Projetos

Casa na Toscana tem fachada medieval e interiores modernos

Andrea Wyner/ The New York Times
Casa na Toscana é reformada por casal de artistas: exterior medieval é mantido e interiores, modernizados imagem: Andrea Wyner/ The New York Times

Sandy Keenan

The New York Times, em Cennano, Itália

Elisabetta Bruscolini e Giancarlo Astrologo são colecionadores apaixonados de amigos, objetos e casas. Ela é a gerente geral da National Film School na Itália, uma produtora conhecida por revelar talentosos jovens cineastas e ajudá-los em seus primeiros grandes projetos. Ele é um ex-estilista de luxo que resolveu se dedicar às coleções de arte.

Juntos há 16 anos, eles nunca sentiram a necessidade de casar. “Casamento? Não acho que seja importante”, argumenta a Sra. Bruscolini. “Um relacionamento é algo que você escolhe todos os dias. Nós divertimos um ao outro e nunca ficamos entediados porque gostamos das mesmas coisas: amigos, conversa, arte, cinema e viagens”, completa.

Assim, a grande comunidade de amigos que eles cultivam se mistura às suas famílias combinadas e ampliadas (três filhos adultos e muitos netos) não somente em Roma - onde eles mantem sua residência principal - mas também na Toscana, onde passam a maior parte de seu tempo livre.

Sob o sol da Toscana

No começo do relacionamento, o casal reformou uma casa na cidade Toscana de Castelmuzio, preservando meticulosamente o exterior medieval e tornando o interior “clean”, moderno e branco – um pano de fundo ideal para o estilo de entretenimento fácil deles: coleções de arte (dele) e fotografias de filmes “vintage” (dela).

O projeto foi uma parceria de três anos com uma empresa sardenha, VPS Architetti, liderada por Giuseppe Vallifuoco com quem a Sra. Bruscolini viveu por 13 anos, quando seus filhos gêmeos eram jovens. (Algumas pessoas podem achar tal situação desconfortável, mas como explicou o Sr. Astrologo e a Sra. Bruscolini traduziu do italiano: “Giuseppe se tornou um dos meus melhores amigos. Nós somos como irmãos. Não existe atrito em trabalharmos juntos”.)

O casal, na casa dos 60 anos, adora aquela morada. Um dia, em 2007, enquanto  Elisabetta e Giancarlo passeavam na zona rural, descobriram que a impressionante propriedade na encosta que eles tanto cobiçavam, uma grande casa paroquial anexa a uma antiga igreja, estava à venda. “Nós a compramos em dois dias”, conta a Sra. Bruscolini. “Ela fica distante apenas um quilômetro da vila, no meio de um olival – um lugar mágico”.

Histórica

A igreja, na Paróquia de Santo Estevão em Cennano, foi reconstruída em 1285 sobre uma fundação que data aproximadamente de 715 d.C.. Durante séculos a residência de pedra adjacente abrigou padres e peregrinos, cavaleiros e camponeses.

“Nos primeiros cinco meses, nós desfizemos o que tinha sido feito nos últimos 100 anos e a estrutura original começou a aparecer”, relembra a Sra. Bruscolini. “Nós seguimos a mesma ideia da antiga casa: quartos grandes e abertos e, onde os padres dormiam, mantivemos uma grande chaminé. Naquela época, quando os viajantes faziam uma parada, podiam dormir ali também. O andar inferior é onde os animais ficavam alojados”.

Ninguém imaginava que a reforma da estrutura de mais de 460 m², comprada por cerca de US$ 1 milhão, custaria quase US$ 2,6 milhões e levaria aproximadamente quatro anos. Acontece que conseguir a aprovação para remodelar uma construção histórica pode ser extremamente complexo na Toscana. Mas este não foi o único obstáculo.

Cheiro de estábulo

Projetar uma forma de afastar cheiros antigos e fortes não é algo com o qual os arquitetos normalmente têm que lidar, mas o mau cheiro do andar inferior era onipresente, lembrou Ilene Steingut, uma das arquiteta americanas da equipe: “O odor era opressivo”.

As paredes de rocha porosa do andar inferior tinham recebido excrementos dos animais por séculos e os arquitetos decidiram que a única maneira de livrar o ambiente do cheiro seria criar uma estrutura de isolamento ao redor da construção antiga. “Para assegurar que o odor não fosse reaparecer”, explica Steingut, “nós decidimos usar um sistema de cavidade de ar entre as paredes já existentes e as novas em peças de terracota ocas”.

Muitas das outras paredes da casa também foram construídas ou adicionadas através dos tempos e todos os envolvidos descreveram a dificuldade de compreender a melhor forma de lidar com elas como um desafio igualmente intimidador – ou, colocando de outra forma -, um processo de design orgânico.

As paredes e o tempo

Modificações foram feitas durante a construção (estantes foram escavadas nas grossas e antigas paredes e janelas internas foram adicionadas), afligindo os artesãos locais que estavam acostumados a lidar com uma planta pré-determinada.

 “Os trabalhadores do projeto foram muito resistentes no começo”, afirma Steingut. “Mas no fim, todos ficaram curiosos a respeito do trabalho que estávamos fazendo e satisfeitos com o resultado”.

Hoje, o exterior conserva o verniz do Velho Mundo. Mas, por dentro, a casa é uma mistura de acabamentos modernos e estrutura original. A iluminação é sutil, enfatizando os objetos de arte dos proprietários e os detalhes arquitetônicos, como as enormes vigas do teto, mas sem necessariamente atrair atenção para elas.

Não é surpreendente que a casa, que acomoda 12 pessoas, esteja geralmente cheia de gente de diversos países ligada às artes. Muitos se reúnem ali para o festival local de filmes que a Sra. Bruscolini ajuda a organizar. “A casa é algo que gostamos de compartilhar”, diz, “assim como era antigamente”.

A instável arte do viver

Por quanto tempo este trabalho terminado vai segurar a atenção do casal ninguém pode dizer. A atração pela arte e pelo design pode ser um negócio inconstante. Recentemente, o Sr. Astrologo chegou à súbita conclusão de que tinha superado a fase Art Déco, então reuniu e vendeu quase toda a sua coleção em prol da arte sino-tibetana da metade do século 20.

Quanto à Sra. Bruscolini, depois de terminar a filmagem do seu último trabalho, “Elementary Love” (um filme difícil, disse, no qual atores pré-adolescentes tem a maior parte dos papéis), ela seguirá para o seu próximo projeto: uma comédia.

Num sábado recente, enquanto esperava pelos convidados, ela especulou sobre o porquê de sua relação com o Sr. Astrologo dar certo (“nós passamos nosso tempo juntos sempre fazendo coisas muito interessantes e não em frente à TV”), e sobre a próxima parceria deles. Ela imagina uma casa em algum lugar das ilhas gregas, perfeitamente próxima ao mar.

Tradutor: Erika Brandão (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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