Casa e decoração

Em Cuba, prédios Art Déco sofrem pela falta de manutenção

Jose Goitia/ The New York Times
Datado da década de 1930, o Edifício Bacardi em estilo Art Déco, na Havana Antiga, foi restaurado imagem: Jose Goitia/ The New York Times

Victoria Burnett

The New York Times, em havana, Cuba

Kathleen Murphy Skolnik suspirou naquela manhã ao olhar para o alto da escadaria de um prédio de apartamentos datado de 1939 e apontar para o gradil de ferro com padrão Chevron instalado sobre o mármore rústico rosa acobreado. Era um simples canto da escada coroada por um arco. “É tão lindo,” resumiu Skolnik, historiadora de arquitetura que mora em Chicago, para então completar ; “e tão precário”.

As palavras de Skolnik servem como mote extraoficial para as construções ricas, amplas e frequentemente esquecidas que, dizem os especialistas, fazem de Cuba uma das mais significativas e negligenciadas coleções de arquitetura Art Déco do mundo.

Em março de 2013, 250 peritos cubanos e estrangeiros se reuniram em Havana para o congresso mundial de Art Déco e havia esperança de que o evento fosse gerar um maior reconhecimento da importância do conjunto arquitetônico da ilha e da necessidade de preservá-lo.

“Parte do nosso propósito foi fazer muito barulho”, resume Gustavo Lopez Gonzalez, diretor-adjunto do Museu Nacional de Artes Decorativas e um dos organizadores do evento. ‘Se nós, em Cuba, não apreciamos o valor destes edifícios, como podemos esperar que os estrangeiros o façam”?

Patrimônio em ruínas

Havana é reconhecida por sua elegância decadente e mais de um milhão de visitantes por ano passeiam entre os prédios coloniais da Velha Havana, muitos dos quais construídos entre os séculos 16 e 18 e cuidadosamente restaurados nos últimos 30 anos.

Mas Havana, como muitas cidades provincianas da ilha, também está cheia de casas, prédios de apartamentos, cinemas, teatros, hospitais e prédios comerciais em estilo Art Déco. São exemplares que vão do arrojado arranha-céu ao casario "streamline moderne" com suas belas linhas horizontais e cantos arredondados.

Tais marcos históricos podem não ser tão grandiosos quanto o Edifício Chrysler, em Nova York, e pode não haver um conjunto Art Déco tão coeso como o de Miami Beach, mas há quem diga que ali existe uma incomum reserva de construções ricas e diversificadas, muitas das quais ainda se mantem em pé – embora precariamente – atravessando 50 anos de domínio comunista.

No limiar da Velha Havana, por exemplo, localiza-se o Edifício Bacardi (1930), elaboradamente ornamentado e repleto de influências francesas com seus pequenos cumes decorativos em forma de zigurate (forma piramidal, com plataformas recuadas e sucessivas e degraus externos) e sua fachada decorada com um delicado padrão de folhas douradas em zigue-zague e morcegos de bronze, que são a logomarca do rum que nomeia a construção.

Logo ali, no bulevar principal da artística vizinhança de Vedado, está a mansão datada de 1927 e que pertenceu a um famoso casal da alta sociedade da época, Catalina Lasa e Juan Pedro Baro. Seu interior ostenta janelas de vidro Lalique decoradas com espirais em forma de concha e raios de sol, além de uma grande escadaria com corrimãos laminados e prateados, iluminados por altas janelas de cristal Baccarat.

Mais a oeste, numa praça monumental, encontra-se a imponente Maternidade dos Trabalhadores (1939), projetada na forma de um par de trompas de Falópio.

Sem especulação

A ausência de uma explosão no setor da construção nos últimos 50 anos poupou muitas das construções históricas de Cuba das escavadeiras das construtoras. Contudo, a falta de recursos, o excesso de umidade, a maresia e a impossibilidade dos cubanos - até um ano atrás - de comprar e vender imóveis contribuíram para que muitas construções estejam degradadas.

Associado a isso, os códigos de construção pobremente impostos e a superpopulação nas casas resultaram em alterações baratas - ou de gosto duvidoso - em prédios que deveriam ser considerados patrimônio histórico, dizem os arquitetos.

