Construção e reforma

Casa de Frank Lloyd Wright acende discussão sobre preservação

Joshua Lott/ The New York Times
Fachada da casa assinada por Frank Lloyd Wright, em 1952, em Phoenix. Obra corria o risco de demolição imagem: Joshua Lott/ The New York Times

Fernanda Santos

The New York Times, em Phoenix (EUA)

Vende-se: um pedaço de história com quatro quartos e quatro banheiros, feito de aço galvanizado e concreto, que surge logo acima de uma paisagem com cactos e árvores cítricas, em uma das áreas mais requisitadas da cidade de Phoenix, Arizona. Seu preço é US$ 2.379.000. Precisa de um pouco de amor e carinho. Ah! E foi construída por Frank Lloyd Wright, um ícone da arquitetura.

Os proprietários, John Hoffman e Steve Sells, colegas de colégio em Meridian, Idaho, esperavam vender a casa antes de sete de novembro de 2012, quando estava marcada a votação do conselho municipal sobre a concessão ou não do status de patrimônio histórico à morada, um processo sobre o qual Hoffman e Sells são contrários.  

Embora concordem que a casa deva ser salva – “A propriedade é maravilhosa”, afirma Sells, na suíte principal – eles primeiro querem garantir o investimento que fizeram, assim como a subsistência dos dois. “Se ela se tornar patrimônio histórico, estamos aposentados”, o empresário continua. Em dezembro, enfim, a casa foi vendida e o comprador se posicionou em favor da preservação do imóvel, uma vitória da Frank Lloyd Wright Building Conservancy, entidade que busca a manutenção das obras do arquiteto e que intercedeu no negócio.

A casa, o arquiteto, a demolição

A casa, construída em 1952, tem a assinatura de Wright em um azulejo vermelho perto da porta de entrada – tanto um selo de aprovação quanto um certificado de autenticidade. A madeira dos gabinetes, portas, mesas, prateleiras e sofás, todos criados por Wright, brilha e foi trazida de volta à vida por camadas de óleo de limão. O chão, de concreto colorido, tem rachaduras que denunciam a idade, mas também emprestam um certo charme de robustez à construção.

Quando Hoffman e Sells compraram a casa por US$ 1.8 milhão, em junho, pagando um milhão de dólares a menos que os antigos moradores pagaram para as netas de Wright, “pensamos que tínhamos ganhado na loteria”, avalia Sells. A cidade lhes autorizou a dividir o terreno e o plano era construir duas casas de luxo e ganhar muito dinheiro em pouco tempo.

Por que preservar imóveis antigos?

  • Douglas Nascimento/Divulgação

“Só o terreno”, no coração do bairro de Arcadia, à sombra da pitoresca montanha Camelback, “já valeria entre US$1.2 e US$1.4 milhão”, ele continua. Os empresários acharam que a autorização para recortar o terreno incluía a permissão para demolir a casa construída por Wright para o filho e  a nora, David e Gladys, e, realmente, por pouco tempo, tal permissão existiu.

Assim que Sells e Hoffman se prepararam para fechar o negócio, preservacionistas envolvidos com a proteção do legado de Wright chegaram à cidade pedindo que a casa fosse considerada patrimônio histórico. Sells, 50 anos, empreendedor na área de tecnologia, disse que não fazia ideia do seu significado ou da diferença “entre Frank Lloyd Wright e os Irmãos Wright”. “Eu cresci em Idaho, participando de rodeios”, conta. “Não tínhamos dinheiro”.

Entretanto, no final de setembro, sob a pressão dos preservacionistas e talvez percebendo que os proprietários estavam falando sério quanto a destruir a propriedade, a prefeitura invalidou a permissão para por a casa abaixo. Naquele momento, o processo de nomeação de patrimônio histórico já estava em andamento.

Preservar é preciso

A casa dança. O vidro de suas janelas está colocado em esquadrias que se curvam, seguindo o fluxo das paredes em espiral. A mobília, toda desenhada por Wright, é um estudo sobre simetria. As bordas arredondadas da mesa da cozinha combinam com as bordas arredondadas da lareira, que combinam com as bordas arredondadas da rampa de vai do térreo ao segundo andar como um “U” invertido.

A casa surpreende. Folhas de compensado sustentam colunas conforme cruzam os interiores dos armários em um quarto de criança, ocultando-as de modo divertido, como se brincassem de esconde-esconde. Triângulos invertidos esculpidos em aço galvanizado estão pendurados no beiral do telhado, projetando sombras no chão que se transformam à medida em que o sol se move.

Sells não é o estereótipo de um construtor. Ele gosta de corridas “off-road”, tem um brinco de argola na orelha esquerda e tatuagens nos braços e pescoço, entre elas o nome de sua mãe, que faleceu quando ele era jovem, e as palavras “Triple Trouble” [Problema Triplo].

O prefeito de Phoenix, Greg Stanton, trabalhou duro para ajudar Sells a encontrar um comprador que desejasse manter a casa, afinal a cidade queria que a construção fosse salva. “A casa merece ser tombada? Sim. O local precisa ser preservado,” argumenta o atual proprietário. “Mas três netas de Wright venderem-na por US$ 2.8 milhões, para que eu carregue a cruz de Frank Lloyd Wright, não é justo”.

No Arizona, onde o direito do proprietário é fortemente defendido, conceder a condição de patrimônio histórico a uma propriedade tem o poder de blindá-la da modernização ou da destruição somente por três anos. Então, quando um conselho aprova a solicitação, a demolição é adiada, mas o veto não torna-se definitivo. Bem, pelo menos, dessa vez, o legado de Wright, parece salvo.

Tradutor: Erika Brandão e Daiana Dalfito (edição)

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