Casa e decoração

Dos anos 1940, casa de metal tem telhado cônico e janelas esféricas

Randy Harris/The New York Times
A casa de metal está localizada em Camp Evans, uma base militar desativada em Wall Township (EUA) imagem: Randy Harris/The New York Times

Alastair Gordon

The New York Times, em Nova Jersey, EUA

Camp Evans, uma base desmantelada do Exército norte-americano, em Wall Township, Nova Jersey, está parada no tempo desde meados do século 20. Seus prédios administrativos, com tijolos à mostra, e suas cabanas Quonset, lacradas com tábuas, estão desocupadas desde a Segunda Guerra Mundial. Fred Carl, de 59 anos, um ex-professor de ciências do ensino médio e responsável extraoficial pelo local, conduz o visitante por outras memórias daquela época: uma série de casas de metal ondulado com janelas redondas e telhados cônicos. Elas parecem habitações alienígenas vindas do céu.

Estes são os únicos exemplares conhecidos que sobraram das Unidades de Preparação de Tropas Dymaxion, que R. Buckminster Fuller projetou como resposta para as necessidades de alojamento em tempos de guerra. Concebidas como abrigos de baixo custo que poderiam acomodar confortavelmente uma família de quatro pessoas, as unidades, conhecidas como DDUs, foram fabricadas no início da década de 40 e distribuídas por bases militares do mundo todo. Mas a guerra que as inspirou eventualmente acabaria tirando-as de produção.

Por um longo período pareceu que as DDUs haviam desaparecido da face da Terra, mas elas não estão completamente extintas e podemos agradecer Carl, além de políticos locais, preservacionistas e cidadãos simpatizantes pela causa. Se o Exército tivesse feito as coisas do jeito dele em Camp Evans, “isso tudo teria sido demolido”, disse Carl.

A ideia para as DDUs surgiu para Fuller em novembro de 1940, enquanto ele estava dirigindo pela região Centro-Oeste com um amigo, o romancista Christopher Morley. Os dois estavam em uma caçada quixotesca por cartas perdidas escritas por Edgar Allan Poe. No caminho, Fuller ficou fascinado por aquelas caixas de metal para armazenamento de grãos que se perfilavam à beira das estradas de Illinois. Carl descobriu que elas foram feitas pela Butler Manufacturing Co., da cidade de Kansas, no Missouri.

A Europa estava em guerra e os jornais estavam cheios de histórias sobre uma Londres devastada pelos intensivos bombardeios da Alemanha. Fuller começou a imaginar como as estruturas utilitárias poderiam ser convertidas em abrigos de emergência. Sua ideia foi transformar os contêineres galvanizados da Butler (“seguros contra fogo, ratos, clima e resíduos”, prometia o slogan), para que pudessem então ser enviados a qualquer lugar do mundo e montados rapidamente como abrigos à prova de bombas.

Naquele momento, sua utilidade não acabaria ali. Em tempos de paz, Fuller então propôs vendê-los como bangalôs de férias de baixo custo para civis. A adiantada campanha publicitária da Butler mostrou uma DDU montada na floresta, com cadeiras dobráveis perto da porta e, dentro dela, uma família reunida em torno de uma mesa de café em forma de feijão.

Em abril de 1941, o primeiro protótipo da DDU havia acabado de sair da linha de produção da Butler e Fuller foi apresentá-lo à Divisão da Coordenação de Abrigos de Defesa em Washington. Erguida ao longo do rio Potomac, a estrutura tinha 3,6 m de altura por seis metros de diâmetro, com dez janelas e 15 pequenas claraboias. Walter Sanders, arquiteto, concordou em testar, habitando a unidade por vários dias com sua esposa.

Como anunciado, a unidade custava US$ 1.250 e vinha com todo o mobiliário e eletrodomésticos da Montgomery Ward, inclusive geladeira e fogão movidos a querosene. No seu interior, a crueza industrial fora atenuada com cortinas sobre as vigias e uma cortina à prova de fogo, com peso feito por correntes de pneus e projetada para dividir o interior em quatro partes, na forma de pedaços de torta. O ar circulava através de um ventilador ajustável no teto e os pisos foram feitos de chapas de madeira de 3 mm de espessura.

O Fórum Arquitetônico chamou a casa de “uma adaptação fantasiada da humilde caixa de grãos”, mas elogiou seu custo razoável e sua fácil montagem (uma pessoa poderia montar a unidade em menos de um dia).

Em outubro de 1941, uma DDU foi instalada no jardim das esculturas do Museu de Arte Moderna. “embora não seja à prova de um ataque direto, suas superfícies circulares e onduladas desviam fragmentos de bombas ou detritos voadores”, afirmou o comunicado de imprensa da exposição. O texto citou a observação de Fuller de que uma casa redonda era mais fácil de ser camuflada em caso de ataques aéreos: “coincide com formas da natureza, como árvores e pequenos morros”, disse Fuller. Menos de dois meses depois, o Japão bombardeou Pearl Harbor e os Estados Unidos entraram na Guerra.

As casas sobreviventes em Camp Evans

Como os primeiros registros da Butler não existem mais, não se sabe ao certo quantas DDUs foram fabricadas. Os historiadores acreditam que foram mais de cem. Corporações compraram algumas unidades e as enviaram para bases do Mediterrâneo, Golfo Pérsico e Pacífico, onde abrigavam pilotos, equipes de radar e mecânicos de aviões.

Mas logo após o início da guerra o governo começou a racionar metal e a produção das DDUs foi interrompida. O sonho de Fuller de um abrigo produzido em massa e com preço acessível foi interrompido, embora temporariamente. Ele logo passou a trabalhar na Dymaxion Living Machine (também conhecida como Casa de Wichita), uma casa de alumínio fabricada pela Beech Aircraft, sediada em Wichita, no Kansas.

