Casa e decoração

Segunda casa em um só lote diminui custo e entulho e aumenta renda nos EUA

Laure Joliet/ The New York Times
Segunda casa de casal no Oregon, tem quase 45 m² e custou cerca de US$ 60 mil imagem: Laure Joliet/ The New York Times

Sandy Keenan

The New York Times, Portland, Oregon (EUA)

Na maior parte das cidades dos EUA, acrescentar uma segunda casa a um lote familiar único seria ilegal e provocaria uma batalha com os vizinhos que poderia se arrastar por anos, mas não em Portland, Oregon.

Lá, este tipo de habitação – chamada oficialmente de “unidade habitacional acessória”, porém mais conhecida como “flat da vovó”, apartamento de garagem ou casa de viela – está sendo bem-vinda e, até mesmo, encorajada graças às leis de zoneamento amigáveis. Espaços adicionais estão surgindo em todos os lugares, oferecendo moradias populares sem mudar a sensação ou a estrutura de bairros estabelecidos, da maneira como os arranha-céus poderiam fazer.

Na parte sudeste da cidade, Jen Wetland e Brian Scott converteram sua garagem para dois carros em uma casa de 45 m² usando principalmente materiais reaproveitados e a um custo de US$ 60 mil. O casal então se mudou para lá e alugou sua casa de quatro dormitórios. Eles estão felizes em falar sobre como a mudança para um lugar menor é fabuloso e como isso lhes permite trabalhar menos e se divertir mais.

Stephanie e Sam Dyer moram no cobiçado bairro de Boise e construíram uma versão de 32 m² do seu bangalô para que os pais de ambos pudessem ter um lugar para ficar quando viessem visitá-los. No resto do tempo, o casal vem recuperando o investimento de US$ 110 mil, alugando a pequena casa através de sites como Airb'n'b e VRBO.

Por sua vez, Lenore Prato temia ser a primeira de sua grande família italiana incapaz de fornecer um lar para seus pais quando envelhecessem. Então ela e seu marido, Ken Finney, construíram uma casa de 60 m² atrás da residência onde vivem, num terreno de esquina que fica no bairro de Sunnyside. “Eu gosto do fato de estarmos dando o exemplo a nossos filhos. É assim que tratamos nossos pais”, afirma Lenore.

Perto do coração, em dia com o bolso

Além de aproximarem as famílias, esses também são bons exemplos fiscais. Eric Engstrom, urbanista, viu estas pequenas estruturas tornarem-se cada vez mais populares durante seus 16 anos de trabalho para a cidade. “Dada a baixa taxa de espaço vazio, quando estiverem prontas, você pode alugá-las em cerca de uma hora”, afirma. Isso significa também o aumento do valor da propriedade.

As leis de zoneamento em Portland vem mudando aos poucos, desde a década de 1990, para acomodar tais construções. Contudo, foi em 2010 que as maiores mudanças aconteceram, quando a cidade relaxou as normas que limitavam os tamanhos e começou a oferecer o equivalente a um incentivo em dinheiro, renunciando às pesadas taxas usualmente cobradas sobre novo empreendimento. Outras cidades da região noroeste têm seguido nesta direção, mas Portland é a primeira a ofertar um benefício financeiro significativo e uma das poucas que não exige que os proprietários vivam no local, forneçam áreas de estacionamento adicional ou garantam a aprovação dos vizinhos.

Eli Spevak, um construtor local de habitações alternativas que está entre aqueles que fizeram "lobby" pelas políticas em favor das unidades habitacionais acessórias, afirma: “A cidade mudou duas regras e, de repente, passamos de 30 unidades construídas por ano para 200 em 2013” – um número impressionante, considerando que o número total de requisições aprovadas para casas únicas em 2013 foi de 800. “Isso é incrível. O benefício ambiental das construções pequenas é imenso e este é um tipo maravilhosamente flexível de habitação”, conclui.

Mais um exemplo

Na esquina da Rua 29 com a Going, no bairro de Alberta Arts, Kyra Routon-Michelinie e James Michelinie passaram uma infinidade de fins de semana no ano passado construindo a pequena casa atrás de seu bangalô de três dormitórios. No momento, o jovem casal aluga residência maior e mora na menor, que foi projetada pelo pai dela, o arquiteto Steven Routon.

A construção de 65 m² custou cerca de US$ 100 mil, sem contar a mão de obra fornecida  pelo casal e pelos pais dela. A cidade também cooperou ao renunciar às taxas de desenvolvimento. Só isso já fez com que eles economizassem US$ 14 mil – dinheiro que não tinham. “Sem isso, talvez nunca tivéssemos iniciado o projeto”, pondera Kyra. Ainda assim, a obtenção de financiamento era um problema, pois a maioria das instituições de crédito não tem muito conhecimento sobre esta tendência. O casal, todavia, planeja se mudar novamente para a casa principal quando tiver filhos e os pais de Kyra, que moram em outra cidade, usarão a casa menor como sua segunda residência.

O máximo e o mínimo

Claro que o desafio com casas assim pequenas, afirma Jack Barnes – arquiteto local com experiência em habitações adicionais – é “descobrir como fazer tudo caber”. É um pouco como projetar o interior de um barco. O tamanho máximo permitido é de 85 m² ou 75% da metragem quadrada da casa principal do terreno – o que for menor.

Apesar da limitação de espaço, os custos podem facilmente chegar a US$ 250 mil, dependendo do projeto e dos acabamentos, embora a média da unidade acessória – de acordo com uma pesquisa patrocinada pelo Departamento Estadual de Qualidade Ambiental para 860 construções em Portland, Ashland e Eugene – seja de cerca de 62 m² e custe pouco mais de US$ 80 mil.

Mas o preço acessível é somente parte do apelo dos "flats da vovó". Jordan Palmeri, engenheiro do Departamento de Qualidade Ambiental de Oregon, afirma ter analisado uma série de dados relacionados à sustentabilidade: “Os benefícios de se reduzir o tamanho da casa eram muito maiores do que os de outros programas que estão sendo incentivados. No Oregon, a média das novas casas é de 200 m², cerca de 20 a 30% dos resíduos de aterro do estado vem do entulho associado às construções, demolições e reformas”.

A unidade acessória oferece uma forma de evitar muito deste lixo. “Há muito poucas pessoas que não gostam dessa abordagem, mas este é um pacotinho tão maravilhoso”, conclui.

Tradutor: Erika Brandão e Melissa Brandão Gubel (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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