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Projetada no vão entre dois prédios, casa estreita tem 1,20 m de largura

Andrea Meichsner/The New York Times
A Casa Keret (ao centro) fica no espaço estreito entre um edifício e um conjunto habitacional em Varsóvia imagem: Andrea Meichsner/The New York Times

Steven Kurutz

Do The New York Times, de Varsóvia, Polônia

Há três anos, Jakub Szczesny, um arquiteto polonês, estava andando pelo antigo gueto judeu em Varsóvia quando descobriu o que ele descreveu como um “atraente colchão de ar” entre um edifício pré-guerra e um conjunto habitacional pós-guerra de onze andares.

Szczesny, que pertence a um grupo chamado Centrala, dedicado à arquitetura experimental, teve a ideia improvável de construir uma casa no espaço incrivelmente estreito entre eles. “Eu me apaixonei pelo espaço entre duas construções de períodos diferentes”, disse. “Decidi fazer uma conexão”.

Szczesny, de 39 anos, começou a imaginar um morador ideal para a casa e escolheu Etgar Keret, um escritor israelita cuja reputação por produzir coletâneas de histórias muito curtas, como sua mais recente obra “Suddenly, a Knock on the Door” [NT: “De repente, uma Batida na Porta”, em uma tradução livre], o marcou como alguém acostumado a trabalhar com parâmetros limitados e cujas raízes judias e polonesas ofereceram uma conexão emocional com Varsóvia. (Quando criança, durante a Segunda Guerra Mundial, a mãe do autor contrabandeava comida para além dos postos de controle nazistas, a poucos metros de distância de onde Szczesny queria construir).

Quando Keret, de 45 anos, recebeu uma ligação do arquiteto, ele ficou inicialmente perplexo. “Esse cara com sotaque polonês pesado disse que queria construir uma casa proporcional às minhas histórias”, disse. “Pareceu uma brincadeira”. Mas Szczesny voou para Tel Aviv, onde mora o autor, e provou estar sendo sincero. E Keret gostou da ideia de que a sua família reivindicaria um tipo de lar em Varsóvia.

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Em outubro de 2012, depois de mais de um ano de confusões burocráticas e desafios de engenharia e com a ajuda crucial de um guindaste trazido da Alemanha, a Casa Keret abriu suas portas – ou porta. Com uma largura que varia de 1,20 m a meros 71 cm (na sua parte mais estreita), esta deve ser a casa mais fina do mundo.

“Foi um conjunto fantástico de impossibilidades”, disse Szczesny sobre o planejamento e a construção. “Nós tivemos sucessivos ataques cardíacos”.

As palpitações começaram quando Szczesny teve que determinar quem seria o dono daquele espaço entre os prédios. Wola, distrito onde se situa a Casa Keret, controlava o espaço, e os funcionários públicos locais ajudaram o arquiteto a tramitar o processo de permissão. Mas então canos de aquecimento da cidade descobertos embaixo do local causaram meses de atraso e a necessidade de repensar o projeto.

O projeto final utiliza uma moldura leve de aço, construída a partir de pequenos módulos aparafusados uns aos outros. Fornecedores locais de aço, preocupados em levantar shopping centers, não tiveram interesse no serviço pequeno e complexo. Ele se deparou com mais dificuldades para encontrar um maquinário que pudesse trabalhar em espaços tão estreitos. Finalmente encontrou uma companhia disposta a construir a moldura e um guindaste alemão para posicioná-la no lugar.

Como é a Casa Keret por dentro? É improvável que festas de arromba aconteçam lá.

A cozinha tem 91 cm de largura (embora isso possa não incomodar os nova-iorquinos), com uma miniatura de pia e uma porta corrediça que esconde um daqueles banheiros de avião apertados. O segundo andar, acessado por uma escada, tem uma cama cujo tamanho não encoraja hóspedes a pernoitarem.

A área útil do andar de baixo mede 89 cm de largura, mas alguém com claustrofobia pode até se sentir confortável com o fato de ela também ter tetos muito altos e “receber muita luz do leste”, vindo de uma das duas janelas. O arquiteto usou plástico semitransparente para o teto, ao invés de concreto, para trazer mais luz e criar uma sensação de espaço.

Keret, que voou até Varsóvia para a inauguração, pensa na casa como o equivalente a uma de suas histórias: pequena, porém completa. “É algo muito, muito compacto”, disse ele. “Mas tem todas as coisas que uma casa necessita”.

O autor disse que planeja passar pelo menos uma noite na casa. “Parece adequado tentar criar aqui dentro”, acrescentou. “A casa será um portal para todos os tipos de empreendimentos artísticos”.

Pela lei polonesa, a Casa Keret é muito pequena para ser considerada uma residência. Ela foi classificada como instalação de arte, que deverá se tornar propriedade e ser administrada pela Fundação Polonesa de Arte Moderna. Szczesny e Keret planejam selecionar artistas para estadas de cinco a sete dias.

Agora que a Casa Keret está completa, Szczesny disse com alívio: “Eu vou ficar bêbado pela primeira vez na vida”.

O homônimo da casa adotou uma postura mais sóbria. Pouco antes da morte do seu avô durante a guerra, Keret disse a sua mãe: “Você precisa viver, assim nosso nome sobreviverá”. Ela partiu da Polônia para a França e depois para Israel, de onde nunca mais saiu.

“Para mim, é um tipo de metáfora da minha família reivindicando um lugar na Polônia”, disse Keret. “No lugar onde eles mataram nossa família agora irá existir uma casa chamada a Casa Keret”.

Como a própria casa, ele acrescentou: “Somos pessoas que forçamos nossas entradas”.

Tradutor: Erika Brandão e Karine Serezuella (edição)

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