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Microapês de NY passam de moradias "acessíveis" a opções chiques e caras

Bruce Buck/ The New York Times
Estúdio decorado por James Lamond, em NY, tem apenas 25 m² e é inspirado no século 18 imagem: Bruce Buck/ The New York Times

Penelope Green

The New York Times, em Nova York (EUA)

“Microapartamento” tornou-se uma expressão de efeito e uma espécie de marco cultural em Nova York, graças ao atual prefeito da cidade Michael R. Bloomberg. Mas quando essas moradias de um quarto estavam sendo traçadas nas plantas dos primeiros prédios de Manhattan, particularmente durante os anos de expansão econômica da década de 1920, eram chamadas de “estúdio”.    

Os apês eram criados para os jovens homens e mulheres ambiciosos e com pouca grana que estavam chegando à cidade aos bandos e seu título romântico tinha a intenção de evocar o glamour e a boemia do modo preferido de viver dos artistas. Estúdio era uma “palavra mágica”, como escreveu uma vez o crítico literário e ex-editor do The New York Times, Anatole Broyard, sobre seu próprio apartamento barato na Prince Street, nos anos 1940. 

Claro, tal moradia era invariavelmente uma espelunca – e seu status era inversamente proporcional às fantasias reluzentes de seus jovens e esperançosos habitantes. E, estes, dois dos fatores essenciais nas melhores textos sobre Manhattan, como os ensaios de Ruth McKenney, que escreveu vividamente sobre o fungo que crescia todas as noites no teto do banheiro do espaço úmido que ela alugara junto com a irmã, Eileen, na Gay Street nos anos 1930.

Estúdio: ontem e hoje

O que aconteceu na última década só não conseguiu apagar aquela construção pouco atraente (porém necessária), literária e em desenvolvimento. Os moradores, hoje, transformam seus estúdios de maneiras que chocariam Broyard e McKenney, cujos horríveis apartamentos possuíam um ponto positivo: jogava-os na vida agitada da cidade que existia do lado de fora de seus lares.  

(O único esforço que McKenney teve quanto à decoração de seu estúdio foi aparar o fungo à noite, com tesourinhas de unha. Broyard pintou suas paredes de verde, e pendurou um pano rústico nas janelas: “Mas eu ainda me sentia solitário”, escreveu no livro “Kafka Was the Rage: A Greenwich Village Memoir”, “(...) Agora era uma solidão verde”.) 

Ousado e astucioso ou polido e estiloso, o estúdio dos dias atuais é, antes de mais nada, um refúgio atraente, mais um cartão de visitas da inventividade de alguém do que um símbolo de seu estoicismo e rebeldia. É também uma categoria própria de decoração e design.

Mas ainda é um o ponto de partida, e não só para os muito jovens. Na verdade, cada vez menos para os muito jovens, dado o alto custo dos imóveis.

A transformação do espaço

Imagine dois estúdios, um em cima do outro, em um diminuto prédio de seis andares de 1925 que já abrigou sua parcela de novaiorquinos interessantes, entre eles Alison Steele, a notívaga DJ de voz sensual da rádio progressiva WNEW. Este prédio foi originalmente criado com dois estúdios em cada andar, mas agora só restam três unidades, já que as demais foram absorvidas em apartamentos geminados.

No apartamento 5E, conhecemos James Lamond, 76 anos, um decorador charmoso que passa um final de semana em Manhattan a cada quinze dias. Lamond já viveu em uma casa majestosa do século 18 com 743 m² que estava repleta, segundo ele, “de coisas maravilhosas”.

Agora, divorciado e vivendo em um apartamento acima da sua loja em um prédio do século 19 em Connecticut, o decorador adotou uma abordagem maximalista para seu pedaço de chão novairoquino. Lamond se gaba de ter reúnido menos 100 objetos no espaço de 25 m², incluindo 40 pinturas, duas cômodas, cinco mesas de apoio, dez telas, duas mesas redondas dobráveis - que ele abre para jantares de até oito pessoas (embora tenha louça para 12 convivas) - e a cama de cachorro aveludada de Noah, seu poodle.

“Com o sofá-cama aberto, pode ficar apertado”, pondera Lamond, que usou velcro para fixar a bandeja decupada à mesa de apoio para não derrubá-la, quando tivesse que dar a volta nela e eventualmente tropeçasse em Noah, durante a noite, em uma ida ao banheiro. “Só há 15 cm de espaço livre, sem ter que pedir para o cachorro levantar”, calcula.

A compra e a reforma

Lamond encontrou esse apartamento em 2010 através dos classificados do New York Times, quando buscava pelo estúdio mais barato de Manhattan, segundo ele. Anunciado por US$ 225 mil, o imóvel já havia sido adaptado com estantes para guardar o excedente de uma coleção de livros da antiga proprietária (cerca de 10 mil unidades) e, mais tarde, foi usado como escritório.

