Projetos

Amigos constroem casas interligadas no mesmo terreno no Colorado (EUA)

Robert Reck/The New York Times
As construções foram projetadas por Rich Sands (morador de uma das casas) e pela empresa Arch11 imagem: Robert Reck/The New York Times

Penelope Green

Do The New York Times, no Colorado, nos EUA

O bom design é sempre definido como uma solução elegante (ou uma série de soluções elegantes) para uma equação complexa, cujas variáveis incluem espaço, dinheiro, tempo e comportamento humano. Também contam a biografia pessoal, a história, o gosto e as leis municipais. 

Em Boulder, no Colorado, um ecossistema ainda efervescente com projetos de tecnologia e biotecnologia, cinco pessoas de três lares estão morando juntos - mais ou menos - em um exemplo particularmente bom deste princípio: três casas construídas num pequeno terreno a oeste do centro de Boulder, com vistas impressionantes das Flatirons, a cadeia de montanhas próxima dali. 
 
 
Esta “quase comunidade” é uma ação colaborativa entre Rich Sands, um psicólogo organizacional que se transformou em construtor, e o Arch11, um escritório de arquitetura local. As casas interligadas estão localizadas em um bairro histórico a três ou quatro quarteirões dos limites da cidade.
 
Parceria em projetos
 
Na última década e meia, Sands e E.J. Meade, diretor no Arch11, vem espalhando sua marca particular às vezes rústica, às vezes moderna e original em praticamente todos os bairros da cidade. Seus mais de quarenta projetos variam de casas de fazenda modernas a lofts do subúrbio, casas minimalistas, além de uma recente cabana de mineração do século 19 que foi envolvida com asfalto negro. 
 
A dupla se conheceu quando Sands e sua esposa, Janice, ambos hoje com 68 anos, saíram da Califórnia e se mudaram para o Colorado no meio dos anos 90. Sands, que é ao mesmo tempo exigente e extraordinariamente gentil – para empregar um termo fora de moda, porém útil que poderia ter sido inventado com o único propósito de descrever seu estilo descontraído – estava procurando fortalecer a reputação de sua empresa, Hammerwell, com alguns projetos de especulação em Boulder. 
 
  • Robert Reck/The New York Times

    À frente, a entrada para a sala de estar de Sue Heilbronner e ao fundo, a casa de Bob e Dianne Bush

Um dia, na cidade, para entrevistar arquitetos, ele caminhava dentro de um prédio industrial que lhe agradou. De um lado havia uma oficina mecânica de carros importados, e do outro lado, o escritório de Meade. 
 
“Ei, alguém quer projetar uns prédios?”, Sands se lembra de ter dito.
 
Por sua vez, Meade recorda que o encontro foi um pouquinho diferente. “Acho que ele falou: ‘ei, tem algum arquiteto aqui?’”.
 
De qualquer modo, Meade respondeu que sim. Sands cancelou seus compromissos e conversaram durante horas, descobrindo um no outro, como coloca Sands, um tipo semelhante de “imbecilidade no design”. 
 
Um acordo curioso
 
A parceria começou com duas casas de investimento, uma ao lado da outra. Enquanto a primeira ainda estava em construção, Bush, o diretor de um estúdio de design gráfico, e sua esposa, Dianne, que trabalhava em um escritório de advocacia e como produtora de eventos, compraram a segunda enquanto ainda era somente um buraco no chão. 
 
O casal fez um acordo curioso com Sands: o construtor concordou em vender a casa para eles, porém não poderiam opinar nos acabamentos – embora Sands prometera evitar qualquer cor que não gostassem. 
 
“Então eles disseram: ‘azul’, e eu fiz o que quis, a casa não teve nada de azul e eles adoraram”, conta Sands.  
 
Mas por que os Bush estavam tão tranquilos?
 
A primeira casa de investimento era um incrível cartão de visitas, disse Bob Bush. 
 
“Era muito bacana”, conta. “Rich era muito franco. Ele falou: ‘sou um construtor novo em Boulder e quero estabelecer minha reputação. Eu sei o que quero fazer. Se você não quiser me dar este tipo de liberdade, eu não faria isso’”.
 
Aquele foi o início de um longo relacionamento entre Sands, o casal Bush e as casas em Boulder. 
 
O terreno para compartilhar
 
Em 2004, cerca de sete anos de amizade, os Bush venderam sua primeira casa Hammerwell-Arch11 e se mudaram para uma casa que Sands havia recebido em troca de uma de suas construções de investimento, e onde estava vivendo com sua esposa. Construída em 1982 e intocada por Sands, “ela era bacana do jeito que estava”, afirma Bush.  
 

Casa de pedra e madeira se funde à paisagem do Colorado; veja

  • Robert Reck/ The New York Times
Os Bush, que têm dois filhos adultos, estavam querendo reduzir o tamanho da casa e queriam investir algum dinheiro no banco. (A primeira casa Hammerwell-Arch11 deles foi vendida por US$ 1 milhão, lembra Bush, e eles compraram a casa de Sands por US$ 465 mil).
 
Em 2010, os Bush, que hoje estão com 68 e 65 anos, e aposentados, planejavam diminuir os espaços novamente. (Os Bush construíram cinco das seis casas em que viveram, e claramente gostam de mudanças. Como disse Dianne Bush, “somos muito de colocar a mão na massa”. E Bob Bush provocou a esposa: “mudamos porque não tem mais nada para decorar”). Foi quando Sands apresentou um projeto para eles. 
 
