Casa e decoração

Donas de casa, histórias e rotinas: conheça mais da profissão "do lar"

Leandro Moraes/UOL
A dona de casa Maria de Lourdes Derobio Petroni, 83, arruma e limpa seu apartamento onde mora sozinha imagem: Leandro Moraes/UOL

Karine Serezuella

Do UOL, em São Paulo

“Adoro ver minha casa toda arrumadinha”, diz a dona de casa Maria de Lourdes Derobio Petroni, 83. E afinal, quem não gosta? Para deixar todos os ambientes bem limpos e organizados, os afazeres domésticos são essenciais. Com a contratação ou não de diaristas, empregadas ou faxineiras, com ou sem a participação dos maridos, as mulheres se desdobram para gerir o lar – se dividindo entre outra jornada de trabalho ou então dedicadas em tempo integral aos cuidados da casa e da família.

As diversas tarefas de arrumação e limpeza, muitas vezes notadas somente quando estão por fazer, o zelo com os filhos e a administração doméstica evidenciam o trabalho das donas de casa como uma legítima ocupação, mesmo que não-remunerada. Veja as histórias e rotinas das mulheres entrevistadas e conheça um pouco mais desta profissão “do lar”.

Sim, sou dona de casa!

Quando começou a entrevista, quase dez horas da manhã, Lourdes (como gosta de ser chamada, sem “dona” ou “senhora”) já havia limpado o banheiro, passado pano no chão e lavado uma “roupinha”. A dona da frase que abre este texto mora sozinha em seu apartamento e conta com a ajuda de uma diarista a cada quinze dias.

Apesar de gostar de cuidar da casa, este não era seu único desejo quando tinha pouco mais de 20 anos. Antes de se dedicar exclusivamente ao lar e à família, Lourdes era funcionária da fábrica de utilidades em vidro Nadir Figueiredo S/A, onde fazia trabalhos de pintura à mão livre. Após o casamento, seu marido pediu para que ela parasse de trabalhar fora. “Na época, queria continuar, queria abrir uma firma para mim”, conta. Eram os anos 1950 e o movimento feminista ainda não havia ganhado força.

  • Leandro Moraes/UOL

    Após o casamento, há mais de 50 anos,  Lourdes parou de trabalhar fora a pedido do marido

De acordo com a socióloga e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, Arlene Ricoldi, atualmente as mulheres ainda se vêem obrigadas a fazer uma opção para a vida adulta.  “Elas escolhem entre se dedicar exclusivamente para a casa e não trabalhar fora do domicílio, ou serem profissionais remuneradas; o que não quer dizer que essas mulheres não se preocupem e se doem para as suas famílias e tenham que equilibrar as esferas trabalho e lar”.

Para Ricoldi, o avanço na escolarização, a necessidade de realização e o aumento dos padrões de consumo - o que exige uma maior renda nos lares -, levam poucas mulheres a escolher o trabalho doméstico como única ocupação.

A graduada em teologia e dona de casa desde o casamento, em 1998, Renata Marques, 37, se viu impelida a fazer essa difícil escolha: há dois anos optou por trabalhar exclusivamente executando as tarefas domésticas e enfatizando os cuidados com a família. Responsável pela gerência de seu lar, a mineira, que hoje mora em Portugal, conta que no início, ao decidir por esta profissão, sofreu críticas. “Me senti péssima principalmente porque o olhar de julgamento das pessoas me incomodava, era como se eu tivesse escolhido ficar à toa”.

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    Renata Marques trabalha como dona de casa em tempo integral desde 1998, ano em que se casou

Para compartilhar as angústias, desabafar e ouvir outras mulheres na mesma situação, Renata e mais duas amigas (Daniela Correa e Renata Palombo) criaram o site Donas de Casa Anônimas, no ano de 2011. “São mulheres que exercem a atividade no anonimato, por isso desejávamos enfatizar a ideia de um trabalho que não é valorizado”, explica. Com dois meses de vida, o projeto agregou outros assuntos de interesse de grande parte das donas de casa, como culinária e decoração.

A rotina da dona de casa

“As pessoas falam que minha casa é de bonecas”, revela Lourdes, orgulhosa de deixar sempre seu apartamento arrumado e organizado. Ao descrever como era sua rotina no lar quando se casou - há mais de seis décadas -, ela enfatiza como as coisas mudaram.

“No interior, a gente pegava a água do poço e lavava a roupa na tina de madeira. Imagina, eu nem sabia o que era máquina de lavar”. Assim como Lourdes, Renata, mãe de três filhos, de 4, 6 e 7 anos, salienta que a máquina de lavar roupas está entre os itens queridinhos das donas de casa, uma facilidade não tão moderna, mas que dificilmente vai ser superada.