Quando o estúdio foi anunciado por Ellen Kapit, uma corretora da Sotheby’s, o apartamento contava com uma parede equipada com estantes para livros, uma cozinha modular e um colchão queen size no chão.

Quando Lamond viu o imóvel, ofereceu US$ 162.500. Gastou mais US$ 70 mil, conta, desnudando o lugar até chegar ao tijolo e, então, reconstruindo tudo. O papel de parede é de camurça sintética e o teto está forrado com papel dourado feito à mão. As molduras em gesso são grandes, em camadas e pintadas de vermelho tijolo.   

As opções de armazenamento de Lamond são contraditórias: o closet ficou com 30 cm a mais de profundidade e a porta do banheiro 15 cm mais estreita, assim foi possível ladear a janela com estantes para livros. O decorador também projetou os armários da cozinha para que tivessem 76 cm de profundidade. “Consigo oferecer um coquetel para 20 ou 30 pessoas”, diz, com orgulho, abrindo os armários para exibir seus  copos e louças.

“O único problema com armários assim profundos e nivelados com o balcão é que fico batendo minha cabeça”, avalia, com bom humor. “Depois que coloquei os puxadores, piorou. Durante anos vivi em uma casa imensa. Mas é muito mais divertido estar cercado das coisas que você ama, e poder vê-las o tempo todo. Não que eu possa acrescentar muito mais aqui”.

Embora ainda trabalhe seis dias por semana, Lamond diz que pretende um dia se aposentar e morar ali. “Poderia viver aqui sem nunca mais precisar voltar para a minha casa, que está cheia de coisas maravilhosas”, conta. “Eu não teria problema algum em dizer adeus a elas”.

Idêntico

Foi o trabalho hábil de Lamond que vendeu o estúdio idêntico do andar de baixo para Barbara Horowitz, 60 anos, que - também é decoradora e - já viveu em uma casa grande e amplamente mobiliada em Westchester. 

Desde o seu divórcio, oito anos atrás, ela vem diminuindo gradualmente seus pertences, editando e cortando em uma série de mudanças. A decoradora agora possui uma casa de praia na North Folk, em Long Island, e queria o que chamou de “quarto de hotel” na cidade, “uma ruína em uma boa região”.

O apartamento 4E estava certamente parecendo uma ruína (espelhada, para completar). Quando Horowitz o viu, ela engasgou e disse ao corretor: “Acho que eu sou boa [em repaginar espaços], mas não tão boa assim”. “Espere um momento”, disse ele e, então, a levou até o andar de cima, na casa de Lamond. “Eu fiquei maravilhada”, lembra Horowitz, e que acabou comprando seu estúdio por US$ 180 mil. “O condomínio custa US$ 430. Quem resistiria”?

Como Lamond, ela teve que esvaziar o apartamento. Mas a reabilitação do espaço é notavelmente diferente da que o vizinho do andar de cima promoveu. Glamuroso e minimal, o apartamento tem contrastes que provocam os olhos, como um chão escuro e móveis claros, superfícies altamente reflexivas, entre elas um papel de parede de fibras vegetais prateado e fundo metalizado, além de acabamento brilhante nos armários da cozinha.

“A decoração capta a luz ricocheteando nas paredes”, explica Horowitz. “Gosto do modo como negociamos um espaço quando contrastes estão envolvidos. Você se concentra mais nesses contrastes ao invés de achar o espaço muito pequeno”.

Assim como no estúdio de Lamond, as molduras em gesso são largas, o que acrescenta peso arquitetônico ao ambiente e acaba por se tornar outro atrativo para os olhos, criando a ilusão de que o pé direito é mais alto.

Quando os fabricantes erraram as dimensões de sua cozinha, os embutidos chegaram 18 cm menores, “poderia ter sido um desastre”, conta Horowitz. Ao invés disso, ela projetou um armário para sapatos, um elegante armário corrediço que ela gentilmente demonstrou. Ela mantém as roupas “da cidade” aqui, além de duplicatas de seus cosméticos.

Do lado de fora da única janela, uma floreira preta brilhante está cheia de buxinhos artificiais. No total, segundo a decoradora, o gasto com reforma e decoração foi de cerca de US$ 60 mil.

“Adoro não estar apegada a tantas coisas”, reflete. “Todos aqueles objetos, todas as coleções, são maravilhosos e agradáveis enquanto você está fazendo seu ninho. Nesta fase da minha vida, posso dizer: ‘Estou desapegada. Estou livre.’ Você só se leva junto, esteja morando em uma casa grande em Westchester, esteja em um pequeno estúdio”.

Este é um ponto de vista que moradores de estúdios jovens e “de antigamente”, como Broyard e McKenney, reconheceriam.

Tradutor: Erika Brandão (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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