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Casa combina elementos geométricos e decoração excêntrica

Tony Cenicola/ The New York Times
A mesa de apoio octogonal, criada por Bruce Goff, sustenta a escultura de vidro assinada por Stephan Cox imagem: Tony Cenicola/ The New York Times

Sarah Amelar

The New York Times, em Kansas City, Missouri (EUA)

Conforme você se aproxima da Nicol House, pode não perceber que as peças incrustradas na porta de entrada são cinzeiros italianos de vidro ou que pequenos espelhos de lojas de variedades estão cintilando entre as telhas. Mas você saberia que está prestes a vivênciar algo fora do comum.  

Completamente diferente das casas em estilo colonial de seus vizinhos, a casa octogonal possui um ziguezague de janelas triangulares e uma pirâmide coroando seu telhado plano, com um asterisco de bolas de aço e vergalhões no topo.  

 
“Que casa incrível! Uau!”, é o que seu atual dono, Rod Parks, lembra de ter pensado quando atravessou sua soleira pela primeira vez, em direção à área de estar central, coberta por um carpete verde fosforescente. Isso foi em 1997, e Betty Nicol, que havia solicitado a construção da casa da cidade do Kansas, no Missouri, junto com o marido James, um banqueiro, tinha colocado a mesma à venda. Na época com quase 80 anos e viúva, Betty procurava um lugar menor do que a casa de 390 m² onde o casal criou os três filhos.
 
Parks, hoje com 56 anos, também estava, na época, passando por um período de transformação: de candidato a Ph.D. em psicologia para negociante de móveis, especializado em peças dos anos 1950. E, embora estivesse curioso para conhecer a casa do lendário arquiteto Bruce Goff (1904-1982), não estava procurando nada para comprar. 
 
Na época, Parks estava focado na abertura do “Retro Inferno”, seu empório de móveis no centro de Kansas City. Mas ele vivia ali perto e, eventualmente, ia a festas dadas pelos novos donos da residência incomum. E, com o tempo, passou a aprender e se inetressar sobre Goff. 

homem constrói sua casa em madeira entalhada há 30 anos

  • John Burcham/The New York Times
A obra
 
Carinhosamente apelidado de BG pelos filhos dos Nicol, o arquiteto autodidata morreu em 1982, aos 78 anos. Seu aprendizado sobre arquitetura teve início aos 12 anos e, três anos depois, o jovem Goff já havia “quebrado barreiras” em sua primeira construção. Por fim, o arquiteto comandou o programa de arquitetura da Universidade de Oklahoma.
 
Embora tivesse sido influenciado pelo trabalho de Frank Lloyd Wright, Goff desenvolveu seu próprio estilo exuberante, sempre integrando elementos não-convencionais ao espaço, como tiras de celofane, penas de peru e peças de aviões. 
 
Os Nicols conheceram o peculiar arquiteto em 1964, quando ele lecionava no Instituto de Artes de Kansas. A filha do casal, Kathy, que tinha 12 anos na época, lembra que seus pais “ficaram com as costelas doendo de tanto se cutucarem, pois compartilhavam muitíssimo da sensibilidade moderna e excêntrica de Goff”. Assim, o casal o contratou na mesma hora.  
 
A ideia de Goff, continua Kathy, era projetar uma casa para aquela “família de indivíduos”. Então sua planta em forma de colmeia era centralizada em uma área de estar octogonal, cercada por quartos octogonais de várias cores, do roxo ao laranja, refletindo o gosto particular de cada membro da família. 
 
A geometria da casa é tão ousada quanto suas cores. Além dos quartos octogonais, você encontra telhas de revestimento hexagonais e uma piscina hexagonal. E há triângulos em todos os lugares: nas janelas, nos armários da cozinha, nas pias do banheiro e até mesmo nas privadas. 
 
Claraboias recobrem todos os espaços, fazendo ecoar a geometria mais dramaticamente sobre a área de estar central. Ali, Goff criou uma fonte de água e fogo feita com um boiler cortado ao meio, um chuveiro invertido e um anel de cobre furado com jatos de chamas ardentes. No teto, um véu de espelhos foi pendurado. 

Conheça a casa-instalação em Catskill (EUA)

  • Tony Cenicola/ The New York Times
A nova era
 
Pairando sobre a fonte, agora há também um satélite soviético comprado pelos moradores que compraram a casa da família Nicol. O satélite foi adquirido pela internet e instalado ali antes que a casa fosse novamente posta à venda, em 2009. 
 
Aí, Parks entra novamente em cena. O negociante pediu a chave dos proprietários emprestada para uma rápida visita e acabou ficando na residência por três horas. “A casa me pegou como nunca havia acontecido antes”, resume, “ela me pegou e eu a peguei.” A propriedade com cerca de meio hectare custou US$ 650 mil. 
 
Parks não tinha dúvidas sobre como ele e seu poodle, Ettore, iriam ocupar a casa de quatro quartos, mas ele tinha outra preocupação: “Aqui estava eu, o homem dos móveis”, lembra, “mudando para uma casa com tantos elementos embutidos”.
 
Em suas casas anteriores ele havia exibido suas mercadorias favoritas, mas aqui, as camas de alvenaria, as escrivaninhas, as penteadeiras com fôrmas de bolo fazendo o papel de gavetas e as mesas fixas na sala de jantar e na cozinha eram parte integrante do projeto da casa. Logo, entretanto, o comerciante entendeu que não precisaria “sempre ter as melhores peças da loja. Posso ter boas coisas, mas não de tantas delas”.
 
Os bens escolhidos para integrar a decoração incluem uma bateria de acrílico transparente, que fica no quarto de Parks (baterista amador), um par de “assentos” criados por George Nelson - em seus primeiros anos de carreira - e um conjunto “vintage” de cadeiras de acrílico assinadas por Erwine e Estelle Laverne, como as que os Nicols possuíam. 
 
No eBay, Parks encontrou um fragmento da Shin’en Kan, a conhecida casa de Goff em Bartlesville, Oklahoma, que pegou fogo em 1996 e deve incorporá-lo à casa. E, assim que o carpete cinza ficarem gastos, ele pretende voltar ao chamativo verde-amarelado original. “Quando comprei esta casa, pensei: ‘Será que estou sendo nostálgico, andando para trás?’ Então me ocorreu: Goff sempre esteve à frente da curva”.

Tradutor: Erika Brandão (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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