Casa e decoração

Casa de vidro é marco da arquitetura moderna nos EUA; conheça

Randy Harris/ The New York Times
A sala da Glass Housedesenhada por Philip Johnson reúne poltronas Barcelona, desenhadas por Mies Van der Rohe, em 1929, e o quadro "Burial of Phocion", pintado em 1648 por Nicolas Poussin (à dir.) imagem: Randy Harris/ The New York Times

Guy Trebay

New Canaan, Connecticut, EUA

As multidões aos fins de semana que bloqueavam a Ponus Ridge Road, em dezembro de 1949, estavam em clima de férias, informava o The New York Times. Centenas de pessoas “desta conservadora e antiga comunidade de casas coloniais” haviam ido ver os trabalhadores dando seus toques finais em uma casa, que poucos poderiam prever, se tornaria um clássico modernista.

“Surpresos, visitantes inesperados vagavam pelo local para ver os resultados, com expressões que mesclavam admiração, espanto e indignação”, escrevera o Times. “Eles dizem nunca terem visto nada igual por estas bandas.”

A estrutura era a Glass House (Casa de Vidro) de Philip Johnson, uma construção que solidificou a reputação deste arquiteto cujos dons variados acabariam por lhe render todos os elogios possíveis para a profissão e que se destacou como o exemplo mais conhecido do modernismo americano.

Anos antes de sua morte, Johnson transferiu sua propriedade de pouco menos de 20 hectares e suas várias construções para o Fundo Nacional de Preservação Histórica. Porém, o arquiteto  continuou a viver na residência com paredes de vidro até morrer dormindo, pouco antes dos 100 anos, em 2005.

Desde então, o Fundo tem trabalhado para transformar o local de "um santuário arquitetônico raramente visitado" para o que Henry Urbach, diretor da Casa de Vidro, chama de “um local de experimentação”.

Algo apoiado e reforçado pela proposição apresentada por Vincent Scully, Professor Emérito de História da Arte em Arquitetura na Universidade de Yale, de que Johnson havia criado tanto um grande monumento, quanto o salão cultural mais sustentável dos Estados Unidos. E assim, de uma forma indireta, foi como (eu, o repórter Guy Trebay) acabei acordando na cama de Philip Johnson.

Convidado, por uma bagatela

“Seja Nosso Convidado”, dizia o texto que acompanhava uma fotografia de página dupla na seção “Fantasy Gifts” do Anuário de Natal de Neiman Marcus, publicado pela revista varejista de artigos de luxo do Texas desde 1926. Por US$ 30 mil, dizia a observação no catálogo, “você e até dez de seus entes queridos mais próximos” podem ser convidados para jantar na Casa de Vidro de Johnson, em uma noite que inclui uma excursão guiada pelos jardins e uma visita às galerias de pintura e escultura que Johnson e seu parceiro, o curador David G. Whitney, criaram e preencheram com uma grande e importante coleção de arte contemporânea.

Somente depois que os copos de vinho fossem esvaziados, as velas apagadas e os convidados enviados para as estradas sinuosas de Nova Canaan, contudo, é que o comprador do “Presente Fantasia” experimentaria o que alguns consideram a melhor parte da noite: ter a Casa de Vidro só para si.

  • Randy Harris/ The New York Times

    O banheiro, que fica dentro do cilindro de tijolos vermelhos, é revestido por pastilhas cerâmicas verdes. A iluminação do espelho é lateral, o que ajuda a não criar sombras no rosto

Isso quase nunca aconteceu com os convidados de Johnson durante sua vida. É verdade, houve uma época em que ele emprestava a casa para clientes por um fim de semana, indo morar temporariamente em uma estrutura adjacente. “Mas ele dizia: ‘Uma vez e nunca mais’”, explica Hilary Lewis, historiadora de arte e estudiosa de Johnson. “Philip achava que convidados eram um incômodo”, completa Lewis. “Então, a menos que estivesse namorando Philip Johnson, você provavelmente nunca passaria a noite na casa.”

Um cochilo

A minha experiência, porém, não passou de um casto cochilo, um teste oferecido por Urbach, cuja única outra avaliação de como a casa funciona para hóspedes que pernoitam veio recentemente, quando os arquitetos Ricardo Scofidio e Elizabeth Diller apareceram por lá após uma complexa conversa sobre a Casa de Vidro. Longe de ser acadêmico ou sério, o motivo da minha visita foi pragmático, como “um testador de cama”.

