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Nos EUA, casal reconstrói casa modernista após incêndio

Trevor Tondro/ The New York Times
Casa modernista de vidro, em Connecticut, tem projeto assinado por James Evans, discípulo de Louis Kahn imagem: Trevor Tondro/ The New York Times

Penelope Green

The New York Times, em Wilton, Connecticut (EUA)

Entre as muitas histórias de terror doméstico, a de Jay Fielden é particularmente dramática e começa com o colapso financeiro em 2008. Ele e sua esposa, Yvonne Orteig Fielden, ambos agora com 43 anos, e seus dois filhos tinham acabado de se mudar para uma casa de vidro modernista, comprada por US$ 900 mil em 2007 e reformada durante oito meses.

Quando, enfim, estavam se instalando, Jay perdeu seu emprego como editor-chefe da Vogue Homem dos EUA e, ao sair efetivamente do trabalho, tomou consciência de que a época do seguro-desemprego tinha terminado. Então, em outubro de 2010, quando o jornalista estava desempregado havia um ano e o terceiro filho do casal acabara de nascer, um incêndio causado por curto-circuito se espalhou pela casa, destruindo quase tudo.
 
Se isso fosse um conto, seria exagero acrescentar que Jay, durante esse período, também contraiu a doença de Lyme e perdeu seu pai, mas essa história não é ficção e, acredite, tem um final feliz. “É incrível que ainda estejamos casados”, avalia Yvonne, que no meio de todos os eventos detalhados acima tornou-se cuidadora do pai, que sofre de demência. “Foram muitas dificuldades”, justifica.
 
O recomeço
 
Era uma manhã clara e fresca de um dia de semana e Jay Fielden havia voltado para casa do seu novo trabalho como editor-chefe da revista Town & Country. A residência tinha sido reconstruída (de novo), assim como a revista onde agora trabalha, uma publicação de 167 anos que luta para continuar relevante. (Na era das mídias sociais, que papel a crônica original da vida social norte-americana deveria desempenhar?) 
 
Jay, um elegante texano com o sotaque de Fred Thompson, é um ex-editor da revista New Yorker com gosto pelo cânone literário americano da época em que sua casa foi construída, em 1960. Talvez a característica mais expressiva da nova T&C seja a carta do editor, geralmente uma coluna pouco lida na maioria das revistas. A edição de novembro começou com as seguintes palavras: “Meus três filhos não gostam muito do fato de eu ter um emprego”.
 
De muitas maneiras, Jay Fielden é um símbolo da sua geração, um homem com um profundo senso de cuidado com seus filhos pequenos e pais idosos, enquanto tenta se manter no topo de sua profissão num ambiente econômico sacrificante. Mas depois de ter perdido tanto, justifica-se, sua vida é rica de maneiras que nada têm a ver com suas posses. 

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  • Douglas Nascimento/Divulgação
 “Se você se define por seus pertences”, Jay diz, “quem é você quando perde todos eles? Eu trabalho num mundo onde as coisas materiais são primordiais. Não há nada de errado em amar estas coisas lindas, mas elas podem começar a tomar conta de você. Mesmo tendo sido uma lição dura, foi bom saber que nós podemos nos manter em pé. Descobrir que a casa pode queimar, mas que os relacionamentos, o cuidado, não podem ser destruídos”.
 
E ele tem sorte o suficiente para ter uma esposa que consegue, gentilmente, trazê-lo de volta à realidade. “Quando eu estava crescendo no Texas”, conta Jay, “achava que ser editor/escritor era algo que aliava a habilidade em imprimir um estilo no papel com a habilidade em ter estilo na vida”. Ele zomba de si usando metáforas literárias, descrevendo uma casa que ele e sua esposa alugaram em Connecticut quando ela estava grávida do primeiro filho. Combatendo o fogo da casa antes que os bombeiros chegassem e se forçando a refletir sobre o que salvar.
 
Nos dias e meses que sucederam ao incêndio, os vizinhos dos Fieldens, em Connecticut, e seus colegas e amigos, em Nova York, uniram-se de maneiras surpreendentes e comoventes. “No meio desta perda terrível, com a vida que nós criamos queimada em 20 minutos”, reflete Yvonne, “de repente não tínhamos nem uma roupa íntima e do mesmo modo, de repente, tínhamos jeans, sapatos, xampu... Todos aqueles vizinhos, a maior parte que eu sequer conhecia, levando nossos gatos ao veterinário, nos ajudando... Eu me perguntava: ‘Eu seria este tipo de pessoa?’”
 
A reconstrução
 
Os Fildens moraram por um mês com amigos e, então, mudaram para um apartamento alugado, seguido por outro aluguel em uma casa de fazenda. Eles se jogaram no atoleiro de seguro e limpeza que sucede um desastre, quando ficou claro que a coisa mais sensata a fazer era reconstruir a casa – e não era uma decisão fácil ou divertida, o casal assegura, porque o desejo real era o de ir embora – Robert Dean e Jesse Carrier, o arquiteto e a designer que haviam recuperado a casa em 2007, ajudaram na reconstrução.
 “O objetivo é descobrir como criar um lugar que reflita quem somos, mas que não nos possua”, esclarece Yvonne. “Ou nos deixe com dívidas”, acrescenta Jay. “Desta vez tem muito mais Ikea”, Yvonne brinca, “do que Jesse deve estar acostumada”.
 
Construída por James Evans, protegido de Louis Kahn, a casa tinha todo o otimismo do seu período, como Dean colocou recentemente, “quando os arquitetos pensavam que tinham avançado em um novo tempo”. Também tinha todas as desvantagens: quartos pequenos, materiais baratos, espaços estranhamente conectados. Assim a nova casa, para a qual os Fieldens mudaram em 2012, possui um design quase perfeito – aberta e iluminada, ao mesmo tempo privada e segura – e amadurecido pela experiência vividas por eles.
 
Nem todos os pertences foram arruinados. Jay Fielden salvou metade de seus livros, juntamente com trabalhos artísticos de Irving Penn e de seus próprios filhos, além de alguma mobília de família. As bonecas Madam Alexander de Yvonne, as quais a mãe de Jay meticulosamente limpou e que agora vivem no quarto de Eliza, estão hoje somente com os olhos levemente enegrecidos.
 
E na mesa de centro da sala de estar, dois livros de arquitetura – um de Richard Neutra, outro de Louis Kahn – repousam, um sobre o outro. Se você remover o livro de cima, pode ver a sua silhueta brilhante na capa chamuscada e enegrecida do exemplar de baixo.
 

Tradutor: Erika Brandão e Daiana Dalfito (edição)

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