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Restaurada, casa centenária já abrigou escritor e presidente

Suzanne DeChillo/The New York Times
A Wave Hill House, no Bronx, em Nova York, foi construída em 1843 e passou por um processo de restauro imagem: Suzanne DeChillo/The New York Times

Winnie Hu

The New York Times, de Nova York (EUA)

Mesmo com 2.230 m², a majestosa mansão em pedra no Bronx, em Nova York, tem sido há muito tempo ofuscada pelos mais celebrados jardins públicos e pela vista do Rio Hudson logo a sua porta.

Mas, antigamente, a Wave Hill House fora o lar de uma sucessão de proeminentes “nova-iorquinos”. Um jovem Teddy Roosevelt circulava pelo lugar como locatário de verão e, dizem, nutriu pelos ares de lá um amor por toda a vida.
 
Mark Twain, que já tinha passado dos 60 anos quando se mudou para lá, costumava dar festas do chá numa casa de árvore, no gramado dos fundos. E o maestro Arturo Toscanini deixou para trás tantos pertences num closet, no andar de cima, que foi chamado de “Closet Toscanini” por aqueles que tiveram que limpá-lo.
 
Depois de uma reforma de dois anos e US$ 9,8 milhões de dólares que restaurou seus quartos e resgatou sua importância histórica e cultural, a Wave Hill House - que foi doada à cidade em 1960 – foi reaberta em meados de 2013. O prefeito Michael R. Bloomberg presidiu a cerimônia: “Ao restaurar a histórica Wave Hill House como nunca havia sido feito anteriormente, o projeto [do centro cultural] irá receber ainda mais visitantes para desfrutar da bela paisagem do Bronx e aproveitar uma imensa gama de excelentes projetos de arte”, afirmou o prefeito.
 
História suntuosa
 
Sob qualquer parâmetro, a casa é luxuosa. São 13 lareiras, algumas das quais esculpidas à mão em mármore italiano, um terraço com vista panorâmica para o rio, um hall medieval e inúmeros detalhes de época, como armários escondidos, portas de mogno e luminárias de bronze.
 
A Wave Hill House foi construída em 1843 por um advogado bem-sucedido, William Lewis Morris, para sua esposa e seus sete filhos. O nome da casa “Wave Hill” (onda da colina) deriva de várias versões, em uma delas Morris, chegando de barco para ver a futura casa deles, comparou a encosta do morro a uma onda quebrando na praia. (Outra história atribui o nome da casa às pessoas acenando para os barcos que por ali passavam).

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Depois da morte de Morris, a família retornou a Manhattan e a casa foi vendida para William Henry Appleton, um editor. Ele reformou a casa, que originalmente tinha aparência neoclássica, e a transformou em uma vila vitoriana. O publisher também mudou a entrada da frente - que era voltada para o rio - para os fundos, a fim de refletir a crescente confiança nos transportes rodoviário e ferroviário. 
 
Foi em 1870 que Appleton alugou a casa para o primeiro de dois verões em que os Roosevelts - cujo filho mais velho, Theodore, cresceria e se tornaria governador e, depois, presidente – desfrutariam na casa. 
 
Apenas três décadas depois, outro famoso locatário se mudou. O escritor de “As Aventuras de Tom Sawyer”, Samuel Langhorne Clemens - mais conhecido pelo pseudônimo Mark Twain -, estava pouco impressionado pelos invernos gelados. “Acredito que nós temos as mais majestosas rajadas de vento que eu já vi na terra rugindo aqui”, escreveu. “Elas cantam sua canção rouca pelas copas das árvores, com uma energia tão esplêndida que me eleva e me emociona e me faz querer viver para sempre”.
 
De mão em mão
 
A casa posteriormente foi comprada por um financista chamado George W. Perkins, que incorporou à mansão outras propriedades da vizinhança, criou caminhos e semeou jardins. O próprio Perkins nunca morou na casa, mas sua família e amigos sim. Sua filha, então, eliminou muito dos detalhes vitorianos e a transformou numa casa de campo inglesa.
 
Por sua vez Bashford Dean, curador de armas e armaduras do MET (Metropolitan Museum of Art), apenas alugou a casa, mas isso não o impediu de deixar sua marca na construção. Dean decidiu construir uma ala em estilo gótico para sua coleção pessoal.

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O Hall das Armaduras, como é conhecido hoje, tem uma lareira em baixo relevo representando a ressurreição e um teto abobadado feito com a madeira recuperada da construção do metrô da Avenida Lexington. O hall é frequentemente alugado para recepções de casamentos e possui um balcão - como o de Julieta -, de onde as noivas podem jogar seus buquês.
 
O maestro Toscanini chegou em 1942, durante os anos de guerra. Ele foi seguido pela delegação britânica às Nações Unidas, cujos diplomatas entretiveram convidados notáveis como a Rainha Elizabeth, a Rainha-mãe e o estadista John Foster Dulles.
 
Hoje, Wave Hills é conhecida pelo trabalho artístico de seus jardins, que são meticulosamente mantidos por jardineiros com formação em artes plásticas, bem como em horticultura. Martha Stewart afirma que em Wave Hill está um dos seus jardins favoritos e o “Saturday Night Live”, recentemente, utilizou a casa como locação para “o casamento ideal” em um esquete sobre casamentos gays perfeitos.
 
No andar térreo hoje existe um café, uma loja de presentes e banheiros públicos. O Hall das Armaduras tem sido usado para leituras e concertos. Aulas de arte para crianças são ministradas no porão e conferências têm lugar no andar superior, nos cômodos que já foram quartos.
 
Kenneth Anderson, 62 anos, um executivo e professor aposentado que visita a casa quase toda a semana, pediu sua esposa em casamento debaixo de um caramanchão da propriedade, 30 anos atrás. “Wave Hills é um estilo de vida”, afirma, “é a prova de que você não tem que ter milhões de dólares para viver como um milionário”.
 

Tradutor: Erika Brandão (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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