Casa e decoração

Geometria de cabana mantém temperatura agradável e aproveita a luz do sol

Tony Cenicola/ The New York Times
Cabana estruturada com paralelepípedo e triângulo isósceles é pioneira entre casas solares passivas imagem: Tony Cenicola/ The New York Times

Anne Raver

The New York Times, em Kinderhook, Nova York (EUA)

A pequena casa solar passiva que o arquiteto Dennis Wedlick projetou há mais de 25 anos com seu parceiro de vida, Curt DeVito, na época foi uma obra-prima. Ela possui toda a geometria excêntrica de uma casa Wedlick: um triângulo isósceles agudo em cima de um paralelepípedo; quatro colunas brancas a sustentar o pequeno alpendre e janelas que vão do chão ao teto para um ganho mais eficiente de luz solar.  

“A forma triangular, alta e esguia funciona como uma grande chaminé, literalmente puxando o ar frio para dentro e deixando que o ar quente escape pela pequena claraboia no cume”, explica Wedlick, 53 anos, exibindo sua casa em um dia quente de 2013. “Queria algo do menor tamanho possível, embora desejássemos que nossas famílias nos visitassem. O objetivo era ter 74 m² e três quartos. Esse foi o exercício da criação. Qual o menor tamanho possível para o banheiro e para a cozinha?”
Bem pequenos, considerando que eles amontoam 14 pessoas na casa no Dia de Ação de Graças. Como DeVito, de 52 anos, um advogado fiscal que adora culinária e jardinagem, relembra: “Eu cozinhei o peru em uma cozinha compacta, num forno da Sears com cooktop elétrico”. 
 
A casa custou US$ 75 mil para ser construída e tinha todos os elementos de um bom design para o aproveitamento da luz do sol. O beiral do telhado faz sombra para a casa durante o verão, mas permite a entrada dos raios com ângulos mais baixos, no inverno. As janelas voltam-se às faces norte, leste e oeste, mas detêm exposição limitada para o sul (o que pode superaquecer uma casa solar passiva).  
 
“Puxadinho”
 
Por volta de 1995, Wedlick e DeVito acrescentaram um celeiro com vigas em arco com cerca de oito metros de altura e um telhado abobadado no estilo Shaker, assim os hóspedes poderiam se espalhar quando o clima estivesse ameno. No inverno, eles simplesmente fecham as grandes portas e deixam a construção “hibernando”. 
 
Durante os últimos oito anos, eles gastaram US$ 450 mil em reformas, instalando aquecimento, janelas customizadas e portas francesas, um ar-condicionado de alta potência e um pequeno anexo que permitiu uma área de entrada, um banheiro maior e uma cozinha com eletrodomésticos de baixo consumo de energia, além de painéis solares no telhado do celeiro.  
 
“Ai se eu soubesse o que sei hoje em dia…”, diz Wedlick, “eu teria gasto todo aquele dinheiro em uma reforma para transformá-la em uma casa passiva. Ainda me orgulho do que fiz, mas é como ser dono de uma casa antiga. Você a perdoa por ser ineficiente”.
Casas Passivas
 
A recente imersão de Wedlick em casas passivas, que recebem tanto sol e são tão herméticas que precisam de uma pequena fração da energia que uma casa normal usa para aquecer e resfriar, faz com que os elementos que já estiveram na ponta da tecnologia nesta casa de campo solar passiva pareçam completamente ultrapassados.  
 
(Pode não parecer que há muita diferença entre “solar passiva” e “passiva”, mas a distinção é importante: uma casa solar passiva coleta e armazena a energia do sol, mas como qualquer construção, ela pode deixar escapar o condicionamento térmico; uma casa passiva se baseia em um sistema mais avançado que independe do sol e emprega um superisolamento e uma estrutura que permitem manter o calor no inverno e o frescor no verão.)
 
Embora possa deixar o ar escapar, esta cabana de 93 m² foi o que deu início à carreira de Wedlick como um grande arquiteto. Desde então ele projetou algo como 80 casas solares passivas. Em 2012, ele mudou o nome de sua empresa, Dennis Wedlick Architect, para BarlisWedlick Architects, para reconhecer os muitos projetos que fez com o parceiro de muito tempo na arquitetura, Alan Barlis. (Os dois fizeram uma monografia sobre seus estilos favoritos que foi lançada recentemente pela Oro Editions, “Classic and Modern: Signature Styles”).
 
Wedlick exibe um novo projeto de casa passiva, uma estrutura de 149 m² em Claverack, Nova York, com vigas em arco elevadas e uma parede de vidro de dois andares, com face para o sul. A primeira casa passiva a receber o certificado no estado de Nova York (e um dos quatro projetos para os quais ele obteve certificado), ela gasta 84% menos para refrigerar e 99% menos para aquecer do que uma casa convencional do mesmo tamanho, segundo o arquiteto. E em um dia de 32ºC, a construção mantém a temperatura interna em confortáveis 21ºC, apesar da parede de vidro, graças à sua forma compacta e aos painéis com 30 cm de grossura super-isolantes que envolvem a construção. 
 
A casa passou com louvor em seu “teste do vento”, Wedlick conta, referindo-se ao teste realizado durante a construção para medir a quantidade de ar que vaza para dentro ou para fora. “O nosso foi cinco vezes mais baixo que o mínimo de impermeabilidade requerido”, conclui. “Achamos que nossa máquina medidora havia quebrado.” 
 
