobre agricultura urbana, vemos brancos de 30 anos”.  

O que explica esta mudança demográfica? “Eu não tenho ideia”, ele responde. “Ainda continuo perplexo com isso, e estou envolvido no processo todo”, conclui.

No Bronx: jardins para quem cuidar

Na esquina da avenida St. John com a Kelly St., no sul do Bronx, o jardim chamado  Demera Santiago, está abandonado. Ursula Chanse, 38 anos - diretora do Bronx Green-Up, um braço do Jardim Botânico de Nova York -, e Sara Katz, 31 anos, horticultora da comunidade, visitaram o local. Em qualquer estação, elas espalham por 70 jardins sementes, plantas, vasos, adubos, workshops e conselhos gerais sobre horticultura.

Infelizmente, Demera Santiago não foi um favorecido. Katz apontou para a escola do outro lado da rua. “O diretor deles ligou para a gente”, ela se lembra, “e disse: ‘alguns dos nossos alunos gostariam de usar o jardim’” para projetos escolares. Este distrito eleitoral é um bom começo. Geralmente, disse Chanse, “alguém me liga e diz: ‘Tem aqui um terreno baldio. Vocês podem assumir?’, e nós nunca vamos fazer isso. Se você simplesmente faz um jardim e não há um grupo dedicado de pessoas para cuidar dele, nada vai funcionar”.

Katz inspecionou o “Denera”: “Bem aqui na frente temos um salgueiro saca-rolhas. Não é uma dessas árvores selvagens que aparecem naturalmente, como árvores-do-céu ou amoreiras.” Chance observa: “Ele não está totalmente cheio de lixo” e Katz concorda, “com certeza alguém limpa aqui”.

“Alguém” é a comunidade do Bronx, “52 Pessoas pelo Progresso”, e seu presidente, Al Quinones. É verdade que as correntes raramente saem do portão da frente, contou Quinones, que está ocupado cuidando do playground ao lado, como vem fazendo há mais de 30 anos. Parte do espaço é o Jardim William Rainey, que está sempre aberto, ele afirma, para que “as pessoas entrem e leiam um livro ou comam seu lanche”. 

Mas Quinones, de 56 anos, não consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo. “Não sou um polvo”, justifica-se. E Demera Santiago sofre com isso. Então, mais uma vez, os vizinhos devem ter esquecido como era o local: “Criamos um oásis onde antes era um depósito de lixo”, conta Quinones. “Era um terreno com entulho espalhado, cheio de carros.”

“Se Santiago Demera fosse aberto”, o morador do bairro  Dewerys Vasquez afirma, “eu iria ensinar sobre plantas para meus filhos. Esta seria uma ótima ideia.”

Tradutor: Erika Brandão e Daiana Dalfito (edição)

Topo