Casa e decoração

Vale a pena comprar um sofá caro? Veja dicas de como escolher a peça

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O sofá John-John, criado por Jean-Marie Massaud para a Poltrona Frau, homenageia John F. Kennedy Jr. imagem: Divulgação

Steven Kurutz

The New York Times, de Nova York (EUA)

Será que alguém morre de empolgação ao comprar um sofá? Não posso dizer que a perspectiva desperta o consumidor apaixonado que vive em mim. Eu já exagerei na compra de cadeiras, roupas de cama e talheres escandinavos que ficam em meu armário, como um lembrete melancólico de todos os jantares que eu não fiz, mas nunca fiquei tentado em gastar grandes somas em um sofá. Quando sou convidado para a casa de outras pessoas, seus sofás não me deixam com inveja. Frequentemente, minha resposta é me jogar confortavelmente sobre o móvel, espalhar algumas migalhas e seguir adiante.

Talvez seja uma questão de ótica. Tome os carros como exemplo. Coloque um Porsche perto de um Kia e é fácil identificar, no primeiro, o design e a engenharia superiores e compreender (até certo grau) seu preço. Mas mostre-me dois sofás, com os preços mais baixo e mais alto do mercado, e não consigo ver muita diferença entre eles. Ambos parecem, mais ou menos, caixas acolchoadas e, provavelmente, ainda vão estar inteiros daqui vinte anos.
Durante muito tempo eu supri minha sala com uma moderna réplica de um sofá dinamarquês, longo e baixo como um barco, que comprei por US$ 100 em uma loja de móveis usados. Quando uma de suas pernas quebrou, coloquei alguns livros sob ela e deixei o lado bom em destaque. Parecia uma solução prática. Sofás aguentam montes de abusos (pelo menos, o meus sim): absorvendo líquidos derramados, colecionando pelos de animais, sendo usados como cama para amigos sem rumo. Na frota do mobiliário de estar, eles são os carros da família. Então, por que gastar uma fortuna com uma Caravan? 
 
A retórica do bom sofá
 
Alguns podem dizer que um belo sofá dura a vida inteira, mas quem quer criar este tipo de compromisso com um móvel? Ele será passado de geração em geração? Você nunca ouve crianças brigando sobre quem vai ficar com o estofado modular. 
 
Ainda assim, agora que preciso de um sofá novo para o lugar daquele que maltratei, estou repensando a minha abordagem. Pode valer a pena, afinal, descobrir o que acontece no design e na confecção de um sofá de luxo em contraste com um modelo econômico, e se vale o investimento ou não.
 
Pensar em sofás como objetos permutáveis é, aparentemente, errôneo. Magnus Breitling, diretor de gestão de produtos na fábrica de cadeiras Emeco e que anteriormente trabalhara com a Vitra, uma empresa de móveis suíça, me esclareceu o assunto "sofás de luxo": “Há muita inteligência neste produto, não só no que se refere à construção, mas em relação aos fornecedores, o esforço e o tempo gastos [em sua concepção e produção] são muito maiores do que com um sofá comum”.
 
Bom, mas eu quero mesmo gastar mais de US$ 5 mil para avalizar o processo criativo de alguém? Posso ser vítima dos nomes dos designers que lidam com roupas, mas não com sofás. 
Elementos de qualidade
 
Para mim, um argumento mais persuasivo seria a qualidade superior da sua construção. Como muitos homens, sou suscetível à ideia de coisas feitas por artesãos utilizando ferramentas misteriosas e práticas de trabalho intensivo que remontam a Era Medieval. Kayel De Angelis - da tapeçaria nova iorquina De Angelis, que surgiu há mais de sessenta anos com o avô de Kayel, Guido - é um desses artesãos. Para provar isso, ele começou a lançar termos de marcenaria que eu não entendia, como "malhete" e "cavilha".  
 
Em um sofá barato, De Angelis afirma, “você pode ver as armações de compensado que são grampeadas e a espuma por dentro. Em estruturas feitas desse modo – depois de um ano ou pouco mais -, o braço possivelmente estará frouxo. O corpo de um sofá caro, porém, geralmente é feito de uma madeira robusta como freixo ou bordo, unida com cola e cavilhas ou junções macho e fêmea”. 
 
“A junta é tão forte quanto ou mais forte que, a madeira em si. Depois as múltiplas camadas do estofamento não vão degradar como a espuma”, arremata o tapeceiro. Alinhando o discurso, Breitling aponta as almofadas e o revestimento como outros diferenciais: “O tempo de vida do tecido ou do couro é muito maior em um sofá caro”.
Vale a pena?
 