Segundo a socióloga Ricoldi, a mecanização e o avanço da tecnologia dos aparelhos elétricos facilitaram e agilizaram a realização dos trabalhos domésticos. Hoje, utilitários como escovões e enceradeiras, ferros isentos de vapor ou batedores de clara manuais dificilmente são vistos em áreas de serviço e cozinhas. Porém, a estudiosa ressalta que a existência de tais facilitadores não determina que, para se cuidar de uma casa, não seja necessário ainda muito trabalho.

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    Adriana Teixeira, mãe-dona de casa-jornalista, é autora do “Guia da Dona(o) de Casa Moderna(o)”

Para a dona de casa, mãe de dois filhos, jornalista e autora do livro “Guia da Dona(o) de Casa Moderna(o)”, Adriana Teixeira, 42, o que realmente mudou a rotina doméstica não foram os eletrodomésticos, mas a otimização do tempo. “Ser dona de casa não é mais ser escrava da limpeza e da arrumação; ao contrário, é ser dona do seu espaço e ocupá-lo de forma orgânica, organizada e prazerosa”, opina.

Quando descreve seus afazeres, Renata também reforça a necessidade de organizar o tempo. A mãe-dona de casa divide os seus dias entre cozinhar, limpar, passar, arrumar, cuidar dos filhos, gerenciar as contas da casa, editar o site, entre outras tarefas. “De manhã, passo pela casa arrumando o que estiver fora do lugar e foco em um cômodo por dia dando uma limpeza mais caprichada”, explica.

Esta arrumação matinal, segundo ela, leva aproximadamente 45 minutos. Para este arranjo equilibrado do tempo, a dona de casa segue um método de organização doméstica chamado FlyLady. Fundado pela americana Marla Cilley em 1999, o FlyLady é um grupo de apoio e auto-ajuda que ensina como executar os serviços de casa. “Nos fins de semana a atenção é para a família, as limpezas esperam a segunda-feira chegar”, pondera Renata.

Maridos e filhos: donos de casa

Lourdes não contava com o auxílio do marido para os afazeres domésticos. “Sempre cozinhei, passei, lavei. Só depois de muitos anos que consegui uma ajuda (diarista)”, diz a dona de casa que tem três filhas, oito netos e quatro bisnetos.

De acordo com a pesquisa da Fundação Carlos Chagas, publicada em 2010, cerca de 90% das mulheres executa o trabalho doméstico, enquanto que 50% dos homens estão na mesma situação. Entre os que realizam as tarefas do lar, as mulheres dedicam em média 25 horas semanais aos afazeres domésticos, enquanto os homens disponibilizam apenas 10 horas, em uma semana, para os cuidados com a casa. 

“Entre os homens de menor renda, o que pudemos ver na pesquisa é que a paternidade o único momento no qual eles se responsabilizam mais pelo trabalho doméstico, via cuidado com os filhos”, completa Ricoldi.

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    Na sua casa, Adriana prepara a comida enquanto que seu marido ajeita a cozinha após as refeições

Na casa de Adriana - que se divide entre ser dona de casa, mãe e jornalista -, não há distinção de tarefas entre ela e o marido. Ela explica que existem, na verdade, ajustes em função da habilidade: como ele não cozinha, faz outras tarefas como arrumar a mesa e ajeitar o espaço após as refeições.

Quanto aos filhos, a jornalista conta que, desde pequenos, eles são estimulados a cuidarem do espaço onde vivem. “Não quero que encarem como uma ordem, por isso, sempre procuro dar suporte. Por exemplo, as gavetas dos armários foram planejadas a uma altura que eles possam ter acesso aos brinquedos na hora de brincar e na hora de guardar”, esclarece.

Como qualquer profissão

Dedicada a sua jornada de trabalho no lar, Renata considera que “no tempo das avós”, ser dona de casa era uma obrigação ou a única opção, como foi para Lourdes. Hoje, segundo ela, a mulher, mesmo que opte por trabalhar fora, consegue se desdobrar e gerir seu lar, ainda que delegando tarefas. “A diferença atualmente está na liberdade de escolha”, ressalta.

Ao optar pela profissão dona de casa, Renata sabe que no dia a dia tem que encarar uma rotina de tarefas que muitas vezes não gosta, mas avalia: “Como em qualquer outra profissão, tem o lado positivo e negativo. Pesando tudo, acho que tem compensado para mim".

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