Pelo fato de uma casa passiva ser virtualmente hermética, uma unidade de ventilação com energia reutilizável faz a exaustão do ar viciado e põe ar fresco para dentro, trocando calor no processo: no inverno, o calor do ar que sai é transferido para o ar frio que entra, no verão, o calor e a umidade são retirados do ar que entra e transferidos para o ar parado que sai. “Pense em uma garrafa térmica que mantém alguma coisa quente ou fria o máximo de tempo possível”, argumenta Wedlick. “Tudo o que uma casa passiva faz é criar um equilíbrio.” 

Projeto eficaz diminui entulho e cria casa mais sustentável

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Voltando à casa pioneira
 
DeVito olhava fixamente para as ultrapassadas janelas de correr verticais com vidros duplos do chão ao teto. Ele já havia ouvido aquilo antes. “Amamos esta casa, é nosso lar”, afirma Wedlick. 
 
O campo mantém-se cheio de verbascos, rendas de bispo e trevos. Um bosque de altos pinheiros brancos cresceu voltado para a esquerda, onde embaixo fica um lago. Mas assim como a casa, a paisagem diversificada representa uma longa curva de aprendizado. 
 
“Quando viemos aqui pela primeira vez, o campo estava cheio de sumagres e cedros”, conta DeVito. “Chamamos um cara com um cortador rotativo para colocar tudo abaixo.” O que eles sabiam? “Éramos dois caras da cidade”, reconhece Wedlick, que cresceu em Secaucus, Nova Jersey. “Estávamos plantando narcisos na floresta!”
 
Ele conheceu DeVito, que cresceu em Elmwood Park, Nova Jersey, no Instituto de Tecnologia de Nova Jersey em 1979. Ambos tinham 19 anos. 
 
 “Eu fazia arquitetura, ele fazia ciência da computação, estudando casos de uso de energia”, explica Wedlick. “Aprendemos sobre passividade solar e conservação de energia”.  Depois, Wedlick se transferiu para a Universidade de Syracuse para fazer mestrado em arquitetura. Na época, DeVito trabalhava para uma empresa de softwares e pagou os estudos do parceiro. Quando Wedlick se formou e começou a trabalhar para o arquiteto pós-moderno Philip Johnson, DeVito resolveu fazer faculdade de Direito e, então, Wedlick financiou seu curso na Universidade de Nova York. 
 
“Quando peguei minha primeira comissão em Hillsdale” – por seis cabanas solares, três das quais foram construídas – “Curt havia se formado, então eu disse: ‘OK, agora a gente pode comprar um pequeno prédio em Manhattan'”, conta Wedlick. Mas o único lugar que eles tinham dinheiro para pagar era um micro apartamento em ruínas na West 108th Street, então DeVito sugeriu, como alternativa, que procurassem algo no interior. 
 
Eles foram para o Condado de Columbia no final do outono de 1986 para dar uma olhada numa propriedade de 4,5 hectares de campos agrícolas antigos e bosques. Em fevereiro, com empréstimos dos pais de ambos, haviam comprado o terreno por US$ 40 mil.
 
Quando praticamente atingiram os limites do empréstimo que tinham para a construção, família e amigos doaram sua força de trabalho. (O fato de os pais de ambos serem eletricistas ajudou.) 
 
Em 1988, a casa estava completa e os dois rapazes da cidade estavam tentando fazer crescer grama numa área do tamanho de um campo de futebol, no topo do que era essencialmente cascalho com uma camada fina de terra. Se eles irrigassem por muito tempo com o "sprinkler", o poço ficava seco. No final, eles simplesmente deixaram a grama ficar marrom.
 
Para tentar algo novo, eles reduziram o tamanho do gramado a uma área de sete metros quadrados de verde na frente da casa, cercada por um muro baixo de pedra com "sprinklers" escondidos e programados para ligar no início da manhã. Eles semearam o gramado com tomilho e deixaram os dentes de leão crescer.
A paisagem capestre
 
Ficamos conversando à beira da lagoa, vendo as libélulas azuis-brilhantes batendo na água. “Eu costumava pensar nelas como pragas”, revela DeVito. “Que deveríamos chamar alguém para jogar algum produto químico na água para mantê-la limpa.”
 
Quando pararam de querer controlar a natureza, os sapos voltaram e taboas começaram a crescer. E, então, a dupla trouxe samambaias e bordos vermelhos da floresta circundante para plantar junto à água.
 
Um torvelinho de pássaros voou sobre nossas cabeças até o começo da floresta, e Wedlick disse: "Olha, lá se vão as andorinhas do Curt." DeVito coloca caixas com comida para azulões e andorinhas e gosta de pensar que as mesmas famílias retornam a cada ano.
 
DeVito gostaria de ter uma pequena piscina para se refrescar, sem sapos e tartarugas mordedoras ou sanguessugas. "Poderíamos bombear a água até o morro e deixá-la fluir de volta para baixo em uma pequena cachoeira", devaneia.
 
Wedlick, que vem protegendo as piscinas vernais em seu mais recente projeto de casa passiva e sonhando com uma piscina natural purificada pelas plantas, sugere: "Por que não usar as plantas para purificar a água?"
 
DeVito pareceu um pouco contrariado. “Isso me parece necessitar de muita manutenção”, arremata. Wedlick parece cheio demais de novas ideias. Mas depois de 33 anos, DeVito está acostumado a isso.
 

Tradutor: Erika Brandão (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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