Decoração de ambientes

Em Nova York, apê de arquiteto tem décor "afetiva" com móveis antigos

Bruce Buck/The New York Times
No apartamento de Alan Wanzenberg, ao lado da cama, está a obra do pintor italiano Francesco Clemente imagem: Bruce Buck/The New York Times

Penelope Green

Nova York, EUA

Um era autodidata, seu olhar voraz e intuitivo moldado por seus anos na Factory de Andy Warhol e pela curadoria das variadas aquisições do artista, criando ordem e beleza no sobrado de Warhol. O outro era mais formalmente (se não muito tradicionalmente) educado, em Berkeley, Harvard e durante seu trabalho ainda como jovem arquiteto, logo após se formar, no escritório de arquitetura do norte-americano Ieoh Ming Pei. Juntos, Jed Johnson e Alan Wanzenberg formaram uma das parcerias de design mais influentes da década de 80 e início dos anos 90, desenvolvendo ambientes sensuais e modernos para celebridades e grandes nomes do mundo da arte como Richard Gere, Mick Jagger e Jerry Hall, Peter e Sandy Brant e Beth Rudin DeWoody.

Johnson e Wanzenberg revigoraram peças de arte e artesanato misturando Stickley com Ruhlman, cerâmica Fulper com Jean Michel Frank. Ao fazê-lo, eles deram início ao desejo da década por todas as coisas, embora, como escreveu certa vez o crítico de arquitetura Paul Goldberger, eles não apenas coletavam peças de mobiliário de Gustav Stickley e objetos de Louis J. Millet, “mas sabiam quando parar”.

O trabalho deles era intelectual e apaixonado, uma aula sobre mobiliário do início do século 20 e arte contemporânea. Em nenhum lugar esse cenário era mais vivo do que no apartamento deles, na West 67th Street, um estúdio de artista da virada do século 19 (embora com três quartos), muito fotografado e preenchido com os arranjos típicos, juntamente com peças personalizadas e uma pitada liberal de Warhols.

Como disse Goldberger recentemente, os dois eram “um oásis de sanidade em meio a todo aquele mundo de Warhol, duas das pessoas mais centradas que conheci, embora de maneiras bem diferentes”. Johnson era tímido em público, capaz de lembrar objetos significativos de um quarto, mas não os nomes de seus proprietários. Ele era impulsivo, um pouco atormentado e destilava humor negro, caso você o conhecesse bem. Wanzenberg, seguro e literal, que se levava mais a sério, da forma como os arquitetos às vezes fazem, e Johnson tinha prazer em provocá-lo. Eles tinham um cachorro da raça Dachshund chamado Gus e duas casas na Ilha do Fogo, em Cabo Verde. Em 1996, quando Johnson morreu no acidente do voo 800 da TWA, ele estava com 47 anos e Wanzenberg, com 45.

Dezessete anos depois, Wanzenberg, agora com 62 anos, reformulou totalmente a sua vida, finalmente se mudando daquele apartamento, que vendeu há pouco mais de um ano para um cliente, juntamente com grande parte do que ele continha, por mais de US$ 4,3 milhões. Ele está vivendo de forma minimalista no que chama de um apartamento “sem emoção” de dois quartos, no 42º andar de um prédio na West 60th Street.

É um ato de redução que coincide com um livro de memórias de gêneros. “Journey”, lançado recentemente, é uma exploração sincera das pessoas e lugares que influenciaram Wanzenberg como pessoa e como arquiteto – de Angela Davis e Christopher Alexander à memória de uma bacia de limões simplesmente colocada na Casa de Vidro de Philip Johnson. Sobre Jed Johnson, ele escreve que, na época de sua morte, Johnson estava mais feliz que nunca, confortável consigo mesmo e orgulhoso por tudo o que havia feito.

Bruce Buck/The New York Times
Na sala de estar com móveis de madeira, Alan Wanzenberg, com seu cachorro Skip imagem: Bruce Buck/The New York Times

Outro dia, Wanzenberg estava sentado de pernas cruzadas no sofá de seu novo apartamento, uma pequena figura vestindo camiseta e jeans, distraidamente jogando brinquedos caninos para um ansioso filhote de Daschund chamado Skip. (Não se engane, ele morde). “Esta capacidade de mudar foi trabalhada durante 16 anos”, disse o arquiteto. “É como estar diante de um espelho para as pessoas da nossa idade. Você pode fazê-lo? Você pode fazê-lo enquanto for jovem o suficiente, assim ainda poderá ter a próxima fase de sua vida?”.

A perda e a mudança

Johnson e Wanzenberg estavam com quase 30 anos quando compraram o apartamento deles, por US$ 325 mil. “Parecia um monte de dinheiro na época e fizemos tudo o que podíamos para fazer dar certo”, disse Wanzenberg. “Nós nos mudamos meio que não levando nada. Quando Jed morreu foi horrível, caótico e assustador, e tinha também um monte de coisas: coisas que eu mantinha em respeito a ele e era muita coisa. Eu fiz isso com certa energia e não me desanimei, mas era muita coisa", conta.

Levou seis anos, disse ele, para que se acertasse depois da morte de Johnson. Ele lembrou as muitas cartas de pêsames, muitas de jovens gays que viam o casal como modelo, graças à sua visibilidade. No primeiro ano, amigos como Pat Hackett, Angela Westwater e Fran Lebowitz amorteceram os acontecimentos. No segundo ano ele se isolou, trabalhou duro e meditou em casa. No terceiro ano ele começou a sair novamente. Talvez no quarto ano ele tenha voltado a namorar, embora tivesse sido capaz de encontrar defeitos na maioria dos homens que conheceu. "Eu me lembro de Fran dizendo para mim: ‘Eu não sou bom com relacionamentos, mas você é. Nesse momento, você simplesmente não quer ter um relacionamento. Mas quando você estiver pronto, você vai saber como fazer isso’”.

Há dez anos, Wanzenberg conheceu Peter Kelly, um paisagista, durante a Semana de Esqui Gay em Aspen, no Colorado. Uma combinação tão boa, disse o arquiteto, que até impulsionou a presença de outros no evento. Com o tempo, Wanzenberg e Kelly fizeram casas que parecem tanto com eles quanto o apartamento da West 67th Street fora um retrato de Johnson e Wanzenberg: um bangalô numa cidade de surfistas na Costa Rica e uma casa pré-fabricada no interior do estado de Nova York para acampar enquanto constroem uma casa nova.

Este novo apartamento se encaixa na premissa da ilha deserta: se você não pode levar muita coisa, o que é mais importante? Dos milhares de livros da West 67th Street, só alguns foram levados na mudança: “Homem Invisível”, de Ralph Ellison, um pouco de Cheever, Dorothy Parker e Truman Capote. Na sala de estar, o sofá foi projetado por Wanzenberg para ser uma cama de hóspedes. No quarto minimalista há duas pequenas pinturas de Forrest Bess e Farrell Brickhouse à altura dos olhos e uma vista surpreendente da parte baixa de Manhattan.

“O antigo apartamento era um espaço muito integrado”, disse Wanzenberg. “Você perdia a noção de tempo, o que poderia ser uma coisa boa, especialmente durante minha recuperação”.

Relembrando os apartamentos do prédio, Goldberger disse: “O melhor deles tem uma iluminação decente, mas nenhum deles tem vista. Então Alan está conseguindo a única coisa que nunca teve antes: uma belíssima vista”.

Tradutor: Erika Brandão (tradução) e Karine Serezuella (edição)

 
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