Mas, assumindo que eu pretendo investir em um sofá bem feito, como vou saber se estou realmente adquirindo uma peça que vale US$ 10 mil ou se estou pagando US$ 2 mil pelo material e mão de obra e os outros US$ 8 mil pelo marketing e para o design europeu “bacanudo”?  
 
Annie Elliot, uma designer de interiores de Washington que tem fortes opiniões sobre o assunto, acredita que um sofá de cinco dígitos não é só “hype”: “Diferentemente da moda, que você paga pelo estilo e pelo nome, mas não necessariamente pela execução, com um sofá acho que você está pagando a qualidade. Você está levando materiais como almofadas de pena e penugem, e não espuma”.
 
Porém, a decoradora não vê muita diferença entre sofás com preços medianos (algo entre US$ 2 mil e US$ 4 mil) e os ultracaros, além do formato ou de leves diferenças na qualidade do tecido ou do estofamento. “Agora, quando o preço fica abaixo dos US$ 1.000, é que você precisa tomar cuidado”, aconselha Elliott. Porque nesses casos, segundo ela, os fabricantes provavelmente estão utilizando matéria-prima barata para manter o preço baixo.
 
Embora Elliott enxergue o valor no investimento em um sofá de ponta, acredita também que esta é uma compra condicionada a uma forma e a um tempo de vida. “Se você está naquele momento nômade, mudando depois de poucos anos e, às vezes, sem o auxílio de uma empresa de mudança, não vai querer investir em um sofá caro. Ele vai ser destruído”. 
 
Em busca do meu sofá, eu queria aprender mais. Liguei então para Roberto Archetti, o diretor da Poltrona Frau (conhecida por seus sofás de altíssima qualidade, manufaturados  na Itália), e perguntei, ceticamente, o que tem em um sofá de US$ 13 mil. Barras de ouro? Calmamente, Archetti começou a me "atacar" com as características de luxo do sofá (modelo John-John): o assento é de faia maciça; as penas das almofadas são aplicadas à mão; o couro de grão superior é da mais alta qualidade e tingido até a sua camada interna, assim um arranhão na superfície não vai revelar o forro branco. Mas ele ainda não havia terminado: a espuma também é moldada à mão e as vacas que fornecem o couro foram tratadas com gentileza. Ao desligar, eu estava desarmado, mas ainda incerto de que um sofá valia todo aquele investimento. Afinal, eu me sentiria apavorado em sentar nele?   

Especialistas ensinam como escolher o melhor sofá para sua casa

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O teste do sofá
 
Tim Springer, o fundador da Hero, Inc., que dá consultoria para empresas sobre ergonomia e design ambiental, diz que compradores de sofás sempre cometem o erro de simplesmente se jogarem e darem umas remexidas por menos de um minuto e, então, tomarem uma decisão de momento. “Você não entra em um carro na loja por 15, 20 segundos, sai e diz ‘vou levar esse’, mas você vê isso a todo momento com móveis”, pontua. 
 
Ele dá algumas dicas para escolher um sofá que não só vai se manter inteiro, mas que também será confortável durante anos:
 
- Vá com calma: assistir a um filme em casa pode te segurar no sofá por duas horas (ou mais!). “Então dez minutos na loja não é pedir muito. Se você se sentir confortável no primeiro minuto, mas três ou cinco minutos depois pensar ‘então, sabe como é…’, isto indica que ele pode não ser o mais adequado”, recomenda Springer.
 
- Olhe embaixo da peça: pergunte coisas como do que é feita a estrutura? Como ela é colada? Qual o tipo de estofamento utilizado nas almofadas? Se não estiver satisfeito, não tenha medo de pedir para levantar a peça. “Se eu vou gastar bastante dinheiro, vou virar para olhá-lo por baixo”, ensina. 
 
- Faça o teste da flexibilidade: se você conseguir “torcer” a estrutura, isso pode indicar uma fabricação de má qualidade. “Tem um pouco de física nisso”, afirma Springer, “se você tiver um sofá muito comprido, é provável que possa flexioná-lo. Mas se o encosto ou os braços se mexerem com facilidade, isto provavelmente não é um bom sinal”.
 
- Trate o showroom como se fosse a sua sala: “Não deixe que o vendedor pressione você”, aconselha. “O dinheiro é seu, no final das contas. Você precisa interiorizar que está ali porque quer avaliar aquela peça. Seja crítico, pois essa é a sua chance de tomar uma decisão”.
 

Tradutor: Erika Brandão (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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