Casa e decoração

Em Seul, designers criam paredes em "escamas" para casa-estúdio

Marcel Lam/ The New York Times
"Skinspace": casa-estúdio próximo a Seul tem projeto do escritório Architecture of Novel Differentiation (AND) imagem: Marcel Lam/ The New York Times

Sarah Amelar

Do The New York Times, de Seul, Coreia do Sul

O Architecture of Novel Differentiation [NT: Arquitetura da Nova Diferenciação, em uma tradução livre], ou AND, é um pequeno e empreendedor escritório de design em Seul, Coréia do Sul, que brinca frequentemente com as ideias convencionais sobre limites. E um de seus projetos, a casa chamada Topoject, por exemplo, possui paredes que se tornam parte da topografia.

Então não é de surpreender que Jeong II-young, um artista cujas pinturas mesclam paisagens com formas humanas, seria atraído pelo trabalho do AND. Mas o primeiro encontro entre os designers e o artista teve um elemento surpresa definitivo.

Um dia em 2010, quando o diretor da empresa, Jeong Eui-yeob estava supervisionando o local de construção do Topoject, um desconhecido entrou no escritório da obra. O homem se apresentou com um panfleto sobre suas pinturas e explicou sua situação difícil: havia contratado um arquiteto para desenhar sua casa e estúdio, mas estava tendo dúvidas, porque o projeto era muito convencional. E, ao observar a casa-topográfica, se via cativado por tal trabalho.

Esta reunião improvisada entre Jeong, o artista, e Jeong, o designer, transformou-se em horas de conversa nas quais o pintor percebeu como são tênues as fronteiras entre mente e corpo, flora e fauna e espaço interior e exterior. No terceiro encontro entre os dois, o artista pediu, enfim, para que a empresa projetasse sua casa e estúdio.

Orçamento conceitual

Foi aí que o verdadeiro problema surgiu, relembra o designer: o orçamento do artista para um estúdio de pintura com cômodos para moradia e 93 m² era de apenas US$ 30 mil dólares. “Era impossível,” argumenta Jeong, o designer, “então dissemos ‘não’”.

Um mês depois, o artista retornou com mais do que o dobro do orçamento. Ainda era apertado, mas a firma assumiu a missão como um projeto conceitual. A construção custou mais ou menos US$ 80 mil.

“Usamos todo o nosso conhecimento para cortar custos,” disse Jeong Eui-yeob, de 36 anos, que trabalhou com os profissionais do escritório Morphosis, na Califórnia, antes de fundar o AND em 2010. Sua esposa, Lee Tae-kyoung, uma designer formada  em Yale, agora com 31 anos, logo se incorporou ao escritório e à filosofia.

Para o artista, eles criaram o que chamaram de “Skinspace”: uma construção de concreto com uma fachada que tanto tem o aspecto de pele quanto parece algo espacial ou tridimensional.

Experiência “de contato”

O revestimento de “escamas” de compensado continua na parte de dentro da casa por trás de uma entrada envidraçada, como paetês numa superfície curva. Onde a fachada se dobra, o painel se torna uma proteção solar ripada (um “brise”), possibilitando a vista de montanhas, fazendas e arrozais.

Distante apenas uma hora do centro de Seul, o terreno ocupa o topo de uma colina arborizada, numa antiga região agrícola da província de Gyeonggi. E, embora as casas de subúrbio pontuem a paisagem, a área se tornou um território acessível para artistas.

Antes de construir lá, Jeong Il-young, de 48 anos, produzia suas telas acrílicas coloridas no apartamento de Seul que divide com sua esposa e as duas filhas, hoje com 11 e 13 anos. A “Skinspace”, em contrapartida, é um refúgio criativo onde ele vive sozinho durante a semana.

Como o trabalho é o foco, o estúdio de pintura tem pé direito duplo, mas os quartos de dormir são quase monásticos. As escadas que conectam o estúdio e os quartos, no entanto, se mostram dramáticas, erguendo-se como vértebras entre as duas partes curvadas e internas da fachada.

Devido ao orçamento enxuto, os designers tiveram que ser criativos. A fachada foi feita de placas de compensado comum, para que tivesse todo seu dinamismo ressaltado. E as centenas de partes de metal e madeira foram projetadas com um programa de computador em 3D e eficientemente cortadas a laser e montadas no local em três dias. A construção levou apenas quatro meses, com o próprio proprietário aplicando acabamentos no interior, como pintura e azulejos.

Agora que já vive na “Skinspace” há mais de um ano, o artista a declara perfeita. “A construção convida a natureza a entrar,” aponta. “Ela me permite sentir as mudanças naturais e observá-las com mais vigor.”

Às vezes, transeuntes também são atraídos para dentro de casa, onde ocasionalmente compram uma pintura. Ele espera que a construção, no final, funcione também como galeria de arte.

Jeong, o artista, pensa em acrescentar uma cobertura para a sua família à estrutura.“Eu planejei isto apenas como meu local de trabalho," avalia, “mas agora o lugar se estende a minha família, como uma casa de veraneio”.

Tradutor: Erika Brandão e Daiana Dalfito (edição)

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