Decoração de ambientes

Conheça Sheila Bridges, a decoradora dos poderosos e de Bill Clinton

Trevor Tondro/ The New York Times
Pedacinho da sala de jantar do apartamento da designer Sheila Bridges, no Harlem, em Nova York (EUA) imagem: Trevor Tondro/ The New York Times

Penelope Green

The New York Times, em Nova York (EUA)

Sheila Bridges fingiu ter câncer uma única vez, quando um guarda estadual a parou por excesso de velocidade na Estrada Taconic. Na época, Bridges, a designer de interiores que a revista Time uma vez considerou um dos maiores talentos dos Estados Unidos, já era notável por sua perseverança (uma negra se destacando em uma área dominada por brancos), seu estilo de design particular (um sensual e espirituoso classicismo) e seus clientes (magnatas da música como Andre Harrell, escritores de best-sellers como Tom Clancy e, notoriamente, o ex-presidente dos EUA Bill Clinton). Mas ela não estava acostumada a receber tanta atenção por seu cabelo ou pela falta dele.

Em 2004, Bridges estava no auge da carreira, desdobrando-se entre um programa de TV, linhas de produtos, pretendentes de “alto nível” e clientes que exigiam atenção, quando seu cabelo começou a cair. O diagnóstico foi de alopecia, no caso de Bridges, uma doença autoimune. E, como ela relata em "The Bald Mermaid”, (“A Sereia Careca", em tradução livre) - suas memórias duramente contadas e publicadas pela Pointed Leaf Press - em vez de lutar com perucas ou apliques, decidiu raspar a cabeça.

“Chegou o ponto em que as mechas de cabelo que eu estava perdendo estavam atraindo toda a atenção”, Bridges declara. “Então, ao invés de tentar esconder ou negar a minha perda de cabelo eu decidi que iria encará-la e cabeça erguida", conclui. Enfrentar as coisas é uma habilidade há muito cultivada pela designer. Mas, como muitas mulheres bem-sucedidas, ela descobriu que sua capacidade de fazê-lo nem sempre é bem aceita por seus colegas.

“Quem você pensa que é?” era uma repreensão comum quando Bridges era uma jovem assistente na Shelton, Mindel & Associates, uma empresa de arquitetura e design de Manhattan, e se recusou a lavar os pratos. Porque quando você é mulher e negra, ser franca e determinada nem sempre conta pontos a seu favor.

Força e voz

Numa recente tarde abafada, Bridges estava sentada na sala de estar decorada em um azul profundo, no elegante apartamento do Harlem, que se tornou seu cartão de visitas. Era uma pequena figura em uma camisa campesina com babados. “Eu acho importante que, como mulheres, contemos nossas histórias”, afirma a designer. “Particularmente, quando se é afro-americana. Ninguém vai contar minha história como eu contaria e isto não é apenas sobre a perda do cabelo. É sobre como devemos nos sentir confortáveis em nossas próprias peles”, arremata.

O que nos leva de volta à multa por excesso de velocidade da qual Bridges escapou na Estrada Taconic, alguns anos atrás. Lá estava ela, em suas próprias palavras, "uma negra dirigindo" uma Range Rover, quando foi parada. E, enquanto a designer se preparava para a inevitável pergunta "De quem é este carro?", percebeu que o policial estava confuso por causa de sua calvície. Quando foi questionada sobre para onde estava indo com tanta pressa, Bridges respondeu – honestamente - que tinha uma consulta no Centro Médico da Universidade Columbia (era uma consulta odontológica, mas isso, ela não mencionou). Em uma reação que se tornou frustrantemente comum desde que ela raspou a cabeça, o oficial a classificou como uma paciente com câncer e a mandou seguir.

  • Trevor Tondro/ The New York Times

    A designer Sheila Bridges posa na sala de seu apartamento, no Harlem, em NY. Ela sofre de alopecia, que determina quedas de cabelo, e escreveu o livro "The Bald Mermaid"

De publicitária a designer

Bridges é uma memorialista animada, habituada desde a infância a navegar em um mar familiar de equívocos e preconceitos, com um humor ácido e a "dupla consciência", para citar W.E.B. Du Bois. Quando se formou na Universidade Brown, Bridges imaginou uma carreira na publicidade (sua tese fora sobre os estereótipos de gênero e raça em anúncios impressos). Mas depois de um fiasco num almoço em que estava sendo entrevistada (havia espaguete envolvido), ela respondeu a um anúncio para ser assistente no Shelton Mindel. E alguma coisa lhe deu um insight: "Eu podia me ver fazendo aquilo sempre. De repente eu me senti em casa", resume a designer de interiores.

Apesar de suas disputas no escritório de arquitetura, ela amava seu trabalho e o fazia bem. Logo, Bridges conseguiu se formar em design de interiores na Parsons, curso que ela mesma pagou, e aprendeu que era responsável por suas próprias escolhas. Assim, passou a trabalhar para Renny Saltzman, decorador que morreu em 2000, antes de alçar um voo solo, aos 30 anos.

No início da carreira, Bridges soube através de amigos que o magnata da música Andre Harrell, estava procurando um apartamento. Ela, então, fez ligações para seu escritório durante quatro meses antes que ele finalmente a atendesse e lhe oferecesse apenas 15 minutos para fazer sua argumentação. Com sua típica determinação, a designer de interiores prometeu encontrar um apartamento para ele, caso fosse contratada para decorá-lo.

Contatado pelo telefone alguns dias depois, o empresário se recordou da jovem e impetuosa decoradora que o abordou e que, desde então, projetou várias de suas casas. A segunda delas foi parar na capa da revista “House & Garden”.

Bill Clinton e a ralé

Por volta dos 30 e poucos anos, Bridges era uma das queridinhas da mídia, formadora de opinião na TV e no impresso, a mais importante nas listas "melhor de" e a estrela de um anúncio de café. E em 2001, ela conseguiu uma nova celebridade como cliente: Bill Clinton, cujos escritórios no Harlem ela decorou. Bridges lembra o frenesi que o projeto gerou nos tabloides: comprando sorvete um dia no supermercado, ela viu sua foto na capa do “The Globe”, o jornal britânico sensacionalista identificada como sendo a nova amante do ex-presidente. "Nova Decoradora Sexy é a Caça de Clinton", dizia a manchete. “Eu comprei todas as cópias e liguei para minha mãe: ‘Se você vir isso, não acredite’”, recorda.

Um dos muitos benefícios da perda de seu cabelo, como sua mãe apontou, é que ela tende a “eliminar a gentalha”. Quando Bridges terminou seu luto pelo que havia perdido (o programa de televisão, alguns amigos para as horas boas e amantes), ela começou a celebrar o que restou.

Agora ela está projetando mais objetos, entre eles um jogo de pratos baseado nos marcos do Harlem, como o teatro Apollo e seu próprio prédio, Graham Court, dos mesmos arquitetos que construíram o Apthorp (conjunto histórico de apartamentos, em Manhattan). O(s) lar(es) é(são) importante(s) para Bridge, mas ela passa a maior parte do tempo em sua propriedade rural, com seus dois cães pastores australianos e seus cavalos. “Não os incomoda o fato de eu não ter cabelo”, diz, “meus cachorros parecem felizes ao me ver, sem questionamentos.”

Tradutor: Erika Brandão (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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