“Nós queremos oferecer e saber qual a sensação de estar na casa”, afirma Urbach. Philip Johnson e David Whitney, ele acrescenta, “queriam muito que este lugar estivesse vivo de uma forma criativa, que fosse sofisticada e divertida”. Eles desejariam preservar de forma vital “tanto as qualidades históricas quanto as ‘mágicas’”, conclui o diretor da organização que mantém e pesquisa a propriedade.

Que a Casa de Vidro é histórica, isso é inquestionável. Ao contrário da estrutura a partir da qual ela mais abertamente se inspirou – a etérea Casa Farnsworth, de Ludwig Mies van der Rohe, em Plano, Illinois – o prédio ganhou fama imediatamente. No entanto, até agora, mais de meio século depois, as qualidades fascinantes do local permanecem desconhecidas e evasivas, experimentadas apenas em partes e por visitantes cujos números anuais mal atingem 13 mil.

A casa devassada

Em pouco menos de 168 m², a escala da Casa de Vidro é modesta o suficiente para que os pontuais destaques possam ser registrados com facilidade: há o elegante invólucro de vidro e a simetria pura. Há um núcleo cilíndrico de tijolos aparentes que abriga um banheiro espartano e a lareira da sala.

Há a escultura de Elie Nadelman, de 1930, em gesso e papel machê, chamada “Duas Mulheres Circenses”. Há o sombrio (Nicolas) Poussin, de 1648, retratando o "Funeral de Phocion." Há as poltronas de couro caramelo infinitamente copiadas e projetadas por Mies van der Rohe para o Pavilhão Alemão da Exposição Internacional de Barcelona, em 1929. E por todo o lado, claro, as vistas.

Embora Johnson tenha feito 16 projetos completos antes de decidir qual seria a versão final da sua Casa de Vidro, já sabia onde a construção se assentaria em 1946. “A escolha pela colina eu fiz nos primeiros cinco minutos”, escreveu certa vez. Ele nunca se preocupou em considerar qualquer outro local.

As razões parecem tanto lógicas – no final dos anos 1940, a casa transparente ficava protegida e  escondida pela floresta – quanto curiosamente supersticiosas, ainda mais pelo fato de Johnson se considerar um puritano racionalista unitarianista. Pois foi sua interpretação da geomancia japonesa que o levou a instalar a residência na beira de uma rocha.

Geomancia e “camping”

“Você sempre deve construir sua casa sobre uma plataforma, porque bons espíritos serão capturados pela colina que está atrás da casa”, disse Johnson ao historiador Lewis, como citado em “Philip Johnson: O Arquiteto em Suas Próprias Palavras”. O declive abrupto para o charco em frente à casa também foi importante, uma vez que os espíritos malignos teriam dificuldade para subir o morro.

No livro de Lewis, Johnson compara a experiência de ficar na Casa de Vidro a estar em um “acampamento de férias permanente protegido do tempo” e, inevitavelmente, um visitante relembrou essas palavras, enquanto se acomodava em uma cadeira Barcelona para observar um conjunto de nuvens cinza que vinham do oeste e para ouvir a alcateia de coiotes, nas matas próximas, que uivavam em coro.

Sozinho na casa naquela noite, eu fiquei recordando detalhes randomicamente. Bisbilhotei dentro dos armários e abri gavetas, porque naquele momento eu podia. Abri uma pequena caixa de malaquita cujo conteúdo inventariado incluía uma foto de passaporte em preto e branco de Lincoln Kirstein (escritor), uma moeda de um centavo de Singapura, uma moeda de dez centavos do Canadá, uma caixa de fósforos e alguns papéis para enrolar cigarro.

Experimentei a cama, um colchão firme de crina de cavalo, da venerada Charles H. Beckley Inc., e achei confortável, só que estreita demais para ser devidamente compartilhada. Tentei ler um livro, mas logo desisti, em parte porque havia poucas fontes de iluminação (Johnson mantinha as lâmpadas guardadas até que fossem necessárias). Finalmente, depois de uma taça de vinho, eu me rendi à lógica e ao poder da estrutura transparente e me deitei na penumbra, olhando para a silhueta estilizada das árvores nuas de inverno.

 

Tradutor: Erika Brandão (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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