Os Sands também estavam prontos para morar em um lugar menor. Sands havia encontrado um terreno dividido para três unidades, um cenário incomum no zoneamento de Boulder, que tende a favorecer construções para uma única família. Encontrar um terreno que não tivesse restrições era raro, de acordo com o construtor e investidor.  
 
Ele estava de olho no terreno havia algum tempo, observando seu preço cair conforme mudava de dono. Por fim, comprou o lote em liquidação por cerca de US$ 800 mil. 
 
Mais uma para o grupo
 
Mais ou menos na mesma época, Sue Heilbronner, uma promotora federal que se transformou em empresária da internet, mudou-se para Boulder por causa de um emprego como executiva chefe de desenvolvimento na PaySimple, uma plataforma baseada no ambiente de gerenciamento de pequenos negócios. Ela havia se apaixonado pela estética Hammerwell-Arch11 depois de ter visto as casas pela cidade. 
 
Havia uma em especial: “era a casa mais magnífica que eu já havia visto, mas era muito grande e muito cara. Resolvi, no dia em que o conheci, que eu daria um jeito de Rich colocar a mão na minha casa”.
 
Heilbronner, de 46 anos, sabia da história do projeto comunitário de Sands, mas ele a rejeitou em princípio, quando ela perguntou se poderia fazer parte do projeto. Alguns meses depois, entretanto, ele mandou um email contando que havia um lote sobrando e ofereceu para ela. Não havia planta, não havia nem mesmo contrato, mas Heilbronner concordou sem hesitar. 
 
“Fiz um cheque unicamente pela força do que senti em relação a ele”, disse. “Todos que eu conhecia me diziam que eu era uma idiota por me ligar a quatro outras pessoas que eu mal conhecia. Mas para mim não havia absolutamente nada de incomum ou de maluco. Eu posso trabalhar com o construtor que admiro – que, aliás, é meu vizinho de porta – e com um arquiteto que é totalmente inovador. Estávamos completamente alinhados com o que íamos criar, então foi perfeito”.
 
Sands não se lembra por que ele descartou Heilbronner no começo. 
 
“Ela é uma senhora desafiadora, forte e cheia de opiniões”, disse. “Eu posso tê-la feito esperar no começo só para ter certeza que estava interessada de verdade e que gostaria de morar com o que eu viesse a projetar. Também posso ter tentado ganhar tempo para conversar com os Bush, e discutir como Sue poderia se encaixar no grupo”.
 
  • Robert Reck/ The New York Times

    As extensões de vidro das construções proporcionam boa iluminação natural aos ambientes

A vista deslumbrante e o jardim comum
 
As três casas possuem um ar de estudo de caso, com seus telhados retos, áreas de estar abertas e fachadas de vidro. 
 
Desde que o lote de 910 m² foi liberado para que a metade dele tivesse alguma construção, Sands e Meade ficaram com 455 m² para repartir entre as três casas. Eles escavaram espaço abaixo do terreno para criar três garagens para dois carros cada, além de um local para armazenagem e equipamentos mecânicos, que, já que ia ficar no subsolo, não estavam inclusos no cálculo de área construída. 
 
Cada casa teria dois quartos e dois banheiros. A unidade dos Sands tem cerca de 140 m² e é separada por um jardim comum da casa dos Bush, que tem cerca de 150 m², e da casa de Heilbronner, que é um pouquinho maior. 
 
Ao invés de colocar as três construções enfileiradas no terreno retangular, Meade as posicionou num ângulo que possibilitasse vista para as montanhas Flatiron, dando a cada casa um canto de vidro. A casa dos Sands está alinhada com a parte superior do retângulo – a menor parte – na face norte. As casas dos Bush e de Heilbronner estão ao longo da base, encaixando-se uma na outra como vagões de trem estacionados. É uma solução inteligente e elegante para a utilização de espaço, espacialmente econômica, prática e muito agradável.
 
Cada casa custou cerca de US$ 1 milhão, e a de Heilbronner foi um pouquinho mais cara. Sands, como de costume, fez o acabamento da sua casa e da casa dos Bush. Heilbronner pediu para que Meade fizesse o interior da casa dela, e ela escolheu características e detalhes decorativos (como uma escada surpreendentemente aberta) que ficaram mais caras. 
 
Os cinco coabitantes, como podemos chamá-los, se mudaram em agosto do ano passado. O casal Bush deve ter sido quem mais ficou feliz com o fim das obras: a casa deles havia sido vendida 16 dias depois de ter sido colocada à venda, no meio de 2011. De 2011 a 2012, ficaram morando de aluguel e depois foram para um quarto de hotel da cidade por mais seis ou oito semanas. 
 
Bob Bush gosta de lembrar que na sua última casa eles gastaram menos dinheiro, mas não ficaram com menos espaço. Nesta construção, disse, “nós gastamos mais, porém diminuímos a metragem”.
 
Dianne Bush conta que ficou preocupada pelo fato de o gosto deles não ser vanguardista o bastante para Sands, e que ele ficou decepcionado quando foi visitá-los. 
 
Sands disse, brincando, que sempre fala para o casal: “A decoração da casa de vocês precisa combinar com vocês. Escolham o que gostam e então eu falo se estão estragando muito com o todo”.
 
E Heilbronner, que viaja muito a trabalho, está feliz por ter uma casa que não precisa se preocupar (graças aos seus vizinhos) e que é visualmente cativante – até mesmo autobiográfica, como coloca.
 
“Ela me parece energeticamente perfeita. Eu entro e penso: ‘sério? Eu moro aqui?’”.
 
Tradutor: Erika Brandão e Karine Serezuella (edição)
 
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