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Reforma de teor artístico e político reconstitui Rússia dos anos 1930

Andrea Wyner/ The New York Times
Apartamento de Sergei Bobovnikov, em São Petesburgo, tem referências da Art Déco e do estilo "Stalinista" imagem: Andrea Wyner/ The New York Times

Andrew E. Kramer

The New York Times, em São Petersburgo, Rússia

No meio do processo de restauro de uma majestosa cobertura, em um dos bairros mais elegantes de São Petersburgo, o proprietário resolve adotar um plano inteiramente novo. Era mais do que uma mudança na paleta de cores. “Decidi que queria projetar um apartamento com estilo próximo do que seria a residência de um burocrata importante do início do período stalinista” resume Sergei Bobovnikov, de 47 anos. E assim começou a reforma incomum até mesmo para os padrões russos.

Ser elegante e chamativo é corriqueiro na Rússia da atualidade. A meditação sobre a história do design do país, com sua linguagem esquerdista de elementos decorativos agrícolas e da classe trabalhadora, é menos comum, mas não inédita.
 
Mesmo assim, o espaço em questão pouco evocava o luxo do “Politburo” (comitê executivo de grande importância que reunia numerosos partidos comunistas do Leste Europeu), quando Bobovnikov o comprou em 2002 pelo equivalente a US$ 220 mil. Originalmente projetado para ser uma residência única, o apartamento tornou-se um espaço comunal decrépito, ocupado por oito famílias distribuídas em uma fileira de pequenas salas ao longo de um corredor sem luz.
 
Bobovnikov, que havia se divorciado recentemente e precisava de um novo lar, pretendia reformá-lo para que apressentasse um estilo moderno e confortável. Mas a história do edifício do início do século 20 - que havia sido lar de uma série de influentes funcionários stalinistas da época e que serviu como pano de fundo para o Grande Expurgo do final dos anos 1930 -, parecia pedir por um tipo de declaração, algo que Bobovnikov definiu como: uma afirmação grandiosa, mais artística, que não tentasse esconder aquele momento decisivo na história do país.
 
A ideia de criar um interior da era stalinista foi gradualmente tomando forma, à medida que o proprietário derrubava as paredes que dividiam o apartamento em ambientes pequenos e escuros, revelando suas generosas proporções originais, um marco da Art Déco Russa dos anos 1930.
 
Tal descoberta não foi certamente uma surpresa completa. Bobovnikov é um negociante de antiguidades especializado na arte ideológica do início do período soviético: “O conceito foi se formando claramente em minha mente”, afirma, “eu possuía muitos itens dos quais realmente gostava e que se encaixaram ao projeto como um mosaico”.
 
Acredite, ele é contra o stalinismo
 
O antiquarista rapidamente esclarece que não é simpatizante de Stalin. “O stalinismo é repulsivo, assim como o fascismo”, afirma Bobovnikov, que decidiu usar o apartamento como um lugar para exibir sua arte e se encontrar com clientes, além de manter o espaço para o pernoite de seus hóspedes, ao invés de oferecer sua residência principal. “Mas o design do fascismo italiano, por exemplo, é muito popular agora e eu entendo o porquê, visto que eu mesmo o aprecio. Quando comecei não sabia que o stalinismo também seria uma tendência”, pontua.
 
Por coincidência, o estilo Stalinista Imperial - que se baseia na Art Déco e nas linhas limpas do design italiano da era de Mussolini - está desfrutando de uma espécie de “mini-renascimento” na Rússia, explica Xenia Adjoubei, professora de história e teoria da arquitetura na Escola Superior Britânica de Arte e Design e que também tem um escritório de design em Moscou.
 
Os interiores da era stalinista são extremamente apreciados por sua beleza e aparência minimalista, afirma a professora. Mas recriar um destes interiores do zero, pode parecer estranho para alguns ou, até mesmo, um pouco assustador, reconhece. “Mas isso é desconcertante apenas se você perceber que esta pessoa quer recriar o estilo de vida de um membro da NKVD”, Adjoubei acrescenta, referindo-se à polícia secreta dos anos 1930. “Bobovnikov, provavelmente, está apenas apreciando o valor estético”.
 
O interesse de Bobovnikov no estilo, contudo, não era puramente estético. O antiquarista e negociante de arte queria instigar conversas sobre este episódio na história do país com qualquer visitante – como ele próprio esclarece - destacando o contraste da exuberância e otimismo da arte e dos itens decorativos com “a compreensão de como tudo terminou para aquelas pessoas”. Então, Bobovnikov decorou o apartamento como se este tivesse pertencido a um membro do Sovietes de Leningrado da década de 30, ou da Câmara Municipal, com bugigangas e arte para combinar.
 
Muitos oficiais da era Stalin, de fato, chamaram este prédio de lar, mesmo que por pouco tempo. Um deles foi Sergei Kirov, o proeminente líder bolchevique cujo assassinato em 1934 marcou o início do "Grande Expurgo" de Stalin, no qual – estima-se - mais de um milhão de pessoas foram presas ou executadas. Muitos outros residentes morreram durante outra onda de prisões em massa, conhecida como o Caso Leningrado, em 1949.
 
O processo de reforma e decoração
 
Mas mesmo  em uma construção com uma história tão dramática, não foi fácil alcançar a aparência daquele período mais de meio século depois. Bobovnikov gastou quatro anos e o equivalente a US$ 75 mil reformando o apartamento. Valor que não inclui o custo das antiguidades e da arte, algumas das quais estão atualmente integradas à propriedade.
 
O antiquarista descobriu que, para criar a atmosfera apropriada, o importante são os detalhes. Um gabinete, por exemplo, foi revestido por  painéis de carvalho com temática de tratores em baixo-relevo, que estava originalmente na biblioteca do diretor da fábrica de tratores Kirov.
 
Outro conjunto raro e valioso - um jogo de cadeira e mesa de carvalho - possui um "Pão do Comunismo", tema agrícola entalhado por um dos designers da “Ordem de Lenin”. Pinturas realistas do período socialista adornam as paredes, entre elas uma representação sinistra de um grupo de pequenos alunos admirando uma estátua de Josef Stalin.
 
Outros detalhes são versões modernas de temas soviéticos. Na cozinha, um novo fogão italiano da marca Smeg foi decorado com elementos de design de época, entre eles uma folha de bronze - que veio da lanchonete de uma concessionária de energia elétrica soviética - retratando um martelo e uma foice entrecortados por um relâmpago. No equipamento, o puxador da porta do forno é uma torneira de samovar (utensílio russo para servir chá).
 
O banheiro foi feito nos moldes de um vestiário de um ginásio esportivo soviético; luzes industriais de um rebocador foram reaproveitadas para iluminar o espelho. Enquanto o longo corredor do apartamento é azulejado como em uma instituição estatal da era soviética, num esquema de cores verde (cerâmica) e creme (rejunte) que não é mais usado ou produzido, assim Bobovnikov teve as peças feitas por encomenda.
 
E quanto aos seus clientes de antiguidades? A maioria deles são empresários mais velhos ou funcionários do governo, conta Bobovnikov, que foram criados assistindo filmes soviéticos que retratavam configurações semelhantes para a elite e os poderosos de uma geração anterior. Ver um desses interiores ganhar vida lhes causa vertigens: “As pessoas gostam da atmosfera. Eles não gostariam de viver aqui, mas gostam de visitá-lo”, resume.
 

Tradutor: Erika Brandão (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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