Randy Harris/The New York Times
A artista plástica Patricia Arroyo transformou a casa de metal em seu estúdio de arte imagem: Randy Harris/The New York Times

Em algum momento entre 1941 e 1943, aproximadamente 20 DDUs foram levadas para Camp Evans, uma propriedade de 1 km² que havia sido local de uma estação de recepção transatlântica construída pela Marconi Wireless Telegraph Co. da América. Mais tarde, o lugar foi usado pelos militares para comunicações da Primeira Guerra Mundial e, em 1941, foi aprimorado para o programa de pesquisa de radar da Signal Corps. Várias invenções importantes surgiram ali, inclusive o sistema de radar SCR-270, que detectou a aeronave japonesa sobre Opana Point, no Havaí, na manhã do ataque a Pearl Harbor.

Fred Carl conhecia um pouco desta história quando comprou uma propriedade em 1985 que fazia fronteira com o lado oeste de Camp Evans. Quando a base fechou, em 1993, ele tinha aprendido o suficiente para impor resistência aos planos do Exército de demolir tudo e vender o terreno. Ele começou a falar em audiências públicas.

Grande parte do seu interesse estava centrado na estação de recepção sem fios perto da entrada da base, conhecida como Hotel Marconi. Nem Carl, nem ninguém sabia o que eram as DDUs em 1994, quando ele conseguiu seu primeiro acesso a Camp Evans. E não foi antes de 1996, quando um estudo de recursos históricos patrocinado pelo Departamento de Defesa foi concluído, que a sua procedência ficou clara. “Eu tinha ouvido falar de Buckminster Fuller, porque costumava ensinar aos meus alunos sobre sua cúpula geodésica”, disse Carl. Ainda assim, o Exército tinha a intenção de demolir tudo o que havia no terreno.

“Começamos a fazer muitas perguntas”, disse Elizabeth Merritt, representante do conselho geral no Fundo Nacional para Preservação Histórica, que trabalhou com Carl e outras pessoas para proteger a base. “Lembramos ao Exército da obrigação deles em cumprir as leis federais de preservação histórica, e o que soubemos depois é que eles recuaram”.

Em 1º de abril de 2004, os militares concordaram em transferir 150 mil m² de Camp Evans, incluindo 16 prédios, para o Condado de Wall Township and Monmouth. O local opera atualmente sob a administração de Carl e de outros voluntários que estabeleceram, em 1998, uma organização sem fins lucrativos chamada InfoAge. Eles transformaram o Hotel Marconi em um museu, com exposições dos diferentes tipos de radares desenvolvidos em Camp Evans. “É uma extraordinária história de sucesso”, disse Merritt.

Atualmente existem 12 unidades em diferentes estados de decomposição em toda a área. Algumas estão danificadas e enferrujadas, com tasneiras e heras venenosas crescendo nas fendas. Aqui e ali você pode ver o aço original à mostra. Outras parecem bem preservadas, assentadas sobre lajes circulares de concreto, com os seus preenchimentos originais de Plexiglas agora leitosos e fissurados como flocos de neve.

Uso artístico às casas

Pelo que Carl sabe, as DDUs de Camp Evans nunca foram utilizadas como abrigo para seres humanos, mas foram adaptadas como áreas de proteção para trabalhadores que manuseavam materiais de risco (uma foto antiga que ele encontrou retrata um trabalhador de Camp Evans em uma das unidades, trabalhando com alumínio fundido). Carl e seus associados limparam alguns dos interiores e pintaram as paredes externas de sete DDUs com uma tinta antiferrugem, um cáqui sem graça que Carl disse ter sido escolhido para combinar com restos da tinta original.

“Seguimos as diretrizes do Departamento de Interiores, que solicitou a proteção das estruturas contra corrosão”, disse. “Estávamos contratualmente obrigados a manter os padrões”.

Embora existam opiniões contrárias sobre qual a melhor forma de preservar as unidades, especialistas geralmente concordam que o metal galvanizado tem de ser protegido de alguma forma. Entre eles está John Warren, que supervisionou a restauração de inúmeros artefatos de Fuller, incluindo a cúpula de 50 metros de diâmetro que imita um olho de mosca, recentemente instalada em frente à Estação Central de Amsterdã. 

Para o Dia das Bruxas, Carl e seus companheiros decoraram algumas DDUs para uma festa. Eles também estão com planos de transformá-las em estúdios de locação barata para artistas. Uma artista local, Patricia Arroyo, já transformou uma unidade para este propósito. Arroyo vai lá três ou quatro vezes por semana, dependendo do clima, e trabalha com pinturas baseadas em suas memórias de infância perto do Asbury Park em Nova Jersey. Seu irmão fez uma porta de madeira para a entrada e ela pendurou nas paredes tecidos de cores vivas que haviam sido utilizados em um festival de artes do qual participara. “Fica um pouco frio nessa época, mas é maravilhoso”, disse ela. “Tenho dois aquecedores elétricos.”
 
Diversas instituições e indivíduos têm demonstrado interesse em adquirir as DDUs de Camp Evans. “São artefatos importantes”, disse Marc Greuther, curador-chefe do Museu Heny Ford em Dearborn, Michigan, que espera exibir uma das unidades com a Casa Wichita de Fuller, que já faz parte da coleção.
 
“Fuller sentia que a industrialização tinha que beneficiar a todos e entendeu a poética da produção”, acrescentou Greuther. “Ninguém estava fazendo aquilo até então. Fuller estava tentando fazer tudo funcionar”.

Tradutor: Erika Brandão (tradução) e Karine Serezuella (edição)

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