Por outro lado, muitos proprietários cubanos de casas Art Déco lutam para arranjar dinheiro e materiais de construção para fazer a manutenção adequada dos imóveis. Regla Maria Gonzalez gastou cerca de US$ 6 mil restaurando seu gracioso apartamento no Edifício Lopez Serrano, uma construção histórica, de 1932, com relevos e uma torre na parte traseira.

A moradora consertou as molduras de gesso, incluindo o medalhão do teto da sala de visitas com motivos que lembram um caracol marinho. Porém, os danos nos caixilhos das janelas eram irreparáveis, o que fez Gonzalez - que recebe uma pensão de cerca de 10 dólares por mês - vender seu carro russo Moskovich por milhares de dólares afim de trocar as armações.

Todavia, o resto do prédio tem sido bem menos amado. O design geométrico em forma de raio de sol no piso de mármore do saguão está intacto e é agraciado com a figura em relevo de Mercúrio, com seu capacete alado, feito pelo artista plástico cubano Enrique Garcia Cabrera (1893-1949).

Mas a fachada já perdeu pedaços da alvenaria, os pilares de sustentação na base do prédio estão ruindo e, há um ano, trabalhadores de manutenção que estavam trocando os elevadores arrancaram as portas originais – mesmo sendo o prédio protegido pelo Conselho Nacional para Herança Cultural. Diante da grave situação, especialistas dizem que a estrutura pode entrar em colapso em uma década, caso não receba amplos reparos.

“É uma vergonha que uma construção Art Déco histórica pereça por falta de fundos”, indigna-se Sara Vega, filha de Gonzalez, que mora com a mãe e está estudando a história do prédio.

"Esperanza, muchacho"!

Também existem casos positivos: Mitzi March Mogul, ex-presidente da Associação Art Déco de Los Angeles, lembra-se que quando visitou o Teatro de Sierra Maestra - da década de 1930 - no bairro de Lutgardita, periferia de Havana, há alguns anos e o classificou como um “desastre”.

GUIA DE VIAGEM: HAVANA

  • Andrea Dallevo/UOL

    Pessoas circulam pelo Parque de los Enamorados em Havana Velha; ao fundo, o Castillo de los Tres Santos Reyes Magnos del Morro, com o farol mais antigo de Cuba

Este ano, Mogul e aproximadamente 150 conhecedores de Art Déco – alguns trajados com roupas da década de 1930 – puderam admirar o teatro restaurado, com seu palco ladeado por altares no estilo Maia e adornado com serpentes e cabeças de tigre.

O Edifício Bacardi também teve sua glória restaurada nos últimos anos, pelo departamento dedicado à história municipal, que mantém e administra grande parte da Velha Havana.

Juan Garcia, um historiador da arquitetura cubana, afirma que a prática da arquitetura teve sua importância diminuída pelo governo comunista em favor do tipo de construção pragmática preferida pela antiga União Soviética. Práticas de arquitetura privada não existem mais, pouco espaço é dedicado à arquitetura na imprensa oficial e muitos cubanos que cresceram junto com a revolução de Fidel Castro em 1959 são completamente alheios a sua herança arquitetônica, explicita o historiador.

Um bom primeiro passo, sugere Garcia, seria reunir um registro das construções Art Déco cubanas e então começar a pressionar para que algumas sejam declaradas patrimônios históricos.

Geo Darder, um cubano-americano entusiasta do estilo - que pressionou para que o congresso mundial bianual fosse realizado em Cuba (apesar da forte resistência de alguns membros dos Estados Unidos que não apreciam laços muito estreitos com a ilha) -, disse que esperava que o encontro pudesse levar a mais intercâmbios entre os especialistas americanos e cubanos e que o emergente mercado imobiliário cubano estimulasse novos investimentos.

“Quando os cubanos perceberem que suas casas valem alguma coisa – e que a Art Déco é que agrega valor a elas – e, então, tomarem uma atitude, é tudo vai acontecer”, aposta Darder.

Tradutor: Erika Brandão (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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